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Correio da Manhã

Portugal
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Casamentos da net estão a dar divórcio

Há onze anos, o casamento de Matt Frassica com a mulher que conheceu num ‘site’ de encontros serviu como exemplo de sucesso dos ciber-romances – relações iniciadas em ‘chats’ de conversação ou ‘sites’ especializados em encontros pessoais. Mas o casamento do casal norte-americano terminou quando Matt percebeu que afinal era gay.
16 de Abril de 2006 às 00:00
O clima de romantismo das relações iniciadas na Internet sofreu um abalo com as últimas revelações
O clima de romantismo das relações iniciadas na Internet sofreu um abalo com as últimas revelações FOTO: Paulo Espadanal
Segundo as estatísticas norte-americanas, dois milhões de americanos conheceram as mulheres na internet. Agora começam a surgir os primeiros casos de divórcios neste tipo de enlaces. A duração média dos casamentos convencionais ronda os oito anos, pelo que a primeira onda de ciberdivórcios está agora a chegar aos Estados Unidos. Os ‘sites’ especializados em encontros e casamentos estão já a preparar soluções para manter os casais juntos.
SUCESSO COMO MARKETING
O eharmony.com vai criar este Verão um gabinete de relacionamentos, que vai monitorizar durante pelo menos cinco anos alguns dos casais que se conheceram através do ‘site’. O objectivo é perceber se os matrimónios funcionam – os de sucesso poderão ser utilizados como uma arma de marketing destes ‘sites’.
O ‘site’ jdate.com (para solteiros judeus) contratou um treinador de encontros matrimoniais. Objectivo: formar os conselheiros do ‘site’ para ajudar casais em crise.
O tempo gasto nos ‘sites’ de encontros diminuiu sete por cento no último ano e os cibernautas que procuram relacionamentos duradouros são 63 por cento mais sensíveis a pagar para obter encontros ‘on-line’ do que os restantes. No eharmony podem pagar 240 euros por 12 sessões de um programa de casamento criado por psicólogos.
OUTRO MOTIVO NA SEPARAÇÃO
Em Portugal este é um fenómeno por explorar. Dos psicólogos contactados pelo CM, poucos conhecem casamentos nascidos na internet.
No único caso referido, o casamento já acabou. A psicóloga que acompanhou o processo realça, no entanto, que a separação não se deveu à forma como se conheceram.
PORTUGUESES AINDA ENAMORADOS
Sandra e João estão casados há quatro anos, depois de dois de um namoro que começou num ‘site’ de conversação. Com a aliança no dedo, a alegria do casal já ganhou nome: Dinis, o filho de 22 meses. “Temos um filhote e continua a haver entre nós muita partilha, namoro e muito companheirismo”, descreve Sandra.
A internet deixou de fazer parte do dia-a-dia do casal, agora “prevalece o telefone nos momentos de ausência”. Marta e Alexandre conheceram-se nos ‘chats’ do IRC. “Em Abril de 2000 começámos a trocar mensagens”, recorda Marta. Durante três meses partilharam confidências, até o número de telefone. Marcaram um encontro, foram ver o filme ‘Virgens Suicidas’. “Falámos pouco dessa vez.” Começaram a namorar em Outubro e em Fevereiro de 2002 casaram. “Ele era das poucas pessoas ‘normais’ que havia no ‘chat’.”
Nuno Nodin, psicólogo clínico e professor: “Não tem de ser para toda a vida”
Correio da Manhã – Os romances iniciados na ‘net’ são virtuais?
Nuno Nodin – Se resultam em casamento, não são virtuais, são reais. Há um investimento muito grande na relação, pois é muito íntima do ponto de vista emocional e psicológico.
– O risco de terminarem em divórcio é superior às relações convencionais?
– Actualmente os casamentos em geral não são duradouros, já não há a ideia de que tem de ser para toda a vida. O que acontece com os casais que se conheceram na internet não é diferente.
– Mas há sempre o risco da decepção no primeiro contacto físico.
– Neste tipo de relações aposta-se numa dimensão mais profunda e a parte física é menos importante. Conhecem-se primeiro as dimensões psicológicas e emocionais.
– Que pessoas procuram este tipo de relação?
– Pessoas que podem ser tímidas ou ter dificuldade em interacções sociais. É um meio muito mais acessível para contactar outras pessoas. Podem sair à noite meses a fio e não se relacionarem e numa noite num ‘chat’ conseguem conhecer uma série de pessoas. É um meio com uma boa relação custo/rendimento.
– Não há mentiras pré-nupciais?
– A maior parte das pessoas são honestas. Sentem-se mais à vontade porque é um meio que permite que se possam ‘esconder’ através da internet. Claro que também há quem minta, mas a maioria é sincera, procura relacionamentos sérios.
– Os portugueses aderem a estes ‘sites’?
– Em muitos ‘sites’ há milhares de perfis de portugueses. São pessoas normais, estão à nossa volta.
NÚMEROS QUE RODEIAM O CASAMENTO
2 MILHÕES - de americanos conheceram os seus parceiros na internet
8 ANOS - é o tempo médio de um casamento
49178 - casamentos convencionais realizados em Portugal em 2004
25% - dos casamentos acontecem quando os noivos já vivem juntos
23 348 - divórcios registados em Portugal em 2004
2,2% DO PIB - é o volume de negócios no sector dos casamentos
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