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Correio da Manhã

Portugal
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Aves selvagens feridas tratadas em Monsanto

O lugar do grifo, ave de rapina diurna da família do abutre, não é ali, atrás da rede, mas de asas abertas recortadas no céu azul. Quem o criou numa capoeira tirou-lhe, contudo, qualquer possibilidade de sobreviver na Natureza. Aquele grifo ‘reside’ há três anos no Centro de Recuperação de Animais Silvestres do Parque de Monsanto (CRASPM), que recolhe e trata bichos selvagens feridos ou incapacitados pelo Homem. Todos os anos ali chegam cerca de 400 animais, principalmente aves.
11 de Agosto de 2005 às 00:00
Todos os anos chegam a este ‘hospital’ cerca de 400 animais. Alguns ficam para sempre porque não conseguem sobreviver na natureza
Todos os anos chegam a este ‘hospital’ cerca de 400 animais. Alguns ficam para sempre porque não conseguem sobreviver na natureza FOTO: Natália Ferraz
São as vítimas de colisão, com automóveis ou postes de alta tensão, de tiro ao alvo e da insensatez humana os utentes deste ‘hospital‘ para animais selvagens em plena cidade de Lisboa. “Também há casos de excesso de zelo, nomeadamente quando alguém muito aflito nos traz um filhote de coruja que julgou caído do ninho, mas, provavelmente, andava a ensaiar o voo sob a supervisão dos pais”, nota a veterinária Ana Maria Albuquerque.
Um ‘novelinho’ de coruja encontrado num parque natural deve ser deixado em paz, na expectativa que retome o voo. Num jardim citadino, com cães e gatos à espreita, é preferível pegar-lhe e conduzi-lo ao CRASPM, onde, logo que possível, será devolvido à Natureza.
No bloco operatório, Ana Maria Albuquerque mostra a radiografia de um bufo real. Os pontos mais claros são os chumbos: seis ou sete, enterrados na carne e nos ossos. Sobreviveu à delicada cirurgia. Vemo-lo na área de recuperação, onde os animais retomam os hábitos de caça e voo.
ÁGUIA NUMA GAIOLA
Talvez o bufo real alvejado volte a ser o que era, mas a águia de asa redonda que com ele coabita jamais regressará à vida selvagem. Criaram-na numa gaiola. Não consegue caçar ou identificar o alimento. Está condenada ao cativeiro.
O CRASPM é constituído pelo bloco operatório, a zona de internamento, a área de recuperação, o biotério, onde são criados os animais que servem de alimento aos internados, e o parque dos irrecuperáveis, bichos sãos mas incapazes, sobretudo por razões comportamentais: não aprenderam a caçar ou a proteger-se dos predadores. São excepções os açores e os peneireiros, que depois das cirurgias não reaprenderam a voar devido ao desequilíbrio nas asas.
Muitos chegam em tal estado que não sobrevivem às operações. Um flamingo cravejado de chumbos e com as duas patas partidas, habitante do estuário do Tejo, morreu. Maria Albuquerque guarda-o na memória. “Não posso compreender que alguém tente abater um flamingo.”
PENEIREIROS NA AVENIDA DE ROMA
Mercê das alterações no mundo rural, com a consequente redução de alimento, há cada vez mais animais selvagens que ‘migram’ para a cidade. Quem reside na Avenida de Roma, em Lisboa, talvez já tenha deparado com algum peneireiro-das-torres, pequeno e elegante falcão, quando fazia subir a persiana. “Estes animais estão a tornar-se cada vez mais urbanos, porque na cidade encontram facilmente alimento”, esclarece a veterinária Ana Maria Albuquerque.
Por outro lado, o Parque de Monsanto, no coração da cidade de Lisboa, serve de hotel para animais em viagem. Passam ali a noite. Mesmo um milhafre, débil e desidratado, chegou a procurar naquela mancha florestal refúgio momentâneo.
Outros tornam-se residentes. Lá fizeram o ninho dois ou três casais de águias de asa redonda, que já têm filhotes.
Os esquilos são, contudo, os mais conhecidos residentes de Monsanto. Em Março de 1992 eram 15. Cresceram e multiplicaram-se de tal maneira que 13 anos depois são pelo menos 1800. Deixam sinais por todo o lado. Basta baixar os olhos para encontrar uma pinha descascada. Os esquilos levaram-lhe os pinhões.
Ana M.ª Albuquerque, resp. clínica CRASPM: 'NÃO SÃO DE QUEM OS APANHA'
Correio da Manhã – Quantos animais já tratou neste centro?
Ana Maria Albuquerque – Talvez três mil, assim por alto.
– Que animais?
Trazem-nos principalmente aves, mas também alguns mamíferos. Já aqui esteve uma raposa.
– Quais são os problemas mais frequentes?
– Fracturas, em resultado de colisões. A recuperação demora, em média, um mês ou dois meses. Depois os animais são libertados: os adultos podem sê-lo aqui; os juvenis depende de avaliação prévia. Os animais não são de quem os apanha.
– O que é que acontece aos animais irrecuperáveis?
– Inicialmente tínhamos 15 animais no parque dos irrecuperáveis. Neste momento são cerca de 30. O Instituto da Conservação da Natureza leva-os para os parques naturais quando são em excesso aqui.
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