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Correio da Manhã

Portugal
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Barco Jesus de Nazaré salva dois pescadores

João Barros e Dimas Manuel, de 38 e 39 anos, primos, pescadores de Esposende, acompanharam com particular interesse a tragédia do ‘Luz do Sameiro’, mas nunca imaginaram que um dia passassem pelo horror de um naufrágio.
14 de Janeiro de 2007 às 00:00
Ontem, por volta das 09h00, quando se encontravam a colher covos da pesca do polvo, a duas milhas e meia (cerca de quatro quilómetros) da costa, o gancho prendeu-se nas rochas do fundo do mar e, como o motor do guincho não parou e o mar estava agitado, o barco ‘Três Marias’ virou-se e atirou os homens à água.
Foi tudo tão rápido que os dois pescadores, apesar dos 25 anos de experiência no mar, nem tiveram tempo de pegar nos coletes salva-vidas. Também ficaram sem meio de pedir socorro porque o barco, de sete metros, ficou com o casco voltado para cima.
Estiveram cerca de hora e meia na água, a nadar e a segurar-se na embarcação que, por sorte, não foi imediatamente ao fundo.
Valeu-lhes o facto de, cerca das 10h20, Norberto André, pescador da vizinha Apúlia, que andava com o pai e o irmão, no barco ‘Jesus de Nazaré’ a largar aparelhos para o robalo, ter avistado no horizonte “uma coisa a mexer” que lhe parecia ser um homem.
Dirigiram-se de imediato para o local e aperceberam-se de que, de facto, havia dois homens, seus conhecidos, em total desespero. Já estavam a perder as forças e a entrar em estado de hipotermia.
“Um deles ainda conseguiu pôr--se em cima do casco do barco a acenar com os braços, o que permitiu que os avistássemos por entre as vagas do mar”, disse ao Correio da Manhã Adelino André.
Recolheram rapidamente os colegas e rumaram a terra. João Barros e Dimas Manuel deram entrada no Hospital de Fão, entre Apúlia e Esposende, pelas 11h00 e tiveram alta meia hora depois.
"SÓ PENSEI O 'LUZ DO SAMEIRO'"
“Por cem anos que viva nunca me hei-de esquecer estes momentos”, disse ao Correio da Manhã João Barros, o mestre da embarcação naufragada. Referindo que continua vivo “graças a um milagre de Deus”, João Barros diz que na hora e meia que esteve a lutar contra o mar e a pedir desesperadamente socorro, rezou e pensou nos colegas que morreram a 29 de Dezembro junto à praia, na Nazaré.
“Pensei muito no ‘Luz do Sameiro’. Apesar de, quando chegaram os nossos colegas da Apúlia, ainda não ter entrado em pânico, já estava, disso não tenho dúvidas, a entrar em hipotermia, o que podia ser fatal”, contou ao CM. João Barros, assim como o primo, Dimas Manuel, começaram a pescar com 13 anos e, por isso, conhecem bem a arte. No entanto, assegura, “há muitos imponderáveis no mar”.
"JÁ AJUDÁMOS SETE PESSOAS"
Recusando o papel de herói, Adelino André, um dos três tripulantes do ‘Jesus de Nazaré’ (os outros eram o irmão e o pai, ambos de nome Norberto) disse ao Correio da Manhã que, nos mais de 20 anos que leva de profissão, já ajudou a salvar sete pessoas.
“Nós andamos no mar e estamos todos sujeitos. Por isso, quando nos apercebemos de que alguém está em perigo, largamos tudo e tentamos salvar o colega. É o que gostaríamos que outros fizessem no caso de sermos nós as vítimas”, disse Adelino André, sem esconder a satisfação de ter contribuído para que dois “colegas e amigos” tivessem sobrevivido.
Aliás, como os dois primos estavam “completamente gelados”, o pai e os dois irmãos agasalharam-nos com a roupa que tinham no corpo. De resto, Adelino não deixou de tecer algumas críticas à Marinha, que não teve capacidade de rebocar a embarcação para porto seguro. “Temos uma Marinha que é uma desgraça”, disse Adelino André, lamentando que o barco tenha ido ao fundo quando estava a ser rebocado.
OUTROS DADOS
AO FUNDO
Apesar de não ter afundado, quando virou, o barco ‘Três Marias’ acabou por naufragar, ao largo de Castelo do Neiva, quando estava a ser rebocado pela Marinha para a doca pesca de Viana do Castelo. Ao fim do dia de ontem não se sabia se o barco era recuperável.
SOS POR TELEMÓVEL
Estas embarcações mais pequenas, com cerca de sete metros, que pescam até três milhas da costa, não têm sistema de rádio para pedir socorro. O SOS tem de ser dado por telemóvel. No caso de ontem, como o barco virou, os telemóveis foram ao fundo.
COLETES NO BARCO
Os pescadores tinham a bordo coletes salva-vidas, mas não os envergavam no momento do naufrágio. Quando o barco se virou, não tiverem tempo para os colocar. Os náufragos aguentaram-se no mar alto.
PERIGO
Os aladores, motores que içam as armadilhas (covos) do polvo, são de grande potência e alguns, como este, não têm dispositivo de paragem quando os cabos se prendem no fundo.
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