"Há um divórcio entre o conhecimento e a prática nas intervenções", declarou o presidente Rui Ladeira.
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O presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, considera que o relatório da comissão técnica independente de análise dos grandes incêndios de outubro de 2017 coloca "o dedo na ferida" relativamente aos problemas que se verificaram.
Na opinião do autarca, que é engenheiro florestal de formação, "há um divórcio entre o conhecimento e a prática nas intervenções".
"O conhecimento, a qualificação e a governança têm que ser usados de forma muito competente", frisou à agência Lusa, acrescentando que sempre defendeu ser preciso haver "mais qualificação, especialização e profissionalização".
Por outro lado, segundo Rui Ladeira, no que respeita à questão do planeamento, ordenamento e gestão do território, "há as dificuldades de ajustar aquilo que se define às características de cada zona, de cada região, no quadro social, económico e biofísico do território".
"São territórios muito específicos e tem que se fazer um fato à medida das necessidades e das especificidades", defendeu o autarca, que há cerca de meio ano viu as chamas consumirem cerca de 75% da área do seu concelho.
No seu entender, "houve problema na operacionalização, que era reduzida, dos instrumentos que estão definidos para os territórios", dando como exemplo os Planos Municipais de Defesa da Floresta.
"O Estado é o primeiro que não cumpre com o que são os recursos necessários e com aquilo que venha a estar à disposição, nomeadamente Orçamento do Estado e fundos comunitários", lamentou.
O autarca social-democrata questionou, por exemplo, "nos últimos cinco/dez anos, qual foi o investimento efetivo e capaz para prevenir e gerir o território convenientemente a nível florestal".
Em outubro de 2017, "houve problemas de comunicação, os meios foram reduzidos drasticamente" e falharam os alertas necessários nas televisões para que as populações tomassem cautela, considerou.
"No que respeita a meios, contámos praticamente connosco, com os bombeiros de Vouzela e de mais uma ou duas corporações no início do incêndio, quando foram ativados, às 17h21", contou Rui Ladeira, acrescentando que, apesar de isso não estar escrito no relatório, foi ele próprio que ativou os meios dos bombeiros voluntários quando se apercebeu da ignição na encosta.
Isto porque, em Vouzela, "os meios estavam todos em alerta: do município, dos bombeiros e dos sapadores florestais".
"Nós estávamos na nossa fase Charlie, ou seja, tínhamos todos os meios possíveis à nossa disposição para colocá-los no terreno", realçou.
Na sua opinião, "o relatório é bem elaborado, bem estruturado e aponta questões bastante graves", mas não alude aos postos de vigia.
"A população gostava de saber se esses meios essenciais de vigilância e ativação de meios, quando há necessidade, estavam ou não operacionais", acrescentou.
Rui Ladeira considerou que "não podem ser os municípios a ter que se responsabilizar e a coordenar todos estes meios de operacionalidade", mas há processos que podem liderar.
"Se lideram um Plano Diretor Municipal na área urbana, porque não podem liderar também um para o resto do território na área rural: agricultura, pecuária e floresta?", questionou.
O autarca frisou que "o plano de Vouzela terá de ser diferente do de Tabuaço ou do de Mangualde, porque tem um tipo de vegetação, humidade e orografia completamente diferentes".
"Isto tem que ser visto com urgência, com racionalidade e com equilíbrio", sublinhou.
Neste concelho do distrito de Viseu, as chamas percorreram mais de 85% da área florestal e provocaram oito mortos (seis eram residentes no concelho e dois seguiam na A25).
No mesmo distrito, também na região de Lafões, as chamas atingiram violentamente o concelho de Oliveira de Frades, onde sofreram prejuízos 70 pequenas e médias empresas.
O presidente da autarquia, Paulo Ferreira, disse à Lusa que "o relatório demonstra muitas fragilidades ao nível da organização e meios da proteção civil", que "carecem de resolução urgente", e também "que as medidas propostas para a floresta devem ser implementadas no terreno com o apoio financeiro adequado".
A comissão técnica independente criada para analisar os grandes incêndios rurais de 2017 entregou no dia 20 de março no parlamento o relatório dos fogos de outubro (dias 14, 15 e 16), envolvendo oito distritos das regiões Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu) e Norte (Braga e Viana do Castelo).
Falhas na programação do socorro e na rede de comunicações e um "dramático abandono" das populações foram identificados pela comissão técnica, que admite, contudo, uma conjugação singular de fatores meteorológicos.
Viseu foi um dos distritos mais afetados, quer em área ardida quer em número de vítimas mortais, embora os incêndios com origem no distrito não tenham sido os mais significativos, já que dois fogos com início no distrito de Coimbra - o da Lousã e o de Arganil - entraram em Viseu e percorreram "uma área imensa", atravessando vários concelhos.
Estes incêndios provocaram a morte a 49 pessoas
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