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Correio da Manhã

Portugal
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Barril de pólvora nas refinarias

As pressões de gestão, para ganhar produtividade e reduzir custos, aplicadas nas refinarias, implicam riscos acrescidos de segurança. A conclusão é do antropólogo Paulo Granjo, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), cujo livro ‘Trabalhamos sobre um barril de pólvora’ foi apresentado esta semana, na Livraria Almedina, em Lisboa.
20 de Março de 2006 às 00:00
A refinaria de Sines foi o exemplo estudado pelo antropólogo Paulo Granjo, que apontou riscos
A refinaria de Sines foi o exemplo estudado pelo antropólogo Paulo Granjo, que apontou riscos FOTO: João Relvas/Lusa
Segundo o autor, a lógica de gestão na refinaria é “igual a qualquer empresa de serviços”: “Aumento de produção, redução de custos e pessoal, recurso a ‘outsourcing’”. Só que “numa empresa de serviços não há risco de acidentes graves”.
Confrontado pelo CM, o porta-voz da GalpEnergia, Miguel Tomé, garante que “as operações da empresa cumprem todas as normas de segurança previstas na lei” e que “essas normas são as utilizadas e reconhecidas por todas as companhias do ramo a nível mundial”. Sobre o livro, disse não ter conhecimento, reservando qualquer comentário para posterior ocasião.
CÓPIA FOI ENVIADA À GALP
Admitindo que a empresa “é das poucas em Portugal que cumpre os mínimos requisitos legais”, Paulo Granjo estranha o desconhecimento do livro por parte da Galp, uma vez que o trabalho foi autorizado pela empresa e serviu de base à sua tese de doutoramento. Enviou ainda uma cópia à administração, então liderada por António Mexia.
Contrapõe que “não está em causa o cumprimento da lei, mas o comportamento ao longo de anos e as rotinas adquiridas” ou “normas funcionais”.
TRABALHADOR APOIA LIVRO
Fonte da Comissão Central de Trabalhadores – funcionário em Leça que pediu anonimato – apoia as conclusões de Granjo.
Explicou ao CM que “na Galp há uma cultura de segurança” e até se pedem pareceres aos mais conceituados especialistas internacionais. O problema, diz, está numa “gestão” que “não considera as especificidades de uma refinaria” – aponta as “subcontratações”, que levam a “ horários excessivos” e consequente perda de concentração e capacidade de fazer face ao imprevisto. Refere ainda a minimização de custos, recorrendo à polivalência dos trabalhadores.
“Se tudo estiver bem numa refinaria, quase não são precisos trabalhadores, mas basta um problema para ser necessário um funcionário por unidade.”
EMPRESA DIRIGIDA PELA CAUTELA
Como exemplo de boas práticas em actividade de risco, Paulo Granjo aponta a Mozal, “a mais eficiente fundição de alumínio em todo o Mundo”. Com a administração mista australiana e sul-africana sediada em Moçambique, esta Mozal leva a componente de risco ao extremo de ter um contrato com o exército sul-africano para assegurar o transporte da produção até ao porto de mar em caso de queda das pontes (0,001 por cento de probabilidade).
Nesta empresa, todos os trabalhadores possuem um cartão que os mandata, em nome do director-geral, a poder ordenar o fim de uma actividade que “de boa-fé” entendam ser perigosa, mesmo que se trate de um superior hierárquico.
Joanaz de Melo, eng. do Ambiente e prof. universitário: “Há pouca cultura de prevenção”
Correio da Manhã – Parece-lhe que as refinarias nacionais laboram em condições de segurança?
Joanaz de Melo – O que aconteceu há dois anos na de Leça faz-me pensar que não. Em Portugal há pouca cultura de prevenção de risco. De qualquer forma, se compararmos as refinarias com outros sectores de actividade, como a construção civil, conclui-se que ainda são do menos mau que existe.
– O que pensa da intenção de construir de uma grande refinaria em Sines?
– Se o projecto for para a frente, o cumprimento das metas do Protocolo de Quioto fica definitivamente comprometido.
– Mas reduz-se a dependência energética nacional.
– Não é verdade. O que fazemos é permitir que investidores estrangeiros instalem uma indústria poluente que não querem no país deles. Já temos capacidade de refinação a mais. Importante é aumentar a eficiência energética.
NOTAS À MARGEM
INTERLIGAÇÃO
Numa refinaria, as unidades de produção estão interligadas, embora não como numa linha de montagem. Se uma unidade deixar de laborar pode afectar toda uma parte da produção.
ENXOFRE
A única unidade que funciona de forma autónoma das demais é a de extracção e eliminação do enxofre. Segundo Paulo Granjo, esta unidade esteve avariada durante seis meses na refinaria de Sines, período durante o qual aquele gás foi expelido para a atmosfera.
TURNOS
Os turnos prolongados traduzem-se num acréscimo de risco pela menor atenção dos trabalhadores e menor capacidade de fazer face ao imprevisto.
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