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Correio da Manhã

Portugal
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Barragem do Tua destrói Património da Humanidade

A construção da barragem no Rio Tua levará à destruição de paisagem do Douro Vinhateiro, considerada Património da Humanidade pela UNESCO. No dia que assinalou a reabertura da Linha Ferroviária do Tua, ambientalistas e associações, que defendem a manutenção deste troço, uniram-se nos protestos contra a construção da barragem. Nunes Correia, ministro do Ambiente, considera que “não tem um impacto muito expressivo”.
29 de Janeiro de 2008 às 00:30
Inserida no Plano Nacional de Barragens, cujo objectivo passa por atingir 70 por cento do potencial hídrico nacional até 2020, a barragem junto à foz do Tua prevê um investimento de 177 milhões de euros e será acompanhada por outras nove infra-estruturas (ver mapa).
João Branco, do núcleo de Vila Real da Quercus, não poupa críticas à construção da barragem, enumerando uma lista de desvantagens, na qual a destruição de património da humanidade surge à cabeça. “Destruir paisagem do Douro Vinhateiro é o equivalente à destruição das estátuas gigantes do Buda, no Afeganistão. Ambas são Património da Humanidade”, comparou João Branco.
O mesmo vem referido no documento elaborado pelo Instituto Nacional da Água, no qual faz um levantamento dos benefícios e consequências da construção da barragem. No capítulo sobre os aspectos sociais e ambientais pode ler-se: “O Douro Vinhateiro apresenta uma identidade muito elevada; trata-se de uma paisagem única e singular que, pelo seu valor, foi incluída na lista da UNESCO”.
O ambientalista acusa ainda o Governo de estar “a destruir uma das zonas da Europa com maior biodiversidade, talvez um dos últimos locais com floresta virgem”. Ainda sobre a questão ambiental, João Branco aponta para a destruição de habitat natural de espécies em vias de extinção, como são os casos do lobo e das águias real e Bonelli.
Quanto aos factores económicos, João Branco contesta que a barragem traga benefícios à região. “Serão criados postos de trabalho apenas durante a construção da barragem. Não existe um único estudo que estabeleça a relação entre os postos criados e os extintos”, refere, sublinhando a importância da Linha do Tua para a região, que ficará parcialmente submersa: “É a única linha da Europa com maior interesse turístico, com características únicas que serão destruídas ou alteradas.” O Movimento Cívico da Defesa da Linha do Tua acusa o Governo de estar a destruir a única ligação ferroviária da região. “É a destruição de uma obra única da engenharia e arquitectura portuguesa, com mais de 100 anos de história”, afirmou Daniel Conde, fundador da associação.
Perante toda esta polémica, Nunes Correia afirmou ontem que a barragem não terá “um impacto muito expressivo”, pois “não estão em causa povoações com centenas de habitantes”. O ministro do Ambiente garantiu, também, que “o projecto salvaguarda o potencial turístico da região”. “Apenas um troço da linha é que ficará submerso”, afirmou, ressalvando que “ainda falta fazer o processo de avaliação do impacto ambiental”.
COMBOIOS VOLTAM A CIRCULAR
A circulação ferroviária do troço da Linha do Tua, entre Mirandela e Foz Tua, foi ontem reposta às 10h00, naquela que é considerada a “última maravilha de via estreita” do País. O segmento de 21 km (Brunheda-Foz Tua) estava encerrado à circulação desde a queda de uma automotora ao Rio Tua, a 12 de Fevereiro de 2007, onde morreram três pessoas. Quando às 11h45 a automotora ‘Lisboa’, do Metro de Superfície de Mirandela, passava no local do acidente, o benzer solene e emocionado do maquinista Fernando Pires não passou despercebido. O Presidente da Câmara de Mirandela, José Silvano, considerou que “a linha é a mais bela do Mundo”, alertando para a ameaça que representa “a construção da Barragem do Tua”. O autarca exigiu, também, o prolongamento da linha para Bragança e para Barca de Alva: “O caminho-de-ferro traz doze mil turistas por ano a Mirandela e o encerramento da linha durante um ano trouxe muitos prejuízos”. A partir de agora existe a possibilidade de fazer charters turísticos independentemente dos horários oficiais.
OUTRAS NOTAS
1,1 MIL MILHÕES
Para a construção das dez novas barragens está previsto um investimento de 1,1 mil milhões de euros. A barragem no Rio Tua recebe a maior fatia do bolo, com cerca de 177 milhões de euros.
20 MIL TURISTAS
Anualmente, a linha do Tua é visitada por cerca de 20 mil turistas. Segundo a Estrutura de Missão da Região Demarcada do Douro, a procura do Douro como pólo turístico tem aumentado, registando uma média anual de 240 mil dormidas.
VINHO EM RISCO
A qualidade dos vinhos produzidos na região pode estar em causa com a barragem. “A albufeira vai aumentar a humidade na região, alterando as condições únicas para a produção do vinho”, refere a Quercus.
MARAVILHA NATURAL
A Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes oficializaram em Dezembro a candidatura da região às ‘Maravilhas da Natureza’.
INVESTIMENTOS EM HÍDRICAS
1. FOZ TUA
Localização: Rio Tua
Potência instalada: 234 MW
Investimento: 177 milhões de euros
2. VIDAGO
Localização: Rio Tâmega
Potência: 90 MW
Investimento: 106 milhões de euros
3. PINHOSÃO
Localização: Rio Vouga
Potência:77 MW
Investimento: 109 milhões de euros
4. PADROSELOS
Localização: Beça / Tâmega
Potência: 113 MW
Investimento: 101 milhões de euros
5. DAIVÕES
Localização: Rio Tâmega
Potência: 109 MW
Investimento: 144 milhões de euros
6. GOUVÃES
Localização: Rio Torno / Tâmega
Potência: 112 MW
Investimento: 103 milhões de euros
7. FRIDÃO
Localização: Rio Tâmega
Potência: 163 MW
Investimento: 134 milhões de euros
8. GIRABOLHOS
Localização: Rio Mondego
Potência: 72 MW
Investimento: 102 milhões de euros
9. ALVITO
Localização: Rio Ocreza
Potência: 48 MW
Investimento: 67 milhões de euros
10. ALMOUROL
Localização: Rio Tejo
Potência: 78 MW
Investimento: 96 milhões de euros
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