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Correio da Manhã

Portugal
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Bancos roubados em 50 mil euros por mês

A responsabilidade é assumida pelos bancos, mas as fraudes com cartões multibanco clonados ascendem, desde Abril, a uma média de 50 mil euros por mês – uma vez que cerca de 1500 cartões foram afectados com transacções em cinco meses, envolvendo cerca de 250 mil euros. O mesmo exercício permite saber que estes 1500 lesados foram, em média, roubados em mais de 165 euros.
31 de Agosto de 2006 às 00:00
A culpa é atribuída pelas autoridades às “extensas redes organizadas, oriundas sobretudo de países do Leste da Europa”, confirmou ontem Vítor Bento, presidente da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS) – e que procuram continuamente “sofisticar os seus métodos, organização e capacidades tecnológicas”.
A Polícia Judiciária deteve nos últimos dois anos cerca de 100 indivíduos por diversos crimes contra o sistema português de pagamentos com cartão, entre eles a clonagem. E o futuro passa por todos os cartões multibanco terem ‘chip’ incorporado, até 2010, como já acontece em Inglaterra, evitando a clonagem por método de ‘skimming’.
Mas vamos continuar a viver em constante “luta do gato e do rato”, pelo aperfeiçoamento e uso da tecnologia, “para o bem e para o mal”, lamentou o presidente da SIBS, em conferência de Imprensa. Mas mesmo ainda sem ‘chips’ nos cartões, o presidente da SIBS realça que a rede portuguesa “continua a apresentar elevados indicadores internacionais de segurança”.
Sem querer “menosprezar cada pessoa a quem foi retirado dinheiro da conta”, Vítor Bento ressalva que, tanto quanto sabe, os bancos “têm assumido os prejuízos das fraudes”. E recorda que os cerca de 1500 cartões afectados desde Abril, numa fraude que ascende aos 250 mil euros, representam “apenas 0,09%” dos 17 milhões de cartões que circulam no nosso país, movimentando valores na ordem dos 60 mil milhões de euros/ano.
E tudo, segundo Vítor Bento, graças à “rápida circunscrição do problema. Só assim se conseguiu minimizar consideravelmente o impacto efectivo dos ataques – a umas escassas centenas de afectados –, face ao seu grande efeito potencial, dado o enorme número de cartões multibanco utilizados nos terminais envolvidos”.
Sempre que as zonas de risco são identificadas pela SIBS, os bancos são alertados e tomadas medidas “preventivas”, que o presidente não quis ontem revelar, “por razões de segurança” – mas que passam pelo cancelamento dos cartões, com os bancos a avisarem os clientes e os terminais rapidamente tornados indisponíveis. E exemplo disso, de resto, são os vários testemunhos recolhidos ontem em Castelo Branco pelo CM.
E entretanto, a substituição de 250 terminais ao ar livre com as características dos que foram violados, por outros terminais mais sofisticados, termina no final da semana, adiantou o presidente da SIBS.
O “segredo é a alma do negócio” e, novamente por razões de segurança, Vítor Bento não revela quais as outras zonas do País afectadas. Mas só na primeira quinzena de Agosto, é público que foram violados 463 cartões em máquinas de postos de abastecimento: 300 entre a Benedita, em Alcobaça, e o Cartaxo, e 163 em Castelo Branco.
POPULAÇÃO PREOCUPADA
A clonagem dos cartões está a preocupar Castelo Branco – à medida que dezenas de queixas são apresentadas. As pessoas estão atentas e adoptam comportamentos mais seguros, evitando caixas sem vigilância. Ninguém fica indiferente a esta onda de fraudes porque todos sabem, ou já ouviram falar, de alguém burlado.
É o caso de Rogério Valente, que tinha um dos 163 cartões clonados em Castelo Branco e de cuja conta foram retirados 200 euros. Terça-feira a caixa multibanco reteve-lhe o cartão. Fez um extracto da conta e viu que lhe faltava dinheiro.
“Um levantamento de 200 euros, efectuado no sábado e eu nem sequer tinha saído de casa, pelo que percebi de imediato que algo errado se passava”, conta. O banco (CGD) já se comprometeu a repor o dinheiro e a dar-lhe um cartão novo. Apresentou queixa na PSP e foi ouvido na PJ.
Suspeita que o cartão tenha sido clonado num posto de pagamento automático (POS) de uma bomba da Galp, onde dias antes pagou combustível. A gasolineira foi assaltada e os burlões levaram o POS. Carla Gonçalves e Anabela Matias – informadas pelos bancos que os seus cartões tinham sido clonados –, tiveram mais sorte, porque não lhes foi retirado dinheiro das contas.
COMERCIANTES TRANQUILOS
Os comerciantes de Castelo Branco notam as pessoas preocupadas, mas os movimentos com cartões não têm sofrido grandes alterações. “Nota-se algum receio. Se puderem pagam em dinheiro ou cheque”, diz o comerciante Inácio Caldeira. Por outro lado, Leonel Quinteiro, técnico de Farmácia, refere que “não tem havido qualquer alteração. As pessoas continuam a pagar com o cartão”.
PERIGO NA RUA
EM DEZ LOCAIS
Desde Abril, foi recolhida pelos burlões informação para clonar cartões em dez POS ao ar livre, que a SIBS se escusou ontem a localizar, conhecendo-se apenas os casos dos distritos de Leiria, Santarém e Castelo Branco.
463 CLONADOS
Durante a primeira quinzena deste mês foram clonados e usados 463 cartões. Algumas centenas foram cancelados antes de serem utilizados pelos burlões.
60 MILHÕES
Em Portugal, os cartões multibanco servem para mais de 1500 milhões de transacções, que movimentam na ordem de 60 mil milhões de euros.
QUEIXAS
As autoridades do Cartaxo e da Benedita já receberam cerca de 250 queixas por clonagem.
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