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Correio da Manhã

Portugal
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Assassinado à traição

Uma mancha de sangue no chão, a cerca de dez metros da porta da discoteca africana Balafon, no Bairro de Santo António, em Camarate, mostra o modo violento como Cláudio Mendes perdeu a vida, ontem, pouco antes das seis da manhã.
2 de Julho de 2007 às 00:00
Adelaide Olga, mãe da Vítima, diz que no bairro vive-se com medo
Adelaide Olga, mãe da Vítima, diz que no bairro vive-se com medo FOTO: André Nacho
O jovem, de 26 anos, residente na Quinta do Mocho, terá sido assassinado a tiro de caçadeira por um grupo residente na Quinta da Fonte, na Apelação, que se pôs em fuga depois do disparo fatal. O funeral do jovem angolano deverá realizar-se amanhã.
O INEM chegou ao local 40 minutos depois do tiroteio. Cláudio já estava morto, tendo sido transportado para o Instituto de Medicina Legal, depois dos exames periciais realizados pela PJ de Lisboa, para ser autopsiado. Segundo fonte policial, o motivo do homicídio é, por enquanto, desconhecido. Tudo indica que se tratou de mais um episódio resultante da conhecida rivalidade existente entre os dois bairros – a Quinta da Fonte e a do Mocho.
Os quatro amigos que estavam com Cláudio na hora do crime passaram a manhã de ontem a ser interrogados pela Polícia Judiciária. Vão ficar a aguardar novo contacto da PJ enquanto testemunhas.
No local estiveram ainda elementos da PSP de Sacavém e dos Olivais e uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Camarate (BVC), que transportou um ferido (que também terá estado envolvido no tiroteio) para o Hospital Curry Cabral. “Transportámos um rapaz com ferimentos de bala de borracha num pé por volta das 06h20 e havia outro que lá permaneceu por estar já cadáver”, revela fonte dos BVC ao CM.
Segundo revelou uma testemunha ao Correio da Manhã – que quis manter-se no anonimato para se proteger de eventuais represálias – Cláudio foi morto a sangue frio por um grupo da Quinta da Fonte, composto por mais de dez elementos e que estava dividido em três carros: um Citroen AX branco, um Volkswagen polo G40 branco e um outro cinzento, de onde terão saído os disparos.
“Eles já iam (o Cláudio e os amigos) para casa quando foram atacados pelos gajos da Apelação que estavam escondidos a poucos metros da discoteca”, relata a testemunha. Segundo apurou o CM, o grupo terá agredido Cláudio e os amigos com pedras e, só depois, começaram a chover balas. “Começámos todos a correr mas o Cláudio não conseguiu fugir por estar embriagado e levou um tiro de caçadeira nas costas”, conta a testemunha ao CM. A família está de rastos com o sucedido (ver caixa).
Cláudio morreu ainda antes de entrar na discoteca. Às três da manhã, hora a que chegou, o porteiro não o deixou entrar, argumentando que este não era bem-vindo. Embriagado, o jovem decidiu permanecer à porta para esperar pelos outros amigos que dançavam na discoteca.
"QUEM É QUE VÃO MATAR A SEGUIR?"
Não há recolher obrigatório, nem se trata de uma zona de guerra, mas os moradores da Quinta do Mocho, em Sacavém, garantem que às oito da noite já não se vê ninguém na rua. “Vivemos todos com medo. Ainda na quinta-feira [dia 21 de Junho] uns tipos da Apelação dispararam de dentro de um carro contra quem estava na rua. Agora mataram o meu filho. Quem vão matar a seguir?”, questiona Adelaide Olga, mãe de Cláudio Mendes. Um misto de angústia, tristeza profunda e grande revolta dominam as palavras de Adelaide, a quem carinhosamente chamam de Escurinha. “Esses miúdos da Apelação estão sempre a matar pessoas e vêm aqui fazer tiroteios e a polícia nunca os apanha porque não consegue entrar naquele bairro”, diz a mãe da vítima com o rosto lavado em lágrimas. Cláudio é recordado no bairro como um miúdo pacato, generoso que estava a lutar para singrar na vida. Trabalhava na construção civil e era apaixonado por futebol. “Não percebo como isto aconteceu. Ele não tinha problemas nenhuns com os tipos da Apelação”, garante Luciano Cruz, tio da vítima.
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