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Correio da Manhã

Portugal

Arte expulsa a dor

Falar para combater a dor, a inadaptação, o luto, a depressão ou a simples falta de confiança – técnica usada na piscoterapia convencional – pode não ser suficiente para expulsar os problemas que muitas vezes afectam as pessoas. Por isso, a arte-terapia assume-se cada vez mais como uma alternativa ao tradicional divã.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
A dar os primeiros passos em Portugal, apesar dos dez anos de existência da Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT), este tipo de tratamento faz uso da criação artística para expressar a dor, inquietação ou problema que o paciente atravessa.
João Bucho, membro da SPAT, é psicólogo clínico há seis anos, há tanto tempo quanto começou a descobrir este tipo de tratamento. O trabalho desenvolvido por um amigo no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, com doentes psicóticos, aguçou-lhe a atenção, levando-o a participar num dos vários congressos nacionais de arte-terapia anualmente realizados.
“Vinha com alguma resistência, interrogando-me sobre como é que a arte-terapia podia ajudar doentes psicóticos”, afirma. Ainda assim, João Bucho “sentia necessidade de documentar a experiência” que tinha ao nível da psicologia. “Na prática clínica, surgem-nos pessoas muito fechadas e torna-se difícil ajudá-las, usando só os métodos clássicos.”
Essa é exactamente a maior diferença entre a psicoterapia convencional e o tratamento pelo uso da expressão artística. Segundo João Bucho, “na forma convencional, há a mera expressão verbal, o paciente fala sobre os seus problemas, enquanto na arte-terapia são usados mediadores de expressão artística”. E qual é a melhor forma de definir os mediadores de expressão? “É tudo aquilo que permite expressar o eu interno, ou seja, recalcamentos e resistências”, explica o psicólogo.
A pintura, o desenho, a modelagem, o teatro, a mímica, marionetas, música ou dança são algumas das formas através das quais as diferentes pessoas podem exprimir os seus problemas. “Porque para alguns é penoso falarem sobre si”, diz João Bucho.
Os resultados podem alterar o comportamento de quem embarca no tratamento criativo. “Pessoas com grande desvalorização, medo da exposição pública, receio do diálogo e pouca confiança são ajudadas a readquiri-la”, garante o psicólogo.
Para também chegar às populações com mais dificuldade, a SPAT promove um ‘Programa de Intervenção Psicossocial’, ontem apresentado no 7.º Congresso Nacional. O objectivo é chegar às franjas mais desfavorecidas, de várias idades, em várias fases da vida, disponibilizando sessões de tratamento cujo preço varia entre 15 e 40 euros.
PERFIL
João Luís Saporiti Machado da Cruz Bucho nasceu em Lisboa, no dia 04 de Maio de 1962. Licenciado em Psicologia pela Universidade Lusófona, já fez várias pós-graduações na área.
É psicólogo clínico há seis anos, estando mais vocacionado para a idade adulta e 3.ª idade. Hoje em dia é formador de profissionais que pretendam obter mais conhecimentos sobre a arte-terapia, na Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia Além disso, faz também acompanhamento clínico na instituição.
Durante dois anos e meio acompanhou um grupo de doentes psicóticos no Hospital Miguel Bombarda. Com estes doentes desenvolveu actividades de pintura com base em contos de leitura de fadas e lendas. Também ele dedicado à arte, no 7.º Congresso Nacional de Arte-Terapia apresentou uma instalação com o nome ‘Folhas Caídas’.
Tem sido um dos impulsionadores do Programa de Intervenção Psicossocial, através do qual a instituição quer fazer chegar este tipo de tratamento aos mais desfavorecidos.
UM TRIÂNGULO QUE COMUNICA
Para quem tem mais dificuldade em entender o conceito por detrás da arte-psicoterapia, Ruy de Carvalho, psiquiatra e membro da Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT), usa uma imagem: “um triângulo com três lados activos – o paciente, a criação artística e o arte-psicoterapeuta”. Para o especialista, “não é o objecto de arte que interessa, mas o triângulo relacional que implica”. Uma ligação que, segundo Ruy de Carvalho, pode ajudar “crianças, adolescentes, doentes psicóticos ou até populações marginalizadas”.
Para explicar o surgimento do fenómeno, Azevedo e Silva, presidente da SPAT, recorreu ao exemplo da música e das letras nela representadas. De Ellis Regina a Edith Piaf, passando pelo português Vitorino, vários foram os exemplos dados pelo psiquiatra para representar imagens ‘Do Amor e do Amar’, em situações que expressam desde a dor da rejeição, ao sofrimento da perda ou até o desejo intenso.
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