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Correio da Manhã

Portugal
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Atraso fatal no socorro

Os familiares de uma idosa de Pombal estão indignados com o atraso no socorro à septuagenária, que acabou por morrer ontem de madrugada enquanto esperava por uma ambulância.
19 de Março de 2007 às 00:00
Lúcia Ferreira, filha da vítima, não consegue compreender as razões do atraso da ambulância
Lúcia Ferreira, filha da vítima, não consegue compreender as razões do atraso da ambulância FOTO: Ricardo Graça
Os bombeiros – que estavam a dez minutos de distância – não deram com a casa, tendo sido accionada uma segunda viatura. Quando esta chegou ao local já tinham passado 40 minutos desde o pedido e pouco havia a fazer para salvar a idosa.
Piedade de Jesus Marcelo, de 71 anos, vivia sozinha numa pequena habitação da aldeia de Malhos, freguesia de Pombal. Sofria de problemas respiratórios e, apesar da insistência dos familiares, nunca aceitou sair de casa. Quando as filhas abordavam o assunto respondia de forma sarcástica: “Só saio daqui quando morrer.” Foi o que aconteceu, embora de uma forma dramática que ninguém esperava.
“Se a ambulância chegasse mais cedo nunca se sabe se ela podia ter sido salva”, lamenta Lúcia Ferreira, a filha que ligou para o serviço de emergência a pedir o auxílio dos bombeiros e que viu o tempo passar sem o socorro aparecer.
Lúcia recebeu uma chamada da mãe, pelas 04h00, informando-a de uma indisposição. Deslocou-se de imediato para Malhos e, quando chegou, “ela estava desmaiada, mas viva”. Pediu ajuda pelo 112 e foi accionada uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Pombal.
Meia hora depois a viatura ainda não tinha chegado. Como o quartel “fica a dez minutos” da aldeia, voltou a telefonar. Os serviços do INEM contactaram de novo os voluntários de Pombal e foram informados de que a ambulância já estava a caminho. No entanto, foi accionada uma segunda ambulância, que acabou por chegar rapidamente a casa de Piedade Marcelo, mas com muito atraso em relação ao alerta. A primeira viatura tinha-se perdido.
“Esperámos quase uma hora”, diz Lúcia Ferreira, salientando que os bombeiros ainda efectuaram manobras de reanimação à mãe, mas sem resultados. “Já entrou morta no hospital.”
Resignada, Lúcia espera agora pelos irmãos – a maioria a viver no estrangeiro – para decidir se vai pedir o apuramento de responsabilidades. Mas o mais certo “é passar à frente”, pois já nada irá devolver a vida à mãe.
O comandante dos Voluntários de Pombal, José Costa, prefere não comentar o assunto até ter na sua posse todos os dados e gravações relacionados com a ocorrência. “O que sei é que foi difícil encontrar o local com os dados que nos foram transmitidos”, afirma.
O porta-voz do INEM assegura no entanto que os dados transmitidos aos bombeiros foram fidedignas e recusou culpas no atraso da ambulância.
CRONOLOGIA
04h00
A vítima avisa a filha, por telefone, de que está a sentir-se indisposta.
04h19
Lúcia Ferreira chega a casa da mãe e liga para o 112 a pedir uma ambulância.
04h21
A ambulância dos Bombeiros Voluntários de Pombal é accionada pelo INEM, através do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU).
04h50
Lúcia Ferreira telefona pela segunda vez ao 112, informando que a ambulância ainda não chegou. É accionada uma segunda ambulância.
05h00
A segunda ambulância chega a casa de Piedade de Jesus. Os bombeiros efectuam manobras de reanimação e transportam a vítima para o hospital. Aparece a primeira ambulância, que andou perdida.
VIATURA EM PORTALEGRE
O distrito de Portalegre conta desde hoje com uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). A VMER, a 37.ª a entrar em funcionamento em território nacional, vai permitir um avanço significativo no tratamento pré-hospitalar de situações graves que ocorrem no distrito, sendo possível iniciar o tratamento no local da ocorrência.
Este socorro conta com uma equipa de oito médicos e dez enfermeiros. Com a entrada em funcionamento da viatura, todos os 18 distritos passam a contar com, pelo menos, um meio de emergência pré-hospitalar de Suporte Avançado de Vida, operacional 24 horas por dia.
TRANSPORTE SEM CONTROLO
A Entidade Reguladora de Saúde emitiu um relatório de recomendações ao Governo onde alerta para a existência de várias falhas no serviço de transporte de doentes. Segundo estas recomendações, há uma ausência do controlo do sistema e uma má distribuição dos meios, localizados sobretudo nos “grandes centros urbanos”.
As recomendações indicam que o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) é o coordenador do serviço de transporte de doentes mas “não exerce qualquer poder inspectivo externo, não exercendo sequer um controlo efectivo pela via do licenciamento”, uma vez que o regime em vigor “isenta de alvará os bombeiros e a Cruz Vermelha”.
SEIS HORAS EM ODEMIRA
Um dos últimos casos de atraso no socorro deu-se em Janeiro, em Odemira. António Oliveira, 54 anos, foi atropelado e esperou seis horas para ser transferido para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Morreu cinco dias depois. Os intervenientes no socorro foram ilibados.
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