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Correio da Manhã

Portugal
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BOAVENTURA SOUSA SANTOS: PERÍODO DE TURBULÊNCIA

Boaventura Sousa Santos, presidente do Centro de Estudos Sociais, prevê para os próximos meses uma crise económica aliada a uma instabilidade política e ética
25 de Maio de 2003 às 00:00
Correio da Manhã - O crescendo de notícias sobre violência doméstica, prostituição e pedofilia retrata um país marcado por uma crise de valores?
Boaventura Sousa Santos - Penso que é difícil falar em crise. Possivelmente a sociedade está, sim, a revelar-se contra problemas que sempre existiram, atitudes e comportamentos imorais e ilegais e que sempre foram impunes, sobretudo os crimes cometidos pelas elites. Portanto, pode ser uma crise de valores ou uma saída da crise para revelar uma sociedade mais transparente.
- Entende que há um amadurecimento das instituições democráticas?
- Gostaria de pensar que elas estão suficientemente maduras. Estas instituições foram criadas para funcionarem dentro de uma certa tensão. Neste momento passamos por um período de turbulência adicional. É um teste à sua maturidade. Um dos primeiros sintomas é saber se, neste momento, irá haver suficiente serenidade para não entrarmos em reformas legislativas sobre o sistema político ou judicial de uma maneira precipitada e urgente para responder ‘a quente’ a uma situação cujo desfecho não se conhece muito bem.
- As repercussões poderão ser duradouras?
- Há uma crise económica que vai desestabilizar ainda mais a vida dos portugueses. Uma crise destas aliada a uma crise política ou moral e ética pode ser desestabilizadora. Há que ter atenção aos próximos meses.
- As recentes detenções no âmbito do escândalo Casa Pia revelam que ninguém está imune perante a Justiça?
- Essa é a grande novidade. Nos últimos quatro a cinco anos o sistema judicial, que durante muitos anos foi acusado por não julgar poderosos, começou a julgá-los. Isso naturalmente gera uma certa perturbação. Esta é uma boa oportunidade para continuar com essa prática, embora haja alguma turbulência.
- A frequência com que estes temas são abordados poderá levar à sua banalização?
- Acho que não; o que pode haver é o perigo de distanciamento em relação às figuras públicas mais mediáticas. E no caso da política as pessoas a quem os portugueses deram os votos.
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