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Correio da Manhã

Portugal
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Coates ordenou à mulher que saísse de Portugal com os filhos após ataque a Alcochete. Jogador pensou sair do Sporting

Jogador leonino conta que pensou sair do Sporting após o ataque à Academia de Alcochete.
Sofia Garcia 19 de Dezembro de 2019 às 10:21
Fachada do edifício do Tribunal Criminal de Lisboa em Monsanto
Fachada do edifício do Tribunal Criminal de Lisboa em Monsanto FOTO: Pedro Simões
O julgamento do ataque à Academia de Alcochete decorreu esta quinta-feira ao Tribunal de Monsanto, naquela que é já a 15.ª sessão.
Esta manhã foram ouvidos os fisioterapeutas do Sporting, Marques e Gonçalo Álvaro e posteriormente os jogadores Battaglia (para a conclusão do seu testemunho iniciado na passada terça-feira) e Coates.

Gonçalo Álvaro, fisioterapeuta da equipa à data dos acontecimentos, relatou em tribunal que Bruno de Carvalho "desprezou" a final da Taça de Portugal de futebol, durante uma reunião ocorrida um dia antes do ataque à Academia de Alcochete. No mesmo encontro,  o antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho repetiu a frase "aconteça o que acontecer amanhã, quero saber quem é que está comigo, quem não estiver".

O fisioterapeuta "não sabia o que ia acontecer". No dia da invasão, Araújo relata que fez o corredor "e quando estou a chegar ao balneário vi um indivíduo de costas a acionar uma tocha e a atirá-la para o interior do balneário e depois a fugir".

Quando entrou no balneário, viu um cenário de pânico e destruição. "Os jogadores em pânico e mais alguns elementos da equipa técnica e aquilo tudo destruído. As sirenes a tocar, as luzes apagadas, caixotes virados, pertences espalhados pelo chão. E havia fumo, porque tinha sido largada uma tocha lá dentro", relatou Gonçalo Álvaro.

O fisioterapeuta Ludovico Marques referiu o "tom intimidatório" e de "ameaça" com que Bruno de Carvalho se dirigiu aos elementos do 'staff' do Sporting, durante a referida reunião.

Marques encontrava-se no balneário quando ouviu várias ameaças dos agressores - "vamos rebentar-vos a boca toda, vamos matar-vos, não ganhem, que depois vão ver'. O fisioterapeuta foi também agredido com uma bolsa e ficou com o "olho inchado e negro" durante 15 dias. "Nos dias seguintes não consegui dormir, tive insónias. Nos dias seguintes não foi trabalhar. Tinha receio de ser agredido na rua, pois alguns desses indivíduos tinham sido detidos, mas não todos", afirmou a testemunha.

Sebastián Coates confessou esta quinta que pensou em sair do Sporting após as agressões em Alcochete: "Após o ataque, liguei à minha companheira e contei o que tinha passado. Disse-lhe que estava bem, mas que outros colegas tinham sido agredidos. Pedi-lhe que fosse para o Uruguai por causa dos nossos filhos. Depois liguei para o meu agente, pois estava com muito medo e com muitos pensamentos em sair do clube".

O internacional uruguaio estava no ginásio com outros colegas quando viu vários "encapuzados". "Assim que saímos do ginásio, o André Pinto foi a correr para avisar os meus colegas e eu fui logo a seguir. Quando cheguei, estava o Vasco Fernandes [secretário técnico do Sporting] a tentar impedir a entrada deles no balneário,", explicou.

Segundo o jogador, "seriam entre 30 a 40 pessoas" que entraram no balneário, onde estava quase todos os elementos do plantel e os fisioterapeutas. "Assim que entraram, começaram a procurar por Acuña, Battagglia, Rui Patrício e William. Empurraram e atiraram um garrafão de água contra o Battaglia", relembrou.

Coates assistiu também às agressões ao fisioterapeuta Ludovico Marques e ao então preparador físico Mário Monteiro.
"Também houve ameaças aos jogadores, em geral. Um deles disse-me que eu não merecia vestir a camisola do Sporting", contou o central.

Antes da saída dos invasores, ouviu frases como "vamos embora" e "se não ganharem no domingo, vão ver o que vos acontece", em alusão à final da Taça de Portugal que se disputou no domingo seguinte diante o Desportivo das Aves, que o Sporting viria a perder por 1-0.

Antes de Coates, o tribunal concluiu a inquirição a Rodrigo Battaglia, iniciada na passada terça-feira.

O médio argentino confessou que rescindiu com o clube após o ataque. "Rescindi porque, depois do que aconteceu, de me terem batido e tratado como trataram, achei que era o melhor para mim e para a minha família", explicou.

