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Correio da Manhã

Portugal
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Câmara da Amadora exclui cego de concurso

Nuno Antunes, de 30 anos, tenta ingressar há cinco no mercado de trabalho. Mas em cada entrevista depara-se com o mesmo obstáculo: a cegueira. “Faço os testes, mas depois não me chamam”, conta sobre as inúmeras entrevistas em que participou. Mas quando Nuno já pensava ter visto de tudo, eis que é de novo surpreendido.
17 de Outubro de 2006 às 00:00
Nuno Antunes preenche todos os requisitos necessários para desempenhar as funções de animador social
Nuno Antunes preenche todos os requisitos necessários para desempenhar as funções de animador social FOTO: Jorge Godinho
“Candidato excluído, considerando que a incapacidade visual do mesmo não lhe permitirá, mesmo que com as necessárias adaptações, neste caso, desenvolver as funções que são atribuídas...” O comunicado chegou às mãos do jovem por carta, em resposta à candidatura para um concurso público de animador social aberto pela Câmara Municipal da Amadora. Nuno não queria acreditar. “O argumento que me levou a tirar o curso de animador – trabalhar com pessoas de risco – é o mesmo que agora me exclui do concurso”, ironiza o jovem, segundo o qual a questão da perigosidade “não passa de uma desculpa esfarrapada”, já que “o animador social nunca vai para o terreno sozinho”.
Esta situação surge dois meses depois de ser publicada no Diário da República a lei que pune como discriminatórias as medidas que dificultem a contratação de alguém, por factores de natureza física ou mental. José Correia, presidente da ACAPO, já teve conhecimento do caso e tem uma palavra a dizer: “Este é um comportamento discriminatório, mas também de má-fé das pessoas que estão a analisar as candidaturas e que, a meu ver, deveriam ser afastadas das suas funções.”
VEREADORA DEFENDE AUTARQUIA
Carla Tavares, vereadora dos Recursos Humanos da Câmara Municipal da Amadora, afirma que a autarquia “está tranquila” relativamente ao caso de Nuno Tavares e que a situação do candidato está a ser analisada pelo gabinete jurídico. Por agora, a vereadora adianta que esta “não é uma situação discriminatória” porque “até há outras pessoas com deficiência a trabalhar nos quadros da autarquia, nomeadamente um telefonista invisual”. Segundo Carla Tavares, o caso de Nuno Antunes é diferente dos outros porque as funções para o cargo implicam “trabalhar com pessoas de risco, estar diariamente no terreno e ter facilidade de mobilidade”. Além disso, “trata-se de uma vaga aberta ao abrigo de um projecto específico, que não implica entrada para o quadro da Câmara”.
Nuno Antunes não se deixa convencer e, para já, apresentou um recurso hierárquico que suspende o concurso por três meses.
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