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Correio da Manhã

Portugal
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Assistiu à morte dos pais

Em pouco mais de um ano, o pequeno Vítor, de 13 anos, viu morrer o pai e a mãe em dois acidentes na estrada que liga Pisões a Montalegre – em ambos os casos ia sozinho no carro com os progenitores e sobreviveu. Ainda em trauma por ter testemunhado a morte da mãe após um violento choque frontal, o miúdo assistiu ontem de manhã ao despiste que vitimou o pai, que tinha feito questão de levar o filho à escola e terá sido acometido de doença súbita.
9 de Fevereiro de 2008 às 11:00
“Coitado do menino. Como é que uma criança vai suportar isto tudo”, lamentou ontem ao CM Maria do Céu Rocha, que cuidou do ‘Vitinho’ até à morte da mãe, em Novembro de 2006, quando o pai se recusou continuar a viver na casa de família, no lugar de Padrões, Venda Nova.
Descrito como “um menino muito educado, de aspecto franzino e frágil”, com vários problemas de saúde, Vítor só ao final da tarde de ontem ficou a saber da morte do pai, Alcides Teixeira, 57 anos. “O menino ficou a pensar que o pai desmaiou e só o desenganaram após uma psicóloga o ter preparado – no Hospital de Chaves por causa de ferimentos num braço e na cara”, revelou.
Vítor – que faz 14 anos a 29 de Março e tem boas notas na Escola Secundária – apercebeu-se de que algo de anormal se terá passado com o pai e ainda lhe perguntou se ele estava bem, antes de se ter dado o acidente na EN103, a cinco quilómetros de Montalegre, por volta das 09h00. A viatura despistou-se e embateu num poste de ferro de uma placa de trânsito.
Alcides Teixeira já havia sido operado duas vezes ao coração e sofria de diversos problemas de saúde, como diabetes. Os familiares suspeitam de que possa ter morrido de um ataque, antes mesmo do acidente. O veículo também não apresenta danos consideráveis. Quando bombeiros e INEM chegaram ao local, Alcides “já não dava sinais de vida”. ‘Vitinho’ foi transportado ao Centro de Saúde de Montalegre e depois ao Hospital de Chaves, sendo sempre acompanhado por uma professora e uma psicóloga.
Com um irmão de 27 anos emigrado na Suíça, Vítor sempre foi tratado como “o menino do papá e da mamã”. Por isso, os familiares mostram-se sobretudo preocupados com o futuro do adolescente. Essa preocupação tem ajudado a família a melhor suportar a dor pela perda de Alcides Teixeira.
“Para a criança é que é um drama. Depois de ter perdido a mãe daquela forma, foi agora o pai. Mas, apesar de tudo, ele até está bem, por agora. Os próximos dias é que vão ser terríveis, porque para já ainda não se apercebeu bem da tragédia”, desabafou Maria do Céu Rocha, adiantando que o miúdo está aos cuidados da avó paterna, em Friães, onde passou a viver com o pai desde a morte da mãe.
CASA A 30 KM DO TRABALHO
Alcides Teixeira e a mulher fizeram sempre questão de manter residência em Venda Nova, apesar da vida profissional em Montalegre, a cerca de 30 quilómetros. Era esta distância que percorreram diariamente durante vários anos, pela EN103, onde ambos perderam a vida. Maria Alice Teixeira geria uma loja de comércio, com produtos ligados à agricultura, enquanto o marido tinha a empresa AqueciCávado, de pichelaria e materiais sanitários. Mas a empresa e a loja fecharam aquando do acidente ocorrido a 3 de Novembro de 2006: Maria Alice Teixeira, então com 52 anos, seguia com o filho Vítor no carro, quando sofreu um choque frontal com uma viatura conduzida por um jovem de 19 anos. “Quando ela morreu, acabou tudo”, explicou Maria do Céu Rocha, amiga do casal.
SEQUELAS PSICOLÓGICAS
As sequelas psicológicas numa criança após perder a mãe e depois o pai em circunstâncias tão trágicas são garantidas mas não podem, segundo especialistas, ser medidas ‘à priori’. “Tudo depende da maturidade e estrutura mental da criança, para além do modo como vai gerir a nova situação”, referiu ao CM o psicólogo Álvaro de Carvalho. Para este especialista, que se pronuncia sem conhecimento directo deste caso de Vítor, “muito do que agora acontecer depende também da família em que a criança está enquadrada”. “Se tiver familiares próximos, avós ou tios, a quem esteja ligado afectivamente e que possam reconstituir com ele parte da perda, os danos são menos gravosos, certamente”, acrescenta Álvaro de Carvalho. Se é verdade que qualquer criança fica “mais ou menos seriamente afectada” quando o seu ‘mundo’ se altera, quando muda de escola, de casa, de terra, num divórcio, “imagine-se como ficará perante uma violência desta dimensão”, acrescenta o psicólogo.
PORMENORES
PAI ABATIDO
Desde a morte da mulher, Alcides Teixeira ficou extremamente abatido. O filho menor era o centro de todas as atenções e alvo “de todos os mimos”. Há uma semana, para que o filho pudesse dormir um pouco mais, decidiu passar a levá-lo à escola.
IRMÃO MAIS VELHO
‘Vitinho’ tem um irmão de 27 anos. Henrique trabalhava com o pai na AqueciCávado, que fechou após a morte de Maria Alice Teixeira. Henrique não conseguia trabalho e optou então por emigrar para a Suíça – de onde partiu ontem para Portugal.
CONTENCIOSO
Alcides Teixeira – que tem seis irmãos emigrantes em França, Luxemburgo e Suíça, e uma irmã a viver em Braga - enfrentava um contencioso com a companhia de seguros por causa do acidente que vitimou a esposa e envolveu outro carro conduzido por um jovem.
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