Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
1

Burocracia interna prejudica crianças

A falta de um parecer da Comissão de Farmácia e Terapêutica do Hospital da Estefânia levou à suspensão de um tratamento para crianças com doenças ortopédicas que reduz o risco de fracturas em 80 por cento. O produto em questão – o pamidronato – tem sido utilizado em crianças com osteogénese imperfeita com resultados muito positivos.
19 de Agosto de 2005 às 00:00
Contrariamente ao que sucede em Santa Maria, na Estefânia o pamidronato ainda não é aplicado
Contrariamente ao que sucede em Santa Maria, na Estefânia o pamidronato ainda não é aplicado FOTO: Natália Ferraz
Desde 2000 que uma equipa de ortopedistas, liderada por Cassiano Neves, vem desenvolvendo um conjunto de tratamentos em crianças que sofrem de fragilidade óssea no Hospital de Santa Maria. Os resultados deste tipo de terapêutica – baseada no pamidronato – levou à publicação de vários trabalhos científicos em revistas estrangeiras.
No início de Maio deste ano, a equipa de Cassiano Neves foi transferida para o Hospital da Estefânia, tendo transportado a mesma metodologia que desenvolveram no Hospital de Santa Maria. No entanto, não deu entrada nos serviços da Estefânia o protocolo que permitia o tratamento com aquela substância. A responsável da farmácia do Hospital da Estefânia alega que o pamidronato “não é de uso pediátrico” e exigiu uma autorização escrita do director clínico, Mário Coelho. Este, por sua vez, alega que só dará autorização ouvido o Conselho Científico do Hospital, apesar de existirem crianças tratadas com pamidronato na Estefânia a“título excepcional.”
Confrontada com os factos, a administração do Hospital Dona Estefânia esclareceu em comunicado: “Sempre que, excepcionalmente e por falta de alternativa terapêutica válida, haja necessidade de considerar a utilização de um medicamento fora das indicações ou das idades para as quais foi aprovado, cada instituição hospitalar, através da sua Comissão de Farmácia e Terapêutica, analisa os pedidos de utilização com base em toda a informação clínica e evidência científica disponível e emite parecer sobre a conveniência da nova utilização proposta. Deste parecer envia cópia ao Infarmed.”
A administração adianta ainda que, “o Hospital de Dona Estefânia tem normas publicitadas e aprovadas que têm em consideração aspectos clínicos e bioéticos. Cabe ao médico prescritor disponibilizar a informação possível para permitir a avaliação do medicamento nestas situações excepcionais”.
SERVIÇO SEM AR CONDICIONADO
Os problemas do Hospital Dona Estefânia não se limitam à burocracia da Comissão de Farmácia e Terapêutica. As infra-estruturas do próprio hospital começam a denotar carências evidentes. No serviço de Ortopedia, por exemplo, a falta de ar condicionado obriga a que crianças que sofreram multiplos traumatismos tenham que aguentar temperaturas superiores aos 39º graus. Uma situação particularmente dramática para crianças, muitas delas bebés, que têm vários membros engessados em virtude das fracturas sofridas.
Mais grave ainda é a situação das crianças em pós-operatório. “Existem várias crianças operadas, submetidas a uma dieta líquida fria, que sofrem um calor imenso quando são transferidas para o serviço”, apurou o CM junto do serviço. Foram já várias as solicitações junto do Gabinete de Risco do Hospital Dona Estefânia (entidade que deve providenciar o ar condicionado para os serviços), mas até ao momento não foi dada nenhuma resposta positiva. Em último recurso, uma ventoinha foi comprada com o dinheiro das próprias enfermeiras para tornar mais suportável o ambiente do serviço.
BLOCO DE NOTAS
FRACTURAS
A osteogénese é uma doença rara que se manifesta pela facilidade com que se partem os ossos. Cerca de 100 crianças estão a ser tratadas à base de pamidronato, desde 1998, num processo iniciado no Hospital de Santa Maria.
RESULTADOS
Num artigo recentemente publicado por três ortopedistas portugueses; Helena Canhão, Eurico Fonseca e Viana Queiroz, pode ler-se que, no tratamento com pamidronato “tem-se resgistado melhoria clínica, crescimento linear normal e as biópsias não registam alterações da mineralização”.
CORTES NA DESPESA
O tratamento com pamidronato é uma terapêutica cara. Segundo apurou o CM, a administração do Hospital Dona Estefânia ordenou um corte de cinco por cento nas despesas globais até ao final do ano. Em comunicado a administração do hospital refere que “em nenhuma circunstância o Hospital Dona Estefânia restringiu ou limitou a utilização de medicamentos por limitação de ordem financeira”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)