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Correio da Manhã

Portugal
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Bispos dizem não à missa em latim

Os bispos portugueses não simpatizam com a ideia de voltar a celebrar missas em latim, ainda que apenas em ocasiões especiais, de maior solenidade, como defendem os grupos integristas liderados pela chamada comunidade do Bom Pastor.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
As pressões integristas têm acontecido com grande insistência nos últimos tempos, junto dos bispos e até junto da Cúria Romana, sobretudo depois de terem pressentido alguma abertura nesse sentido por parte do Papa Bento XVI.
Para os bispos portugueses a possibilidade deixada em aberto no passado dia 11 de Outubro pelo Papa, quando admitiu a possibilidade de haver celebrações em latim, “sem haver necessidade de autorização do bispo da diocese”, tem mais a ver com o facto de o Sumo Pontífice não pretender que esta questão “menor” se transforme numa guerra entre os cristãos, do que uma opção baseada nas suas convicções.
“O Santo Padre, com benevolência pastoral, deseja que não seja coisa tão pouco importante a dividir os cristãos”, diz, em entrevista ao Correio da Manhã D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal (CEP).
Também o presidente da CEP, D. Jorge Ortiga, afirma que não haver “razão nenhuma para estar agora a recuar numa questão que representou uma evolução muito positiva há mais de 40 anos”.
O arcebispo de Braga admite que algumas celebrações incluam partes, como o cânon ou o credo, rezadas ou cantadas em latim, ora com recurso ou não ao gregoriano.
Mas o regresso ao latim não reúne consenso junto dos bispos portugueses porque isso seria, naturalmente, entendido como um regresso à Idade Média, período em que o latim foi adoptado como língua oficial da Igreja Católica e que integra os momentos mais negros da história cristã.
“Penso que a liturgia deve ser sempre celebrada em vernáculo (língua do país ou região), até porque ela é para ser partilhada e entendida por todos. Não me parece que devamos agora recuar depois de termos atingido, no Concílio Vaticano II e após um caminho longo e penoso, uma meta tão importante”, disse ao CM D. Jorge Ortiga.
BASTIDORES
A possibilidade, admitida por Bento XVI em Abril, ao assinalar um ano de pontificado, de lançar redes de diálogo que possam conduzir à reconciliação de Roma com a Fraternidade de S. Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, levou a que os movimentos adeptos das celebrações em latim intensificassem a sua campanha.
Nesta altura, o assunto é tema de debate nos corredores do Vaticano, sobretudo nas congregações para a Doutrina da Fé e para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.
Tudo indica que Bento XVI venha a publicar, ainda antes do Natal, uma Carta Apostólica em que, entre outras determinações, liberalize a celebração tradicional segundo o missal de S. Pio V (em latim). Se assim for, os padres deixam de ter necessidade de pedir autorização ao bispo sempre que queiram celebrar a eucaristia em latim.
No entanto, o Papa deve ditar algumas regras, já que os bispos não consideram “bom para a Igreja” que os padres celebrem em latim ou vernáculo, consoante entenderem. “Isso seria confuso”, diz D. Jorge.
O CISMA INTEGRISTA DO ARCEBISPO MARCEL LEFEBVRE
A recitação da missa em latim – com o celebrante de frente para o altar e de costas para os fiéis –, segundo a tradição do Concílio de Trento, foi uma das bandeiras agitadas pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) contra as reformas introduzidas na Igreja pelo Concílio Vaticano II (1962-1965).
As posições intransigentes do antigo arcebispo de Dacar contra o “espírito do concílio” fizeram dele o chefe dilecto dos integristas – defensores de um catolicismo ‘integral’, sem concessões ao ecumenismo, à liberdade religiosa nem ao modernismo (o ‘aggiornamento’ de João XXIII e Paulo VI).
Em 1970, Lefebvre fundou em Ecône, na Suíça, a Fraternidade de S. Pio X, com um seminário. Depois de sucessivas declarações contra o diálogo inter-religioso, Lefebvre foi suspenso ‘a divinis’ pelo Papa Paulo VI, em 1976. Ao ordenar quatro bispos, em 1988, consumou a ruptura: foi excomungado por João Paulo II. Os seus seguidores só celebram missa em latim.
RITOS E CONCÍLIOS
RITO LATINO
Bento XVI considera que o rito latino é único, embora com duas formas: a ordinária, ou seja, vernacular (línguas de cada país); e a extraordinária, neste caso a tradicional, em latim.
