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Correio da Manhã

Portugal
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Beleza pára trânsito

A polémica está lançada na América, onde estudos defendem interdição de ‘outdoors’ sensuais. Em Portugal, só se proíbe por os cartazes degradarem a paisagem e não por distraírem condutores.
16 de Abril de 2006 às 00:00
Portugal não possui dados estatísticos sobre acidentes provocados por olhar para publicidade sedutora
Portugal não possui dados estatísticos sobre acidentes provocados por olhar para publicidade sedutora FOTO: Vítor Mota
Há belezas que param o trânsito, mas será isso um factor de perigo para a segurança rodoviária? Um tribunal de Kansas City, nos Estados Unidos, não tem dúvidas – numa sentença recente ordenou que publicidade com mulheres sensuais terá de estar a mais de 1,6 quilómetros da berma da auto-estrada.
A decisão surge depois de John Halton, proprietário de uma cadeia de dez ‘sex shops’, ter recorrido a Tribunal por causa de uma lei estadual que proíbe publicidade a negócios orientados para o sexo. A lei, iniciativa do senador Matt Bartle, teve por base estudos científicos que determinam a perigosidade desta publicidade para uma condução segura.
OITO SEGUNDOS PERDIDOS
Na universidade norte-americana do Ohio, investigadores concluíram que um condutor pode ficar até oito segundos a tentar ler um ‘outdoor’. “Numa auto-estrada, durante o período de tempo em que está a ver o ‘outdoor’, o automobilista pode percorrer entre 150 a 250 metros sem que a sua atenção esteja centralizada na estrada.”
O mesmo trabalho conclui ainda que “a visão nocturna fica prejudicada sempre que o condutor presta atenção a um painel iluminado”.
Por sua vez, a Administração Federal de Auto-estradas (organismo ligado ao Departamento Norte-americano de Transportes) desenvolveu outros estudos sobre o perigo potencial da publicidade.
‘Outdoors’ em curvas, zonas de obras ou junto a cruzamentos de difícil compreensão são alguns exemplos de perigo.
O conteúdo do cartaz é igualmente perigoso se contar com mais de seis elementos ou possuir texto pequeno demais para uma leitura rápida (letras com menos de 46 centímetros de altura).
“O conceito básico de publicidade nas estradas entra em conflito com os princípios fundamentais da condução segura”, defende o investigador norte-americano Jackson Fuastman, no trabalho ‘A relação entre publicidade e acidentes rodoviários nos Estados Unidos’.
Em Portugal, a mesma posição é defendida por João Pires, do Observatório de Segurança nas Estradas e Cidades. “Parece do senso comum que, tal como o uso dos telemóveis, a publicidade é um elemento de distracção.”
Manuel João Ramos, presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, sublinha que “face à proliferação de publicidade no Reino Unido e Suécia, são desenvolvidos sistemas de potencialização da sinalização horizontal”.
PORTUGAL PROÍBE
Por cá, o Decreto-Lei n.º 105 de 1998 proíbe a instalação de publicidade junto das principais estradas. Contudo, a proibição estabelece não a salvaguarda de uma condução segura, mas o combate à degradação da paisagem. Igualmente proibida, pelo Decreto-Lei n.º 175 de 1999, está a publicitação de serviços de audiotexto de cariz erótico ou sexual através de publicidade exterior. A restrição visa a protecção dos menores, em virtude da sua vulnerabilidade psicológica.
Em 2005 houve 50 343 vítimas de acidentes de viação. Se algum se deveu a distracção causada por publicidade é algo que se desconhece.
OUTDOORS E RÁDIO SÃO MAIS EFICAZES
A publicidade exterior é um importante aliado da segurança rodoviária, para campanhas de sensibilização. Contudo, o seu uso incorrecto pode ter um efeito contrário, se não mesmo catastrófico. Um exemplo apontado num trabalho da Universidade de Iowa (EUA) é a presença em vias rápidas de anúncios de automóveis a circularem a grande velocidade.
No trabalho ‘Communicating Highway Safety: What Works’, os investigadores do Centro de Investigação de Transportes e Educação concluem ainda que a publicidade exterior de sensibilização para a condução segura, na forma, por exemplo, de ‘outdoors’, tem grande eficácia pelo imediatismo. “Atinge, tal como a rádio, o condutor no exacto momento da situação de trânsito, possibilitando uma resposta imediata do comportamento desejado.”
CONDUTORAS COM MAIOR SENSIBILIDADE
As condutoras são as maiores vítimas da publicidade existente ao longo das estradas, divulga um estudo da Ipsos Latin America. Por isso, as empresas destinam grande parte da publicidade ao público feminino. A presença de mulheres num cartaz é outra garantia de sucesso. Segundo explica o publicitário Edson Athaide, “as mulheres, ao contrário dos homens em relação ao mesmo sexo, gostam de observar outras mulheres na publicidade”.
E quanto aos painéis electrónicos com imagens em movimento? Representam maior perigo para a circulação automóvel que os ‘outdoors’? A Administração Federal de Auto-estradas desenvolveu estudos, sobretudo com condutores mais idosos, concluindo que o maior perigo reside nos painéis colocados em curvas das estradas.
CARTAZES PERIGOSOS
Há publicidade exterior ilegal em Lisboa. O edital 35/92 da Câmara Municipal de Lisboa é claro no seu artigo 7.º: “Não pode ser licenciada a afixação ou inscrição de mensagens sempre que se situem a menos de 0,80 m em relação ao limite exterior do passeio, quando este tiver largura superior a 1,20 m”. Contudo, diversos painéis de publicidade surgem perigosamente próximos da estrada. O resultado é que, para o automobilista, o cartaz tapa o peão que possa surgir em direcção à estrada. De igual forma, dificulta a visibilidade da estrada ao peão. João Pires, do Observatório de Segurança nas Estradas e Cidades, realça que “a publicidade retira visibilidade ao peão que ingressa na passadeira e é um obstáculo à visão do condutor”.
SABER MAIS
DGV SEM CONFLITOS
A Direcção-Geral de Viação divulgou que não tem registado conflitos com as entidades gestoras da publicidade.
REGULARIZAÇÃO
A proliferação de publicidade em torno das estradas e auto-estradas vai ser disciplinada. Para isso, no âmbito do Conselho de Trânsito, a Estradas de Portugal prepara um documento que visa a sua regularização.
158 FISCALIZAÇÕES
Nos centros urbanos cabe ao Instituto do Consumidor fiscalizar a publicidade exterior. Em 2005, o Instituto realizou 158 deslocações a diversas zonas da Grande Lisboa. Foram analisados ‘outdoors’ de 20 empresas, mas não foi apurada qualquer irregularidade.
BRISA SEM 'OUTDOORS'
A Brisa, concessionária de cerca de metade da rede de auto-estrada nacional, não possui ‘outdoors’ ou outras formas de publicidade. Também não conta com cartazes de campanhas de segurança rodoviária.
A MAIS ANTIGA
A publicidade exterior é a mais antiga forma de publicidade. Hoje são utilizados como suporte ‘outdoors’, transportes públicos, cabines telefónicas, fachadas de prédios, dirigíveis e avionetas, entre outros.
FIGURAS PREFERIDAS
O PRS Eye-Tracker é um instrumento de medição que detecta o ponto que está a ser observado. Em 2/3 dos casos são as figuras que despertam atenção.
ESCASSA LEITURA
Segundo a Ipsos Latin America, 74 por cento dos ‘outdoors’ são notados pelos motoristas e 48 por cento lidos. Mas a leitura é só de uma pequena parte.
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