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Correio da Manhã

Portugal
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Barril radioactivo aos trambolhões

O dono andava a limpar os pavilhões, arredou o material, por isso o bidão andou para aí aos trambolhões”, disse ao CM o presidente da Câmara de Alenquer, Álvaro Pedro.
25 de Abril de 2006 às 00:00
Álvaro Pedro, presidente da Câmara de Alenquer, queixou-se da demora na resposta do Instituto de Tecnologia Nuclear
Álvaro Pedro, presidente da Câmara de Alenquer, queixou-se da demora na resposta do Instituto de Tecnologia Nuclear FOTO: Jorge Godinho
O recipiente com amerício 241, elemento radioactivo, foi encontrado no Carregado, sexta-feira ao fim da tarde, pelo actual proprietário da fábrica Acavaco, António Brilha. Alertou imediatamente a Protecção Civil e a GNR de Alenquer. Mas, quando foi necessário contactar o Instituto de Tecnologia Nuclear (ITN), organismo sob a tutela do Ministério da Ciência, para confirmar a perigosidade do material, ficou sem resposta. “Na sexta-feira ninguém atendeu em Lisboa, só hoje [ontem] de manhã é que vieram cá recolher o material”, disse o autarca. “Isto podia ter sido muito perigoso, ficámos muito preocupados. Se a máquina que estava a fazer a limpeza furasse o reservatório, ninguém sabia o que havia de fazer”, acrescentou.
Ao que o CM apurou no local, o bidão de dez litros foi encontrado nas traseiras de uma antiga fábrica de perfurações. Estava junto a pneus abandonados, selado e com um rótulo a alertar para a radioactividade do conteúdo.
Segundo Romão Trindade, técnico do ITN, “não houve problemas porque o bidão estava acondicionado e em condições de ser transportado”.
VIZINHOS CORRERAM RISCOS
Francisco e Aida Ferreira moram em frente às instalações da fábrica e têm dois filhos pequenos que todos os dias brincavam no local. A descoberta apanhou-os de surpresa. “Nunca imaginámos que utilizassem material perigoso”, diz Francisco. “Estivemos todos expostos ao perigo, nós e a vizinhança”, acrescenta a mulher.
Francisco e Luísa Carapinha vivem paredes-meias com a fábrica há mais de 30 anos. Marido e mulher trabalharam juntos na fábrica mas nunca se aperceberam da existência de material radioactivo. “O antigo dono tem que responder por aquilo, o material não apareceu lá sozinho”, diz Francisco.
Depois da falência da fábrica, e durante o processo de penhora, o antigo dono não pôde retirar o material. Segundo o presidente da Câmara de Alenquer, “o curador da penhora também nunca se preocupou muito com as instalações”. Durante dez anos ao abandono, a propriedade foi várias vezes assaltada. Só quando a fábrica foi vendida é que as instalações foram vedadas.
Quanto ao controlo dos produtos, José Romão, subdirector geral de Saúde, diz que “quando há desmantelamento, a companhia é obrigada a informar a Direcção-Geral de Saúde e tem que ter os cuidados necessárioas com o material usado”.
UM METAL FEITO PELA MÃO HUMANA
Chama-se amerício 241, é um metal de cor prateada e tem uma esperança de vida longa. Conhecido dos especialistas como Am-241, é um metal radioactivo obtido a partir do plutónio que, diz quem sabe, apresenta uma “semi-vida” de 432 anos. Nascido pela mão de Glenn Seaborgem em 1944, na Universidade de Chicago, é usado comercialmente em aparelhos de diagnóstico médico, instrumentos de medição, detectores de fumo e vários outros tipos de aparelhos comuns na indústria.
Apesar de não ser fácil a exposição humana a este material, ela pode ser fatal. A terra, a água ou o ar são meios capazes de transportar as pequenas partículas do Am-241 que, quando atingem o ser humano, tendem a concentrar-se nos ossos, fígado e músculos, permanecendo no corpo durante décadas, aumentando o risco de cancro.
Segundo as autoridades, as fontes de amerício 241 sem controlo podem constituir um sério risco para aqueles que entram em contacto com ele.
HISTÓRIA POR CONTAR
PROCESSO DE FALÊNCIA
A Acavaco, empresa de perfurações, declarou falência há dez anos. Nessa altura, as Finanças ordenaram a penhora dos bens, por isso o local tornou-se num amontoado de lixo e sucata. A venda em hasta pública ocorreu no ano passado. O novo proprietário quer montar no local uma empresa de ‘catering’ para exportação.
USO DE MATERIAL
Trabalhadores contactados pela GNR e pela Protecção Civil disseram que o bidão estava nas instalações há mais de 20 anos. Segundo os mesmos, o barril com amerício 241 era usado como ferramenta durante o processo de perfuração. Em termos práticos, o seu uso estava relacionado com a determinação do tipo de solo existente no local.
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