RITO BRACARENSE
Com características bizantinas, trata-se de um rito criado no primeiro milénio para a arquidiocese de Braga. Na revisão litúrgica do Concílio Vaticano II a arquidiocese voltou a adoptá-lo. Mas em português.
MISSAL DE S.PIO V
Trata-se do guia da missa celebrada em latim, segundo a tradição medieval. Só pode ser utilizado, actualmente, com autorização expressa do bispo da diocese.
QUARENTA ANOS
A missa em português fez 40 anos no dia 8 de Dezembro do ano passado. O processo foi difícil e contou com muitas resistências, sobretudo por parte dos padres mais velhos. Alguns celebraram em latim até à morte.
49 BISPOS
Entre os 2500 bispos que no Concílio Vaticano II aprovaram o fim da missa em latim, havia 49 portugueses. Cinco ainda são vivos: D. Eurico Dias Nogueira, D. Custódio Alvim Pereira, D. Davide de Sousa, D. Manuel Trindade e D. Júlio Tavares Rebimbas.
21 CONCÍLIOS
Em dois mil anos de História, a Igreja reuniu por 21 vezes os seus bispos em concílio. O primeiro ocorreu em Niceia, no ano 325, para condenar o arianismo. Os mais conhecidos são o de Trento e o Vaticano II.
O MAIS LONGO
O Concílio de Trento, para definir a doutrina contra os protestantes e para fazer a primeira reforma da Igreja, foi o mais longo de todos. Decorreu durante 18 anos, entre 1545 e 1563.
"PARA VOLTAR ÀS ORIGENS ENTÃO QUE SEJA EM GREGO"
D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, diz que a língua não é importante para a celebração da Fé. Não simpatiza com a ideia do latim.
Correio da Manhã – Que comentário lhe merece a notícia que dá conta da vontade do Papa em permitir novamente as celebrações em latim?
D. Carlos Azevedo – Tem havido muitas pressões por parte de grupos integristas junto dos bispos e também chega à Cúria Romana. Penso que será sempre restrito a grupos que consideram essencial a língua para a celebração da fé. Como alguns são jovens não se trata de saudosismo, mas de uma mentalidade persistente, que assim pensa regressar aos bons tempos da Igreja, como se os tempos voltassem para trás. Porque é que se há-de ir só à Idade Média? Se é para voltar às origens, então que seja em grego. Aí até achava graça!
– Não seria mais arrojado promover celebrações em inglês?
– Se o desejo fosse encontrar uma língua de entendimento internacional poderia ser o inglês, sem dúvida. Mas aí se nota que o regresso ao latim para alguns é moda sem profundidade. Quem procura coisas exóticas é eternamente insatisfeito.
– Considera que esta ideia de Bento XVI lhe advém do facto de ser um erudito?
– A ideia não é do Papa. Ele só com benevolência pastoral deseja que não seja coisa tão pouco importante a dividir os cristãos e por isso relativize quem faz desse privilégio um ponto de batalha.
– O que poderá mudar para os católicos, em termos de participação, se algumas missas vierem a ser celebradas em latim? Serão apenas questões estéticas?
– As missas em latim não serão para as comunidades cristãs em geral, nem obrigatórias, mas facultativas. A dimensão pastoral da celebração e a perspectiva estética nada diminui ao usar as línguas vivas, pelo contrário. Em encontros internacionais ou celebrações de santuários, que acolhem grande diversidade de povos, o uso do latim já ocorre em alguns momentos, como sinal de unidade.
– Estaremos perante um mero acto de preservação das tradições ou de algo mais profundo?
– Além de um pouco de tudo isso, há sobretudo uma concepção de liturgia que me parece ultrapassada. O sentido do mistério não vem de uma língua estranha, ou de incapacidade para entender, do recurso ao exótico. A solenidade da celebração está na sua qualidade e, sobretudo, na participação de todos e não no espectáculo a que se assiste. Para concorrer com espectáculos não há hipótese.
PERFIL
Carlos Alberto de Pinho Moreira de Azevedo é bispo titular de Belali e auxiliar de Lisboa. Nasceu em Milheirós de Poiares, Santa Maria da Feira, há 53 anos.
Estudou nos Seminários do Porto e no Instituto de Ciências Humanas e Teológicas. Doutorou-se em 1986 na Universidade Gregoriana, em Roma. Foi ordenado sacerdote em 1977 e é porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa. É professor da Universidade Católica. Dirigiu o ‘Dicionário de História Religiosa de Portugal’.
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