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Correio da Manhã

Portugal
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Campinos entre toiros

Nem a braveza do toiro à entrada do recinto fez com que os campinos e lavradores, montados a cavalo, arrepiassem valentia antes da picaria à vara larga – corria a manhã de ontem nas Festas do Barrete Verde e das Salinas, em Alcochete.
14 de Agosto de 2005 às 00:00
Campinos e amadores demonstram a arte de uma vida de trabalho, que consiste em lidar com o gado bravo e os cavalos
Campinos e amadores demonstram a arte de uma vida de trabalho, que consiste em lidar com o gado bravo e os cavalos FOTO: Marta Vitorino
“É o gosto pelos animais e pelo campo que nos faz correr riscos”, diz Asif, 23 anos, amador. Mal entra no recinto, acompanhado por meia dúzia de outros campinos e amadores, é largado o toiro – ouve-se o público a vibrar com cada varada no bicho, cada corrida atrás dos cavaleiros, cada movimento de destreza. “Gostamos desta ‘aficion’”, confessa Asif.
O elemento base das festas é o toiro, mas os protagonistas são os campinos e forcados – tal como os salineiros, função de grande relevância económica para a vila.
Antes do espectáculo da picaria, suspenso nos últimos quatro anos, os homens e os cabrestos – grupo de seis ou sete bois mansos que servem de guias a uma manada – são abençoados pelo pároco da freguesia. Segue-se a condução dos jogos de cabrestos através de uma pista de obstáculos. Um trabalho do dia-a-dia na vida do campo.
“Damos a conhecer os usos e costumes desta população e, por outro lado, fomentamos o gosto pela festa brava”, afirma Fernando Pinto, presidente da direcção do Aposento do Barrete Verde. “Mantém-se viva uma tradição de, pelo menos, 64 anos.”
E nada como a tradição que arrasta milhares de pessoas para as ruas – as largadas diárias de toiros fazem com que dezenas de pessoas, que nunca estiveram frente-a-frente com um toiro, superem os seus próprios medos e desafiem a rudeza do animal. Já que tudo é popular nas festas, a noite de ontem terminou com a tradicional sardinha assada.
É este o momento em que a pequena vila de 14 mil habitantes triplica a concentração de pessoas.
As ruas de Alcochete ficam divididas entre as entradas de toiros e a curiosidade dos visitantes. “É uma homenagem aos nosso homens”, diz Fernando Pinto – não esquecendo a arte de lidar com o gado bravo.
"ESTE GOSTO NASCE COM A PESSOA"
Campino montado a cavalo e vestido ao rigor do barrete verde para conduzir os jogos de cabrestos, José Nunes, 26 anos, anseia todo o ano pelas festas bravas de Alcochete.
“Andamos o Inverno todo no campo, por isso, as festas são sempre o nosso consolo”, descreve. A vida do campo é de paixão e dureza. “Este gosto nasce com a pessoa – gosta-se dos animais e de lidar com eles. Mas é muito duro, desde manhã cedo a dar a volta ao gado.”
José, como todos os maiorais de vacas, é responsável pela separação das diversas espécies de parideiras e, assim, garante a continuidade da ganadaria. O peso do trabalho é grande e nem o facto das vacas serem mansas ajuda: “São as que mais marram.”
CARTAZ EM DESTAQUE
HOJE
A partir da 9h, entram as vacas na vila. Às 11h30, tem início a missa em honra da N. Sra. da Vida. Às 18h, começa a 2.ª Grande Corrida de Toiros. Depois da meia-noite, fados e a tradicional largada de toiros.
DIAS SEGUINTES
Todos os dias há largadas de toiros na vila (segunda-feira é às 10h, terça às 18h e quarta às 19h). Ainda na segunda, às 22h30, há um espectáculo de cantares e homenagem ao forcado, campino e salineiro, ‘Ribatejo em Festa’. Na terça, às 22h, 3.ª Grande Corrida de Toiros. Por fim, quarta, a partir da meia-noite, o arrear da bandeira e o festival pirotécnico.
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