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Correio da Manhã

Portugal
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AUTOPSIA A CÉREBROS SUSPEITOS

O Ministério da Saúde desbloqueou ontem o equipamento necessário para realizar autópsias a cérebros nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), em casos referentes à versão humana da ‘doença das vacas loucas’ ou da Creutzfeld Jakob (doença do foro neurológico, que também provoca demência e leva à morte). O material, sem o qual não é possível realizar estas autópsias, tem sido pedido ao Ministério da Saúde desde 1999.
31 de Janeiro de 2003 às 00:00
O anúncio foi feito pelo director do serviço de neurologia dos HUC, Luís Cunha, e surge na sequência da demissão de Cortez Pimentel, responsável pelo programa de acompanhamento da versão humana da BSE, que alegou falta de meios para realizar autópsias – fundamentais para determinar os casos de transmissão da BSE aos humanos.

O cérebro mais antigo aguarda desde 2000 nos HUC para ser autopsiado e o mais recente espera há pelo menos oito meses. “Tem havido grande dificuldade em fazer a autópsia. Ou por recusa dos técnicos, por falta de soluções adequadas ou por carências de material”, explicou Luís Cunha. “É altamente improvável que sejam cérebros com a variante humana da BSE, mas não é possível responder com certeza absoluta”, disse.

Apesar de “não haver indícios da transmissão da doença” em Portugal, a verdade é que têm surgido dúvidas. Em Outubro de 2000 chegou a suspeitar-se do caso uma mulher, internada nos HUC, com sintomas da doença. Os clínicos acabaram mais tarde por afirmar não se tratar da versão humana da BSE.

“Os laboratórios de anatomia patológica devem ter capacidade técnica, que não têm até agora, para poder fazer a detecção e o diagnóstico da variante humana da BSE”, declarou ao CM Pereira Miguel, director-geral da Saúde.

Para poder afirmar “com toda a segurança” que Portugal não tem indícios nenhuns que apontem que haja algum caso da doença, é necessário que os laboratórios de anatomia patológica e neuropatologia tenham equipamento capaz de fazer exames anatómicos “mais finos”, o que não acontece até agora.

Como solução para o problema da falta de meios, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) fez estudos e apresentou propostas à tutela, que visam a criação de uma Rede de Referência de Anatomia Patológica.
Esta estrutura prevê a dotação de equipamentos e meios técnicos em “laboratórios de anatomia patológica nos hospitais centrais” de Lisboa, Porto e Coimbra. Ainda não houve uma resposta positiva por parte do Ministério da Saúde. O facto de este problema se manter desde há anos deve-se, segundo Pereira Miguel, a que “esta medida não esteve na primeira linha das prioridades de quem tinha poder de decisão e responsabilidade para fazer alguma coisa nesse sentido”.

Mas não só. A falta de verbas por parte das autoridades de Saúde portuguesas fez com que “não pudessemos ir buscar fundos do Quadro Comunitário de Apoio que havia para esse fim”, diz Pereira Miguel.

Cortez Pimentel lembra, por seu turno, que os portugueses “consumiram perto de dez mil vacas doentes nos últimos anos” e dado o tempo de incubação dos priões há a probabilidade de vir a ocorrer casos da nova variante da Creutzfeld Jakob.

COMISSÃO EUROPEIA ATENTA

A Comissão Europeia está a analisar os meios existentes em Portugal para detectar a versão humana da "doença das vacas loucas", afirmou fonte comunitária. "O caso português está a ser observado para verificar se há ou não que pedir informações a Portugal", adiantou.

Segundo a mesma fonte,não há legislação comunitária específica" que defina programas de acompanhamento da versão humana da BSE, mas "cada país tem de os definir nas legislações nacionais". A Comissão vai agora estar atenta aos mecanismos usados em Portugal.
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