As audições regressam em 2020. A 6 de janeiro vão testemunhar Márcio Sampaio, preparador físico, e o jogador André Pinto e o internacional português Rui Patrício. No dia seguinte Jorge Jesus será ouvido, ele que era treinador do Sporting aquando da invasão à Academia. Para 08 de janeiro estão agendados os testemunhos do jogador italiano Cristiano Piccini, entretanto transferido para o Valência, e Mário Monteiro, preparador físico. 

Acompanhe ao minuto: 

17h30 -
O advogado Miguel Fonseca pergunta ao jogador se alguma vez rescindiu contrato com os leões ou foi convidado a tal. "Não. Nem fui convidado a isso. Falei apenas com o [meu] agente", confirma Coates.

17h26 -
Sobre as rotinas após o ataque, Coates confirmou que a segurança foi reforçada. "Após o ataque, tive mais cuidado com algumas coisas. Durante a semana seguinte até ir para o Uruguai tive mais cuidado".

16h10 -
Na reunião de 7 Abril de 2018 sobre o post no Facebook com insultos aos jogadores, Coates recorda a discussão com o ex-presidente do Sporting. "Dissemos-lhe que não podia colocar coisas no Facebook. Eu fiquei com a sensação de que o Bruno de Carvalho não estava no seu estado normal. Houve muitos gritos entre Rui Patrício e William [Carvalho].

16h00 -
Na reunião do dia 14 de maio, Bruno de Carvalho dirigiu-se a Acuña e contou ao jogador que os adeptos tinham passado a noite a ligar-lhe "para saber onde é que morava", diz Coates, que acrescenta que Marcos Acuña ofereceu-se "para esclarecer as coisas com os adeptos". 
"Bruno de Carvalho disse que [Acuña] não podia ter feito o que fez ao chefe da claque", disse Coates, que acrescentou que o ex-presidente do Sporting perguntou "se estávamos com ele houvesse o que houvesse".
A testemunha relembra que Bruno de Carvalho dizia que Acuña "tinha tido problemas no aeroporto com Fernando Mendes. Foi esta pessoa que lhe ligou toda a noite para saber morada do Acuna".

15h55 -
Segundo declarações de Coates, no final do jogo na Madeira a equipa saudou os adeptos que insultaram o coletivo. "Não me recordo de nenhum de nós insultarmos os adeptos. No aeroporto procuravam pelo Acuña. Uns cinco ou seis adeptos", acrescenta o jogador. Jorge Jesus, Rui Patrício e William [Carvalho], assim como Battaglia tentaram aclamar os ânimos.

15h52 -
O jogador leonino recorda que já tinha estado na presença de adeptos, na Academia, com o rosto destapado. "No dia 15 nem tentaram o diálogo, foram logo agredir e insultar", conta.

15h51 -
Após o ataque, Coates confessa que pensou na segurança da família. "Comecei por ligar a minha mulher. Disse-lhe que estava bem, mas que estavam companheiros com agressões. Ordenei-lhe que viajasse para o Uruguai com os meus filhos. Fiquei com muito medo que isto acontecesse de novo. Liguei ao meu agente a dizer que estava com pensamentos de sair do clube", afirma o jogador.

15h38 - Entre as ameaças, Coates refere que ouviu a frase "se não ganharem no domingo vão ver o que acontece"
Durante o episódio do balneário, "quatro ou cinco homens mantiveram-se na porta e tentavam bloquear a saída, mas ninguém conseguia sair. Estávamos todos em choque e ninguém tentou sair".

15h31 -
"Vi o Ludovico a ser atingido com um necessaire", confirma Coates, reforçando que a mesma foi atirada de longe - o fisioterapeuta encontrava-se ao pé do Battaglia.
"A mim, pessoalmente, disseram-me que eu não merecia vestir a camisola. Ameaçavam os jogadores e insultavam todos, no geral", afirma.

15h18 -
Coates conta que procuravam o William. Disseram-lhe que o problema não era com ele mas sim com o William. "Que ele não merecia a camisola", afirma.

"O William foi atingido com um cinto e com murros. Por mais do que um homem, eram 4 ou 5. Foi agredido nas costas porque baixou a cabeça para defender o rosto", descreve o jogador, que se lembra ainda de ter visto duas tochas, uma quando entraram e outra à saída.

15h15 -
"Começaram a procurar o Acuña, Bataglia, Rui Patrício e William", conta o jogador.

15h11
- Coates refere que não se lembra de ver o Vasco Fernandes ser empurrado. "Porque de onde estava não via. Só me recordo de o ver a tentar fechar a porta", afirma.

