Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
9

BOLAS 'VOAM' DE MOURA

Setenta e duas é o número de bolas de futebol furtadas no último ano ao Moura Atlético Clube, grupo alentejano do distrito de Beja que milita actualmente na Série F da III Divisão Nacional.
28 de Setembro de 2003 às 00:00
Hélder Feliciano segura algumas das bolas que ainda restam no Moura Atlético Clube
Hélder Feliciano segura algumas das bolas que ainda restam no Moura Atlético Clube FOTO: Alexandre Silva
"Somos pobres e em vez de termos quem nos ajude é o que se vê", lamentou ao Correio da Manhã Francisco Cândido, dirigente daquela agremiação desportiva.
Este número de esféricos foi subtraído ao clube na última época desportiva e nos primeiros dois meses da presente temporada, sendo o prejuízo acumulado de algumas centenas de euros. "Ora, para quem tem uma receita de quotização mensal de 15 mil euros, bem se pode dizer que não mata mas mói", refere o director do Moura.
Encostado a um dos muros do campo localiza-se um acampamento de pessoas de etnia cigana e os miúdos estão sempre à espreita para se fazerem às bolas que são chutadas do rectângulo de jogo.
Na última quinta-feira a cena repetiu-se, mas com uma agravante, como contou ao nosso jornal Francisco Cândido:
"Um dos nossos directores foi ao acampamento buscar uma bola e acabou por ser agredido pelas pessoas que não gostaram que ele fosse reclamar a posse de um objecto que era nosso."
Hélder Feliciano, o director agredido, conta que foi lá pedir umas bolas que tinham saído do recinto:
"Começaram a atirar-me pedras, paus e a lançar ameaças, acabando por começar aos gritos e a dizer que se voltasse me cortavam o pescoço", contou revoltado.
Os responsáveis pelo clube já se queixaram à PSP local, mas esta força diz que não pode colocar efectivos em permanência a guardar o campo de jogos, para além de precisarem de provas. "Mas como vamos nós apresentar essas provas se eles apanham as bolas e fogem?", pergunta o agredido.
O dirigente do Moura conta que "a cena só não se repete à segunda- -feira porque a equipa está de folga. Nos dias de treinos ou de jogos é sempre a mesma coisa."
Francisco Cândido lamenta não haver dirigentes suficientes para colocar à volta do campo, porque nunca se sabe qual a direcção que as bolas levam e os rapazes são felinos a correr atrás delas".
ATÉ AS REDES REBENTARAM
O dirigente diz que já não sabem o que fazer e explica porque estão desesperados:
"Agora com a chegada do Inverno anoitece mais cedo e como a equipa é amadora, e só pode começar a treinar às 19h00, o escuro acaba por favorecer os rapazes, dado que a iluminação do campo é fraca."
Por seu turno, Hélder Feliciano explica ainda que já foi posta rede à volta do estádio para fazer mais altura, "mas a coberto da noite eles rebentaram-na e, inclusive até os painéis publicitários nos roubaram levando-os para o acampamento, não sabemos se para os proteger do vento se para servir de decoração", contou incrédulo.
Também à Câmara Municipal de Moura já chegou uma reclamação do clube, mas segundo os dirigentes do clube os serviços autárquicos dizem que não podem fazer nada.
Enquanto a situação não se resolve, a paz no relvado do Estádio do Moura Atlético Clube parece estar ameaçada.
'ESTAMOS LONGE DE DESANIMAR'
Apesar de não ser um clube rico, o Moura Atlético Clube, fundado em 1942, tem nesta altura 1200 sócios, mais de 300 jovens no futebol de formação e muita ambição para o futuro.
"A equipa sénior não começou bem a época desportiva é certo, mas estamos longe de desanimar", confessou o dirigente do clube, Francisco Cândido.
O Estádio do Moura Atlético Clube, que agora causa tantas preocupações aos seus directores, foi relvado no ano de 2000. "Agora queremos melhorá-lo, mas até temos medo de cá gastar dinheiro para outros destruírem tudo", lamentou aquele director do clube.
Com um orçamento de 125 mil euros, a principal equipa de futebol ocupa nesta altura o último lugar da Série F da III Divisão, com quatro derrotas em outros tantos jogos, tendo marcado dois golos e sofrido nove, o que levou aquele director a afirmar: "Uma desgraça nunca vem só, tudo nos acontece, mas isto é gente que acredita no trabalho. Somos alentejanos e nunca desistimos."
O actual treinador, João Caçoila, veio do vizinho Desportivo de Beja e a figura mais conhecida da equipa é Carlos Agatão, familiar de um outro Agatão, o Francisco, que chegou a jogar na I Divisão com a camisola do Estrela da Amadora, e agora é treinador.
Para melhorar a prestação da equipa vieram esta semana novos craques. "Os ordenados oscilam entre os 400 e os 600 euros".
A interioridade é aquilo de que os homens de Moura mais se queixam. "Apesar das estradas estarem melhores, ainda sentimos que nos vêem como gente que está lá longe. E, de facto, os centros de decisão estão a muitos quilómetros".
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)