Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
5

Atira-se com filho ao rio

Anabela vivia amedrontada com a ideia do filho morrer e a cada dia que passava ficava mais convencida de que o menino de seis anos tinha uma doença incurável. Anteontem à noite a mulher decidiu acabar com o "sofrimento": em desespero pegou no filho e atirou-se ao rio Douro, levando o menino para a morte. Anabela sobreviveu, ao contrário de André. O corpo da criança continuava ontem à noite por encontrar.
29 de Outubro de 2009 às 00:30
Bombeiros passaram todo o dia em buscas, que prosseguem hoje
Bombeiros passaram todo o dia em buscas, que prosseguem hoje FOTO: Rui Manuel Fonseca

Esta foi a primeira versão apresentada pela mulher à polícia, logo após ter sido resgatada. Ao longo do dia Anabela acabou por apresentar inúmeras histórias, sendo que numa delas dizia que o menino caiu ao rio acidentalmente e que ela se tinha atirado para o salvar. As autoridades estão seguras que a versão inicial é a verdadeira.

Tudo leva a crer que a mulher preparou a morte do filho ao pormenor. Anabela saiu da sua casa, em Vilar do Andorinho, com o menino. Eram 15h00 de anteontem. As horas passaram e a família começou a ficar preocupada com o desaparecimento. Eram 08h00 de ontem quando os receios se confirmaram. "A polícia ligou à família a contar que ela estava viva e que tinha aparecido no rio. Não sabiam onde estava o menino", contou ao CM Francisco Fernandes, amigo da família.

Anabela foi resgatada por dois remadores que passavam junto à ponte D. Luís, a mais de três quilómetros do esteiro de Avintes, onde abandonou o carro, se atirou e ao menino ao rio e onde diz estar o corpo de André. Estava em hipotermia e só chamava pela criança. "Ela dizia que queria ir ter com o filho, que precisava de o ver ", disse Fernando Silva, que viu a mulher ser salva.

No vidro da frente do carro, que foi abandonado fechado à chave, a mulher deixou dois bilhetes: com o nome e o número de telemóvel do marido.

FAMÍLIA FAZ BUSCAS NO RIO

Em desespero, alguns familiares do pequeno André pediram um barco emprestado a um pescador para assim eles próprios tentarem descobrir o corpo do menino. "Fiz questão de emprestar o meu barco à família. Eles estão desesperados e quanto mais gente procurar o menino melhor", explicou ao CM Francisco Fernando, o dono da embarcação. Quer a família quer os bombeiros procuraram o corpo do menino durante várias horas, no entanto, sem resultado.

"ELA SOFRE DE UMA DEPRESSÃO HÁ VÁRIOS ANOS"

Anabela sofre de uma depressão pós-parto desde que o filho nasceu. A partir dessa altura a mulher começou a refugiar-se em casa e deixou mesmo de trabalhar. "Desde que o menino nasceu ela ficou com uma depressão. Nunca mais foi a mesma pessoa. Andava sempre muito calada e raramente saía de casa", contou ao CM Mónica Correia, vizinha da família.

No hospital não há registos de outras tentativas de suicídio. No entanto, alguns vizinhos dizem que Anabela tinha um comportamento estranho. "Por várias vezes ela ameaçou que se ia matar. Dizia que a vida dela já não tinha importância", disse Fernanda, outra vizinha. Apesar de tudo, a mulher tinha uma boa relação com o marido e o casal raramente discutia.

DISCURSO DIRECTO

"SISTEMA NÃO ACOMPANHA": Carlos Poiares, Psicólogo criminal

Correio da Manhã – O que pode ter acontecido para que o caso acabasse desta forma trágica?

Carlos Poiares – Parece-me que se trata de alguém com um historial de saúde mental. Se não for acompanhada, e por vezes o nosso sistema de saúde não o faz, pode levar a este fim.

– O que falhou?

– Falharam várias coisas. A intervenção dos serviços de saúde, a família e os mecanismos de prevenção.

– Porque dirigiu a sua angústia para o filho?

– Tinha medo que o filho fosse morrer e parece que não era capaz de gerir essa ideia. Mas há que perceber como via e se relacionava o seu filho.n

OUTROS CASOS

ESTRANGULA A FILHA

Em S. Mamede de Infesta, Maria João, de 6 anos, foi estrangulada pelo pai. Ele diz que matou num "acto de amor".

DOIS TIROS

Luís Silva matou com dois tiros o filho de sete anos, em 2006, em Proença-a-Nova. Fugiu e acabou por se matar.

MATA COM REVÓLVER

Em 2006, em Ovar, uma médica matou a filha de 14 anos a tiro de revólver e suicidou-se com a mesma arma.

MORTES NA NAZARÉ

Uma mulher de 43 anos, de Aveiro, provocou o despiste do carro, matando-se e à filha de 10 anos, no Sítio da Nazaré, em 2003.

NOTAS

BILHETES: NÚMERO DO MARIDO

No vidro da frente do carro Anabela deixou dois bilhetes com o nome e o número de telemóvel do marido. Este é apenas um dos pormenores que leva a crer que a morte do menino foi planeada

FAMÍLIA: QUEIXA NA POLÍCIA

Ontem de madrugada, a irmã de Anabela dirigiu-se à GNR de Lever onde deu conta do desaparecimento da mulher e do sobrinho. Horas depois Anabela apareceu no rio

HOSPITAL: MÃE INTERNADA

Após ser resgatada do rio, Anabela foi internada no Hospital Eduardo Santos Silva, em Vila Nova de Gaia, onde continuava ontem à noite em observação. Diz ter algumas falhas de memória

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)