15h06
- "Estava no ginásio com André Pinto e outros jogadores quando vi chegar adeptos que vinham com a cara tapada. Vi o Ricardo da segurança que estava a tentar travá-los. Depois fui para o balneário e foi aí que eles começaram a entrar", conta Coates.

O jogador revela que quando chegou ao balneário estava o Vasco Fernandes a tentar fechar a porta. "Eram uns 30 a 40", conta.

15h03
- Começa a ser ouvido Sebastián Coates, de 29 anos, que está no Sporting desde janeiro de 2016. O Ministério Público pergunta ao jogador se conhece algum arguido para além de Bruno de Carvalho e Coates responde que não.

14h58
- Bataglia refere que um dos pontos importantes para voltar ao clube foi a segurança e dá exemplos concretizados pelo Sporting como mais câmaras e mais uma barreira. 

O jogador conta que mudou rotinas da sua vida e que colocou alarme em casa, segurança e câmaras. Refere ainda que vive mais atento do que antes do ataque a Alcochete. 

14h38
- Quando questionado sobre a reunião de 14 de maio, Battaglia refere que Bruno de Carvalho estava com André Geraldes e confirma que se recorda que estava mais uma pessoa da direção do clube mas que não se recorda do nome. 

O jogador confirma que rescindiu contrado com o SCP após o episódio violento e que "passado algum tempo as pessoas à frente do clube" pediram para que voltasse e aceitou.

"Porque depois do que se passou e depois dos adeptos me terem batido e me terem tratado como trataram achei que era o melhor para mim e para a minha família", afirma Bataglia quando questionado sobre o porque da rescisão de contrato.

14h35 -
Rodrigo Battaglia está a ser novamente ouvido esta tarde. O jogador leonino lembra-se "de um homem grande, alto, de cor" no balneário da Academia."Também atingiram o fisioterapeuta que estava a tentar protegê-lo, o Ludovico", conta.

Sobre o episódio do aeroporto, Battaglia recorda que falou com Fernando Mendes e que o tentou acalmar - "disse que precisávamos de paz porque tínhamos uma final para jogar". O advogado do SCP questiona o jogador sobre se alguma vez Fernando Mendes tinha sido agressivo ou tinha tentado agredi-lo. "Naquela ocasião no aeroporto. Ele estava exaltado e nervoso e a polícia teve de o acalmar", confessa.

12h20 -
Pausa para almoço. Trabalhos retomados às 14h00.

11h49 -
Ludovico revela que, poucos dias depois do ataque à Academia, teve um ataque de ansiedade e foi parar ao hospital.

11h45 -
Ludovico foi outro dos elementos presente na reunião do staff a 14 de maio de 2018, com Bruno de Carvalho. "Ele referia muito que, independente do que acontecesse, queria saber quem continuava com a direção e que quem não quisesse fosse embora", disse o fisioterapeuta, e acrescenta "Ia olhando nos olhos de cada pessoa e com tom de ameaça, intimidatório. Apontou para cada um dos elementos e perguntou quem estava com ele acontecesse o que acontecesse e quem não estivesse podia levantar se e ir embora".

11h41 -
"Quado chego ao posto médico vejo o Bas Dost a ser assistido pelos dois médicos e enfermeiro. Fui ao hospital a seguir, 15 dias com olho inchado e negro", recorda Ludovico Marques, que admite o receio nos dias seguintes - "Fiquei com receio. Nos dias seguintes não consegui dormir bem, com insónias. Não consegui ir trabalhar nos dias seguintes, com receio de ser agredido novamente porque sabia que alguns [agressores] tinham sido presos, mas não todos".

11h21 -
"Vamos matar-vos. Vamos partir-vos a boca toda. Não jogam nada. Não ganhem e vão ver o que vai acontecer" - estas foram algumas das palavras ouvidas pelo fisioterapeuta durante o episódio no balneário. Ludovico fala em "muito fumo" das tochas que foram lançadas, "Uma para o meio do balneário e outra para o caixote do lixo", pelos indivíduos de cara tapada.

11h15 - 
O fisioterapeuta viu Battaglia a ser agredido com um garrafão, enquanto recuava a tentardefender-se das agressões.
Segundo a testemunha, os agressores procuravam alguns jogadores em específico e batiam noutros. "Empurraram o Bruno César e ameaçaram-no. Até subiu para uma das marquesas para fugir", conta. 
"Até pensei que eu tivesse levado um soco mas um dos jogadores disse-me que tinha sido atingido com um necessaire", relata Gonçalo, que revela que não havia forma de sair - "Objetivo era agredir e ameaçar. Não havia nenhuma intenção de acalmar".

