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Correio da Manhã

Portugal
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Canto o hino com a Selecção

Alpa Menal Kanabar, comerciante, casou há nove anos com um português de origem indiana. O casal tem dois filhos portugueses. Alpa deseja mudar de nacionalidade, mas o Tribunal da Relação de Lisboa recusou porque ela não sabia o hino. Agora, até canta com os jogadores e acompanha a equipa das quinas.
3 de Julho de 2006 às 00:00
Correio da Manhã – Em julgamento confessou que não sabia o hino nacional. Já aprendeu?
Alpa Kanabar – Estou a aprender. Aquando dos jogos da Selecção, oiço a música e canto com os jogadores.
– Acompanha então os jogos da Selecção?
– Sim. Quando não estou a trabalhar na loja.
– Viu o jogo de Portugal com a Inglaterra?
– Vi. Estava em casa. Foram duas horas e meia de sofrimento para ver Portugal vencer. Quando foi para prolongamento sempre acreditei que marcássemos um golo. Mas não marcámos. Então aquando dos pénaltis pensei sempre que Portugal ia ganhar, tal como aconteceu no Euro’2004, mesmo sabendo que o Figo tenha sido substituído.
– Está então contente com a prestação da Selecção?
– Muito contente. Jogam muito bem. Infelizmente o Deco e o Costinha não jogaram com a Inglaterra, mas com a França já podem estar em campo.
– Tem dois filhos. Um com cinco anos e outro com dois. O mais velho já percebe que Portugal está a jogar?
– É ainda muito pequeno. O Yashmin só sabe dizer que é do Benfica. Qualquer coisa é o Benfica.
– Porque veio para Portugal?
– O meu marido é português de origem indiana. Conhecemo-nos e casámos na Índia, depois vim para Portugal.
– Porque quer obter a nacionalidade portuguesa?
– Vivo há nove anos em Portugal. Os meus filhos são portugueses. Entendo que a família é um corpo. A mãe é o coração de uma família.
– O Tribunal de Relação de Lisboa defende que não basta saber português, o cônjuge e os filhos serem portugueses e ter o desejo de ser portuguesa. Diz que desconhece a nossa cultura, a história e a política.
- Houve perguntas que não soube responder, outras que soube. Em política, a audiência ocorreu aquando das eleições presidenciais. Disse o nome de três candidatos, antes respondera sobre o nome do Presidente da República e do primeiro-ministro, mas para o juiz não foi suficiente.
– O que sentiu durante o julgamento?
– Senti-me ofendida, quando por exemplo, me perguntaram o que eu comia em casa. Isso é uma pergunta pessoal. Disse que era vegetariana, mas que tem isso a ver com a nacionalidade?
– Professa a religião hindu. Este assunto foi abordado?
- Sim. Disse que educo os meus filhos nessa religião e vou continuar a fazê-lo até terem 18 anos.
– Fora de Lisboa, qual o local que conhece melhor de Portugal?
– Fátima. Sempre que vêm cá amigos e família vamos a Fátima.
- Recorreu da decisão?
– Não, tinha dez dias para o fazer. Mas quando soube o resultado fiquei triste.
PERFIL
Alpa Kanabar, 33 anos, professa o hinduísmo mas vê o santuário católico de Fátima como um espaço sagrado de visita obrigatória. Na loja de relógios e utilidades onde trabalha, no Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, guarda uma medalha da Virgem. Sempre que familiares e amigos vêm a Portugal, o Santuário é local a visitar
IDENTIFICAÇÃO RELIGIOSA
Alpa Kanabar, 33 anos, declarou em Novembro de 2004, numa conservatória do Registo Civil que pretendia adquirir a nacionalidade portuguesa com base no casamento. O processo foi encaminhado para a Conservatória dos Registos Centrais onde a conservadora questionou a existência de um facto impeditivo. No processo pode ser lido que “resulta indemonstrada a sua (de Alpa Kanabar) identificação cultural, linguística e sociológica com a comunidade nacional portuguesa. Como se comprova pelas declarações prestadas pela própria”, onde a cidadã indiana afirma que aos “filhos há-de ensinar-lhes os princípios do hinduísmo”. O processo foi então encaminhado para o Tribunal da Relação de Lisboa, cujo acórdão lhe negou a nacionalidade. O CM tentou sem êxito obter mais informação junto da Conservatória dos Registos Centrais e da Relação de Lisboa.
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