Ossadas humanas e de animais, frutas, flores, charutos, bebidas espirituosas e velas em encruzilhadas são, para o povo, sinónimo de rituais de magia negra, cada vez mais frequentes no Norte do País. O caso mais recente ocorreu anteontem em Arrifana, Santa Maria da Feira, onde os populares ficaram amedrontados, até “porque esta já não é a primeira vez”.
Quase sempre os locais escolhidos são as encruzilhadas ou os cemitérios. A terra ‘sagrada’ dos jazigos é muito usada, dizem os especialistas, porque “tem poderes muito fortes e pode causar graves enfermidades e até a morte”. Já no que toca ao sacrifício de animais – outra prática comum – as galinhas e os sapos estão no topo das preferências.
Desfazer casamentos, fazer com que alguém fique ‘amarrado’ a outro, vinganças, são alguns dos objectivos destes ‘trabalhos’. Uma prática comum utilizada por pessoas que se intitulam ‘médiuns’ e que, a troco de avultadas quantias, realizam estes rituais com o objectivo de prejudicar a vida a terceiros, segundo o parapsicólogo Manuel Silva.
Na sua perspectiva, estes actos não significam perigo para a população em geral mas, eventualmente, para as pessoas a quem são dirigidos. Estas práticas, segundo Manuel Silva são efectuadas por alegados ‘médiuns’, que “em muitos casos não passam de charlatães, que trabalham com as forças do mal. Quem os procura são pessoas desesperadas e mal informadas que pretendem resolver questões relacionadas com a sua vida material ou sentimental”, explica.
A mesma opinião tem o padre católico Calmeiro Matias, que atribui um significado especial ao facto de os casos de bruxaria ocorrerem de sete em sete meses. “Não é coincidência, pois o sete é o número perfeito para determinadas seitas fazerem magia negra”. Contudo, Calmeiro Matias não vê eficácia nesses actos, afirmando que “tudo depende da atitude interior de cada um, se acredita ou não que algo de mal lhe foi feito”.
Episódios como estes repetem-se dezenas de vezes por ano em cemitérios portugueses, principalmente no Norte mas, apesar de macabros, os casos conhecidos pouco têm a ver com rituais satânicos.
“A maioria das situações não passa de brincadeiras de alcoolizados ou delinquentes. Noutras são ‘trabalhos’ de bruxaria encomendados, normalmente contra uma campa em particular, em jeito de vingança”, avança ao CM um responsável da GNR de Coimbra, já por diversas vezes chamado a investigar ocorrências do género.
Feitos a coberto da noite, os actos de vandalismo ficam quase sempre impunes. Não há testemunhas ou, quando alguém assiste a algo, estas fogem. “Os estragos são quase sempre feitos por moradores da freguesia do cemitério vandalizado. Já os responsáveis pelas bruxarias são mais difíceis de identificar: trata-se de indivíduos de fora e contratados”, assinala a mesma fonte da GNR.
BRUXO DE FAFE DÁ AJUDA NO FUTEBOL
Em Fevereiro do ano passado, Fernando Nogueira, o conhecido ‘Bruxo de Fafe’, foi em peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora do Sameiro para afastar o “mau-olhado” que dizia recair sobre o Vitória de Guimarães, que não ganhava para a Liga desde Outubro de 2005, e garantia que o clube minhoto não iria descer de divisão.
A ‘incursão’ do ‘bruxo de Fafe’ surtiu efeito logo no primeiro jogo em que acompanhou a equipa, frente ao Marítimo, pois os minhotos quebraram o enguiço e venceram após sete jornadas de jejum. Os madeirenses tentaram virar a bruxaria contra o Vitória, entrando nos Barreiros a queimar alecrim e com uma cruz que apresentava uma tarja onde se lia: “Contra todos os de Fafe e demais intrusos.” “Aquilo foi uma palhaçada, porque não é ritual nenhum”, esclareceu, na altura, Fernando Nogueira, e avisou: “Daqui até ao final do campeonato, vão acontecer muitas coisas às equipas que estão do sétimo lugar para baixo.” No entanto, após tanto ‘trabalho’, o Vitória acabaria por descer à II Liga.
'ALTAR' MACABRO NO MEIO DA RUA
Velas de cemitério acesas em frente a uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e dos Três Pastorinhos, uma garrafa de licor e um pequeno pote de vidro de ‘tinta mágica’ vermelha. Foi com este cenário que se deparou a população de Arrifana, na manhã de anteontem.
“Bruxaria”, “magia negra” para “amarrar” alguém – é o que garantem, assustados, os moradores que passavam no cruzamento entre as zonas desportiva e industrial da vila, palco escolhido para este acto macabro.
O ‘altar’ foi posto ali pouco antes do alvorecer porque, diz quem viu, às 07h00 as velas ainda estavam quase intactas. Uma operária fabril passou no local antes do sol nascer e não ganhou para o susto. No meio da escuridão, “uma luz enorme, avermelhada, deixa qualquer um arrepiado”, contou ao CM.
Os primeiros casos conhecidos de bruxaria em Arrifana ocorreram em 2002 e 2003 no cemitério, “mas depois passaram para aqui”, explicam os moradores, enquanto fazem o sinal da cruz por causa “do mau-olhado”.
MAGIA NEGRA
No cemitério de Arrifana já foram encontradas, por duas vezes, numa pedra tumular, 50 velas em cruz a arder dentro de um círculo de flores. Em Darque, Viana do Castelo, a campa de um padre falecido foi ladeada por dois crânios de animais (com répteis enrolados), círios e inscrições a sangue do número 666 e de um pentagrama (estrela de cinco pontas).
VANDALISMO
O cemitério da Tocha, em Cantanhede, já teve cruzes, jarras, lamparinas e arranjos florais destruídos. Recentemente, em Âncora, Caminha, 204 campas foram vandalizadas numa só noite.
ESTRANHO
Um dos casos mais insólitos de bruxaria vitimou, no ano passado, um empreiteiro de Estarreja. Foi sequestrado por dois indivíduos, que lhe amarraram pés e mãos e o abandonaram num pinhal, com um colar com pedaços de cobra ao pescoço.
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