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Correio da Manhã

Portugal
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BURLA DESMONTADA

A Polícia Judiciária deteve anteontem, às 23h00, mais dois homens envolvidos na burla com caixas multibanco e acredita que acabou com a actividade deste grupo, composto por sete venezuelanos, todos presos, cuja actividade criminosa se repartiu por Albufeira, a principal área de actuação, Lisboa e zona do Estoril.
26 de Junho de 2003 às 00:00
As autoridades estão a apurar os prejuízos que o grupo - cinco homens e duas mulheres - causou a pessoas que utilizaram as caixas ATM falsificadas através da colocação de uma frente sobre o visor, a qual permitia recolher os dados dos cartões, incluindo o código pessoal, para produzir réplicas e assim proceder-se a movimentos nas contas desses lesados.
"Apreendemos alguns cartões e temos a noção de que foram efectuados levantamentos com títulos contrafeitos. Estamos a avaliar ainda a dimensão de tudo isto, com as entidades ligadas ao multibanco", indicou ontem, em conferência de Imprensa, realizada em Lisboa, Guilhermino da Encarnação, subdirector nacional adjunto da Directoria de Faro da PJ.
O responsável não quis adiantar quantos cartões foram clonados e a totalidade das caixas ATM em que as burlas ocorreram. Confirmou no entanto que, além da zona de Albufeira - numa área geográfica onde existem 55 multibancos - o grupo actuou "em Lisboa e na Costa do Estoril".
As burlas na capital terão ocorrido nos primeiros três ou quatro dias, após os estrangeiros chegarem, como meros turistas, a Lisboa no dia 8, pelo aeroporto da Portela, ao que tudo indica, provenientes da Venezuela, após escala ou passagem mais prolongada por Espanha.
Os dois indivíduos detidos anteontem não chegaram a intervir na fase algarvia, entregue aos outros cinco membros do 'gang', e a PJ acredita que, antes de saírem do País, se preparavam para reactivar as burlas na região de Lisboa, assim que as coisas ficassem mais calmas.
PORMENORES DA OPERAÇÃO
GRUPO
A rede que a PJ pensa estar agora totalmente desmantelada era composta por sete venezuelanos - cinco homens e duas mulheres -, com idades entre os 19 e os 33 anos, que podem pertencer a um grupo maior que terá cometido crimes do género em Sevilha e Miami.
FRANÇA
A PJ apreendeu três caixas falsas - duas no Algarve (colocadas sobre verdadeiras), uma em Lisboa -, alimentadas por programa informático preparado para utilização em português, inglês, espanhol e francês, o que sugere que França seria o próximo local de crime.
REPOSIÇÃO
Esta burla inédita levanta dúvidas sobre se as verbas retiradas aos lesados serão repostas pelas entidades bancárias, como, segundo foi anunciado, sucedeu com o caso de clonagem de cartões através de registos numa bomba de gasolina da zona de Carcavelos.
CÉLULA DE REDE INTERNACIONAL
O grupo desmantelado pela Polícia Judiciária de Faro e Direcção Central de Investigação e Combate à Criminalidade Económica e Financeira, na sequência da denúncia de um utilizador, composto por sete venezuelanos, "demonstrava uma estrutura de organização bastante acentuada", alguns "especialistas em informática", indicou Guilhermino da Encarnação, da PJ de Faro.
Os cinco homens e duas mulheres, de que se desconhecem antecedentes criminais, podem ser "uma célula de um grupo internacional" com ligações a burlas recentes e semelhantes, nos Estados Unidos (Miami) e Espanha (Sevilha).
Os seus elementos tinham "funções específicas e tarefas definidas" e demonstraram tomar "precauções especiais" e estarem "preparados para fugas".
O grupo chegou a Lisboa no dia 8 e começou a operar no terreno a 12 ou 13. Nos primeiros dias actuou em Lisboa e na Costa do Estoril e depois, a 16/17, cinco membros foram para o Algarve, praticando burlas em Albufeira.
Dia 18 à noite foram detidos dois, naquela cidade, e outros três, em Grândola, às 02h00 do dia seguinte, ficando todos em prisão preventiva. Anteontem foram presos mais dois, que ainda serão presentes a tribunal.
A QUESTÃODA LÍNGUA
"Nada nos aponta que estão portugueses envolvidos neste caso", indicou Guilhermino da Encarnação, da Judiciária de Faro, questionado sobre a necessidade de a rede contar com apoios de conhecedores do terreno.
Calado de Oliveira, coordenador de investigação criminal na DCICCEF - o sector de combate ao crime económico da PJ - acrescentou que não era preciso esse apoio, uma vez que, pela língua, "os venezuelanos não tinham dificuldade em movimentar-se cá".
A questão da língua terá sido, aliás, determinante para a escolha de Portugal por este grupo, com um método verificado, também recentemente, em Espanha e Miami.
"Fomos a tempo de deter os indivíduos. Estes grupos, normalmente, ficam pouco tempo nos países, fixando-se em hotéis de média-alta qualidade para não despertarem a atenção das autoridades", indicou Guilhermino da Encarnação, destacando o contributo da GNR e BT de Albufeira e da PSP de Lisboa.
UTILIZADORES EM RISCO
A dimensão da burla com o multibanco, "de milhares de euros", ainda está a ser avaliada e a PJ recomenda que quem utilizou as frentes falsas - com um sistema de leitura da banda magnética completamente diferente (o cartão passava numa ranhura em vez de introduzido) - contacte o seu banco, para se anular os títulos.
É que, mesmo que a PJ tenha apreendido todos os cartões replicados e os suportes informáticos com a informação dos títulos originais, os burlões podem ter ido a tempo de enviar para o estrangeiro os dados obtidos.
"As pessoas terão pensado que o sistema até era mais seguro, porque não perdiam de vista o cartão", indicou Calado de Oliveira, da Polícia Judiciária.
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