A construção da barragem no Rio Tua levará à destruição de paisagem do Douro Vinhateiro, considerada Património da Humanidade pela UNESCO. No dia que assinalou a reabertura da Linha Ferroviária do Tua, ambientalistas e associações, que defendem a manutenção deste troço, uniram-se nos protestos contra a construção da barragem. Nunes Correia, ministro do Ambiente, considera que “não tem um impacto muito expressivo”.
Inserida no Plano Nacional de Barragens, cujo objectivo passa por atingir 70 por cento do potencial hídrico nacional até 2020, a barragem junto à foz do Tua prevê um investimento de 177 milhões de euros e será acompanhada por outras nove infra-estruturas (ver mapa).
João Branco, do núcleo de Vila Real da Quercus, não poupa críticas à construção da barragem, enumerando uma lista de desvantagens, na qual a destruição de património da humanidade surge à cabeça. “Destruir paisagem do Douro Vinhateiro é o equivalente à destruição das estátuas gigantes do Buda, no Afeganistão. Ambas são Património da Humanidade”, comparou João Branco.
O mesmo vem referido no documento elaborado pelo Instituto Nacional da Água, no qual faz um levantamento dos benefícios e consequências da construção da barragem. No capítulo sobre os aspectos sociais e ambientais pode ler-se: “O Douro Vinhateiro apresenta uma identidade muito elevada; trata-se de uma paisagem única e singular que, pelo seu valor, foi incluída na lista da UNESCO”.
O ambientalista acusa ainda o Governo de estar “a destruir uma das zonas da Europa com maior biodiversidade, talvez um dos últimos locais com floresta virgem”. Ainda sobre a questão ambiental, João Branco aponta para a destruição de habitat natural de espécies em vias de extinção, como são os casos do lobo e das águias real e Bonelli.
Quanto aos factores económicos, João Branco contesta que a barragem traga benefícios à região. “Serão criados postos de trabalho apenas durante a construção da barragem. Não existe um único estudo que estabeleça a relação entre os postos criados e os extintos”, refere, sublinhando a importância da Linha do Tua para a região, que ficará parcialmente submersa: “É a única linha da Europa com maior interesse turístico, com características únicas que serão destruídas ou alteradas.” O Movimento Cívico da Defesa da Linha do Tua acusa o Governo de estar a destruir a única ligação ferroviária da região. “É a destruição de uma obra única da engenharia e arquitectura portuguesa, com mais de 100 anos de história”, afirmou Daniel Conde, fundador da associação.
Perante toda esta polémica, Nunes Correia afirmou ontem que a barragem não terá “um impacto muito expressivo”, pois “não estão em causa povoações com centenas de habitantes”. O ministro do Ambiente garantiu, também, que “o projecto salvaguarda o potencial turístico da região”. “Apenas um troço da linha é que ficará submerso”, afirmou, ressalvando que “ainda falta fazer o processo de avaliação do impacto ambiental”.
COMBOIOS VOLTAM A CIRCULAR
A circulação ferroviária do troço da Linha do Tua, entre Mirandela e Foz Tua, foi ontem reposta às 10h00, naquela que é considerada a “última maravilha de via estreita” do País. O segmento de 21 km (Brunheda-Foz Tua) estava encerrado à circulação desde a queda de uma automotora ao Rio Tua, a 12 de Fevereiro de 2007, onde morreram três pessoas. Quando às 11h45 a automotora ‘Lisboa’, do Metro de Superfície de Mirandela, passava no local do acidente, o benzer solene e emocionado do maquinista Fernando Pires não passou despercebido. O Presidente da Câmara de Mirandela, José Silvano, considerou que “a linha é a mais bela do Mundo”, alertando para a ameaça que representa “a construção da Barragem do Tua”. O autarca exigiu, também, o prolongamento da linha para Bragança e para Barca de Alva: “O caminho-de-ferro traz doze mil turistas por ano a Mirandela e o encerramento da linha durante um ano trouxe muitos prejuízos”. A partir de agora existe a possibilidade de fazer charters turísticos independentemente dos horários oficiais.
1,1 MIL MILHÕES
Para a construção das dez novas barragens está previsto um investimento de 1,1 mil milhões de euros. A barragem no Rio Tua recebe a maior fatia do bolo, com cerca de 177 milhões de euros.
20 MIL TURISTAS
Anualmente, a linha do Tua é visitada por cerca de 20 mil turistas. Segundo a Estrutura de Missão da Região Demarcada do Douro, a procura do Douro como pólo turístico tem aumentado, registando uma média anual de 240 mil dormidas.
VINHO EM RISCO
A qualidade dos vinhos produzidos na região pode estar em causa com a barragem. “A albufeira vai aumentar a humidade na região, alterando as condições únicas para a produção do vinho”, refere a Quercus.
MARAVILHA NATURAL
A Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes oficializaram em Dezembro a candidatura da região às ‘Maravilhas da Natureza’.
INVESTIMENTOS EM HÍDRICAS
Localização: Rio Tua
Potência instalada: 234 MW
Investimento: 177 milhões de euros
Localização: Rio Tâmega
Potência: 90 MW
Investimento: 106 milhões de euros
Localização: Rio Vouga
Potência:77 MW
Investimento: 109 milhões de euros
Localização: Beça / Tâmega
Potência: 113 MW
Investimento: 101 milhões de euros
Localização: Rio Tâmega
Potência: 109 MW
Investimento: 144 milhões de euros
Localização: Rio Torno / Tâmega
Potência: 112 MW
Investimento: 103 milhões de euros
Localização: Rio Tâmega
Potência: 163 MW
Investimento: 134 milhões de euros
Localização: Rio Mondego
Potência: 72 MW
Investimento: 102 milhões de euros
Localização: Rio Ocreza
Potência: 48 MW
Investimento: 67 milhões de euros
Localização: Rio Tejo
Potência: 78 MW
Investimento: 96 milhões de euros
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