"Não matei o meu filho. Vi-o queimado a gritar, mas não tinha saldo no telemóvel para chamar os bombeiros." Foi desta forma que Luísa, mãe do pequeno Filipe de dois anos que anteontem morreu queimado depois de ter sido submerso na banheira com água a ferver, em Vagos, explicou a tragédia.<br/>
A morte do menino é um mistério que continua por desvendar, agora entregue à PJ, que ontem esteve em casa da família. É que as versões apresentadas pela mãe e pelos moradores são contraditórias. No entanto, tudo aponta para um acidente: o menino ficou com 95% do corpo queimado quando a irmã Joana, de oito anos, lhe tentava dar banho. Os meninos estavam há vários meses sinalizados pela Segurança Social.
Enquanto Luísa afirma que na altura em que tudo aconteceu estava na garagem a lavar roupa e que, mal ouviu os gritos, por volta das 11h30, foi ajudar o menino, vários moradores garantiram ao CM que a mulher só terá regressado a casa cerca de duas horas depois, quando o menino já se encontrava deitado na cama e praticamente morto. Também os bombeiros afirmam que as queimaduras terão sido feitas horas antes de terem chegado ao local. 'A mãe só pediu ajuda por volta das 13h30. Estava a sair para trabalhar, ela viu-me e pediu que ficasse com a menina. Quando os bombeiros chegaram ainda entrei na casa. O menino estava todo queimadinho', contou ao CM um vizinho, ainda abalado.
O funeral do menino realiza-se amanhã à tarde em Esgueira, Aveiro.
MENORES SINALIZADOS HÁ VÁRIOS MESES
Os dois menores estavam a ser seguidos há já vários meses por uma assistente da Segurança Social de Aveiro. O CM sabe que Joana, que já esteve institucionalizada, estava prestes a ser retirada à mãe, que ontem passou o dia fechada em casa com o namorado. Filipe ia continuar junto da mãe, já que não tinha sido encontrada vaga para ele.
Ontem, a assistente social foi informada da morte de Filipe por uma técnica da Misericórdia que esteve em casa da família. Mas só nos próximos dias será tomada uma decisão quanto ao futuro de Joana que passou o dia em casa de uma tia materna.
A menina era de facto a mulher da casa. A própria mãe, desempregada há vários meses, o admitia. Joana fazia tudo: tratava das limpezas, fazia as compras e cuidava do irmão.
'FOI SEMPRE UMA MÃE NEGLIGENTE'
Luísa tem cinco filhos, um deles já casado. Joana e Filipe são os mais pequenos. Na rua onde a família reside a opinião dos moradores é unânime: Luísa nunca foi boa mãe e as crianças sempre foram maltratadas. A própria ama, que até há três semanas tomava conta do menino, admite que a mulher nunca cuidou das crianças.
'Ela sempre foi uma mãe negligente. Os meninos tinham muita falta de higiene, alimentavam-se mal e andavam muitas vezes sozinhos na rua, descalços até altas horas da noite. Não a posso chamar de mãe. Uma mãe não abandona os filhos sozinhos em casa como ela fez tantas vezes', contou ao CM Maria Freitas, indignada com a morte do pequeno Filipe.
Maria diz que até já tinha pensado em levar o menino para sua casa e não o devolver. A ama garante ainda que a sua preocupação agora é que Joana seja retirada da mãe. 'A menina não pode ficar com ela, ela maltrata-a muito', rematou.
OUTROS CASOS
VANESSA
Em 2005, no Porto, Vanessa, de cinco anos, foi colocada várias vezes numa banheira com água a ferver, pelo pai e pela avó, apenas porque tinha saudades da mãe de acolhimento. A menina agonizou durante dias e acabou por morrer em casa.
BEBÉ DE 13 MESES
A 13 de Julho, em Oliveira de Frades, um bebé de 13 meses sofreu queimaduras graves com água a ferver. O acidente ocorreu quando o menino puxou a tomada da panela eléctrica, ficando com graves queimaduras no tórax, na cara e nos membros.
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