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Correio da Manhã

Portugal
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Bebeu soda cáustica

Um cabo da GNR de Porto Salvo, Oeiras, está de baixa há cerca de um mês, depois de, numa aparente tentativa de suicídio, ter ingerido água misturada com soda cáustica, um composto químico corrosivo usado para desobstruir canalizações. O militar, que há cerca de 20 anos não fazia patrulha, terá ficado alarmado com a hipótese de, a breve prazo, poder ser colocado nessas funções.
6 de Maio de 2007 às 00:00
O militar que ingeriu água misturada com soda cáustica prestava serviço no bar do Destacamento da GNR de Porto Salvo, Oeiras
O militar que ingeriu água misturada com soda cáustica prestava serviço no bar do Destacamento da GNR de Porto Salvo, Oeiras FOTO: José Barradas
O caso foi relatado ao CM por José Manageiro, presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG), que não dissocia este caso do “impasse vivido no processo de reestruturação do dispositivo da GNR”. “Há muito que nós temos vindo a alertar para esta situação de pressão, que poderá desencadear situações como a que aconteceu a este militar”, acrescenta o presidente da APG.
O militar em causa, de 45 anos, está há pouco mais de 20 ao serviço da GNR. Fez a maior parte da carreira na Guarda na função de motorista de oficiais do Grupo Territorial de Sintra.
Há cerca de dois anos, foi colocado no bar do Destacamento da GNR de Porto Salvo. As notícias de reestruturação do dispositivo da Guarda que começaram a surgir no final do ano passado, deixaram-no apreensivo quanto ao futuro.
“Surgiu a hipótese de o Destacamento de Porto Salvo fechar, obrigando à recolocação de militares”, explicou ao CM José O’Neill, presidente da Associação de Sargentos da GNR.
O cabo mostrou-se incapaz de lidar com a possibilidade de poder vir a patrulhar. Assim, há cerca de um mês, aproveitou um momento em que estava sozinho em casa para introduzir soda cáustica numa garrafa de água, que levou à boca e bebeu. Assustado, ligou de imediato à mulher, que o transportou ao Hospital Militar da Estrela, em Lisboa.
O militar teve alta cerca de duas semanas depois da tentativa de suicídio e regressou a casa. Sofreu queimaduras graves no esófago e em todo o aparelho digestivo e corre o risco de ficar com a fala seriamente afectada. Não se sabe ainda se o militar poderá regressar ao trabalho.
DEPARTAMENTO APOIA MILITARES
O Comando-Geral da GNR tem um departamento de apoio psicológico aos militares que sintam necessidade de acompanhamento especializado. Funciona no comando-geral daquela força de segurança, no Quartel do Carmo, em Lisboa, e emprega técnicos especializados no apoio a situações que vão da simples depressão, ao cenário pré-suicídio. A GNR nunca disponibilizou números oficiais sobre a quantidade de efectivos que já ali receberam assistência. Na PSP o cenário é semelhante. Um gabinete de psicologia, dirigido por um psicólogo que pertence aos quadros da polícia, está aberto, de segunda a sexta-feira, no quartel do Grupo de Operações Especiais, em Belas, Sintra. Com apenas dez psicólogos de serviço, o gabinete atende um universo de cerca de 22 mil polícias. Em 2006, seis agentes puseram termo à vida o que levou a Direcção-Nacional da PSP a ponderar a reestruturação do Gabinete. Está em estudo a possibilidade de abertura de núcleos de apoio psicológico em cada um dos comandos distritais. A medida está dependente do actual plano de reestruturação das forças de segurança.
COMANDO NÃO LIGA SUICÍDIO A TRANSFERÊNCIA
O porta-voz do comando-geral da GNR não quis efectuar quaisquer considerações sobre a situação particular do militar da GNR de Porto Salvo que, há cerca de um mês, ingeriu soda cáustica. No entanto, o tenente-coronel Costa Cabral referiu ao CM ser “difícil estabelecer a ligação entre a atitude deste militar e as mudanças no dispositivo da GNR”. Mesmo considerando a hipótese de transferência do militar, o porta-voz da GNR sublinhou a preocupação “habitual no comando da Guarda de recolocar todos os militares conforme as respectivas situações familiares, procurando causar o mínimo de transtorno”. “Os militares sabem que podem ser transferidos a qualquer momento, conforme as conveniências de serviço nas unidades”, concluiu o tenente-coronel Costa Cabral.
SAIBA MAIS
- 200 É o número estimado de militares que terão de ser recolocados noutras unidades, caso o Destacamento de Porto Salvo da GNR venha a ser encerrado, conforme é intenção do Governo.
- 20 Foi o número de anos que o cabo do Destacamento de Porto Salvo passou nas funções de motorista de oficiais do Grupo da GNR de Sintra.
INDÚSTRIA
A soda cáustica, também conhecida como hidróxido de sódio, é um composto químico usado na indústria, especialmente na fabricação de papel e de tecidos.
CORROSIVO
Por se tratar de um material altamente corrosivo, a soda cáustica produz queimaduras graves, quando em contacto directo com a pele ou outros órgãos.
USO DOMÉSTICO
A soda cáustica é um produto de venda livre Na maior parte dos casos, é usada no desentupimento de canalizações de água.
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