11h11 - "Estava no balneário. Entraram aos gritos. Eram mais de 20 ou 30 e nós mais de 20, entre jogadores e equipa técnica", começa por relatar. "Foram logo a alguns jogadores visados e logo a bater com socos, pontapés a uns quantos e gerou se uma confusão massiva. O William foi agarrado no meio do balneário com socos. O Acuña levou três ou quatro murros, chapadas, pontapés e refugiou-se junto ao cacifo. O Bruno César foi empurrado", acrescenta o fisioterapeuta, que também foi atacado "Sou atingido debaixo do olho".

11h08 -
É agora ouvido Ludovico Marques, fisioterapeuta da equipa principal.

11h05 -
Segundo as declarações do fisioterapeuta, Bruno de Carvalho disse mesmo na referida reunião que, para ele, "a Taça de Portugal é m****". O advogado Miguel Fonseca acusa a testemunha de trazer discurso encomendado.

11h03 -
Gonçalo Álvaro conta que Bast Dost foi assistido por Varandas e outro médico.
A juíza pergunta à testemunha se Acuña responde quando é provocado. "Acuna é homem de família e defende os seus", sublinha.

10h56 - 
Sandra Martins, advogada de Fernando Mendes, aponta contradições entre as declarações de Gonçalo à GNR e as realizadas esta quarta-feira em audiência. "Testemunha disse que identificou Mendes por si próprio, mas à GNR disse que outro elemento é que lhe disse quem era Fernando Mendes e acrescentou que não conhecia pessoalmente", aponta a advogada. 
O fisioterapeuta esclarece que na altura soube logo que era o Mendes e que não precisou de ninguém para o reconhecer.

10h55 -
A testemunha é confrontada com declarações prestadas na GNR, em 2018, quando contou que no aeroporto da Madeira ouviu [Fernando] Mendes a dizer ao Acuña "diz lá agora aquilo que disseste lá". O advogado Miguel Matias fez um requerimento para provar que Acuña tinha provocado Fernando Mendes, antes do episódio do aeroporto.

10h14 -
O fisioterapeuta dos leões afirma que esteve presente numa das reuniões com o staff, no dia 14 de maio de 2018. "Achávamos que ia ser comunicado que aquela equipa técnica não ia continuar para a Taça de Portugal. Estava Bruno de Carvalho, alguns membros da direção e staff". "O Bruno de Carvalho disse que estava muito desapontado com os resultados da equipa", acrescenta. A testemunha admite que o ex presidente do Sporting começou com um discurso que para Gonçalo Álvaro não fez sentido porque começou a dizer "aconteça o que acontecer amanhã quero saber quem está comigo. Quem não estiver pode já sair"
"Pareceu-me um discurso sem sentido", disse o fisioterapera, que acrescentou que não percebeu o que Bruno de Carvalho quis dizer "com aconteça o que acontecer".

10h10 - "Já vi muitas vezes adeptos a irem lá de forma organizada, mas nunca encapuzados e nunca na ala profissional", relata Gonçalo.
Sobre o episódio no aeroporto da Madeira, o fisioterapeuta também esteve presente e recorda que um dos indivíduos "Parecia transtornado e procurava o Acuña". O jogador Rodrigo Battaglia tentou apaziguar os ânimos, mas, segundo Gonçalo, nunca houve contacto físico "porque havia segurança".
"Ele chamava o nome do Acuña. O Marcus [Acuña] não é de grandes palavras e na azáfama continuou a andar, acho que nem parou. Houve troca de palavras com o Batta, mas ele tentava apaziguar", continua o fisioterapeuta que revela de seguida "O indivíduo exaltado é Fernando Mendes".

10h05 - Gonçalo Álvaro relembra que o secretário técnico vinha com o jogador Bas Dost "com a cabeça em sangue" e que o agarrou e o levou para ver se o conseguia tratar. " Vi os jogadores todos em pânico, alguns elementos da equipa médica e tudo destruído. Tetos falsos destruídos, pertences das pessoas pelo chão, caixotes virados", relata.

10h04 - "Fiz o corredor, passei a segunda porta de vidro e quando estou a chegar vejo um homem a acionas uma tocha, a atirar lá para dentro do balneário e a fugir", revela o fisioterapeuta. 
"O corredor tinha fumo e ouvia gritos".

10h00 - Está a ser ouvido Gonçalo Álvaro, coordenador de fisioterapia na altura da invasão à Academia de Alcochete. 
Segundo declarações do fisioterapeuta, foi a podologista Patrícia Gomes que o avisou sobre "pessoas estranhas no balneário".
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