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Correio da Manhã

Portugal
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CASAS RENASCEM DAS CINZAS

A construção de novas casas para alojar as famílias que viram arder todos os seus bens marca agora o quotidiano da população da freguesia de Pinheiro Grande, na Chamusca, onde o fogo destruiu tudo à sua passagem.
28 de Agosto de 2003 às 00:00
A construção das primeiras casas já começou em Pinheiro Grande
A construção das primeiras casas já começou em Pinheiro Grande FOTO: Carlos Ferreira
A obra de construção da primeira casa arrancou na semana passada, em Cabeças, e ontem começou outra, em Vale da Vinha, esperando-se que nos próximos três meses “todos os processos estejam encaminhados”, disse ao CM o presidente da Junta de Freguesia de Pinheiro Grande, Artur Jacinto, que tem “esperança” que “as coisas se resolvam”.
Das 12 casas que arderam na freguesia de Pinheiro Grande, nove eram a habitação permanente e os moradores estão agora alojados num centro temporário.
A vegetação também já começa a rebentar, pelo que a pouco e pouco as encostas voltam a pintar-se de verde, a cor da esperança, que agora acalenta a população.
Prazeres Morais, de 66 anos, que vivia em Cabeças com o marido, de 70 anos, ficou sem nada. A casa ardeu e com ela todos os seus haveres, incluindo a carteira com os documentos e a reforma que tinha acabado de levantar. “Ficámos só com a roupa que tínhamos no corpo”, disse Prazeres Morais, que “nunca” pensou que “o lume entrasse em casa. Eu tinha duas mangueiras, mas como não havia água foi a nossa perdição”, recorda.
As galinhas, os perus, as cocós, os pintos e os carneiros morreram carbonizados, apenas se salvando dois cães, que conseguiu soltar a tempo.
Prazeres Morais está a viver numa casa emprestada, em Godinhas, a cujo dono agradece a generosidade, mas que não tem energia eléctrica e antes servia de celeiro para guardar batatas.
“Caiámos as paredes e tivemos de ajeitar a casa, a mobília é emprestada e tive de comprar loiça, porque a minha ardeu”, contou a idosa, explicando que tem de tomar banho de dia, enquanto está calor, porque a casa-de-banho não tem telhado.
A mulher tem contado com a ajuda dos filhos e dos vizinhos, que lhe levam comida e outros bens, mas também de desconhecidos, entre os quais um casal estrangeiro que lhe levou um saco de roupa.
O casal, também idoso, estava de férias no Algarve quando soube que o fogo tinha destruído todos os bens de Prazeres Morais e do marido. Sensibilizados com o drama, os estrangeiros viajaram até Pinheiro Grande e conseguiram localizá-los, através de uma fotografia.
“Fiquei muito contente com a sua generosidade e convidei-os a visitar a minha casa nova, quando estiver pronta. Prometeram voltar em Janeiro”, concluiu Prazeres Morais.
CONSEQUÊNCIAS
356 MIL HECTARES
356 mil hectares de terrenos arderam este ano em Portugal, segundo estimativas apresentadas pelo Centro de Investigação da Comissão Europeia e cujos cálculos excedem em 20 mil hectares a área avaliada pela Direcção-Geral de Florestas.
LINCE AMEAÇADO
Os incêndios que assolaram as florestas portuguesas destruíram recursos alimentares e ‘habitats’ do lince ibérico, o felino mais ameaçado do mundo, alertou a associação SOS Lynx.
LENHA AUTORIZADA
O Governo decretou que a extracção de lenha nas áreas afectadas pelos incêndios só é possível mediante autorização das Direcções Regionais de Agricultura. A medida visa a conservação dos solos e qualidade da água.
EXPECTATIVAS
O comissário europeu da Política Regional reconheceu que o montante proposto por Bruxelas para fazer face aos incêndios em Portugal (31,6 milhões de euros) “não está à altura das expectativas”.
TRAGÉDIA DEMONSTRA SOLIDARIEDADE E CAPACIDADE DE RECOMEÇAR
Lentamente, a população de Pinheiro Grande, a freguesia do concelho da Chamusca mais atingida pelo fogo, vai aprendendo a ultrapassar o drama que viveu no dia 2 de Agosto, quando um fogo medonho, que avançou a uma velocidade estonteante, destruiu a floresta, casas, fábricas, explorações agrícolas e matou duas mulheres, filhas da terra.
À ESPERA DO NATAL
Prazeres Morais espera passar o próximo Natal na sua casa nova, que deverá estar concluída daqui a três meses. A casa ocupa 70 metros quadrados e terá quarto, sala, cozinha, casa-de-banho e despensa. Custará 350 mil euros, que serão suportados pelo Governo, já que o primeiro-ministro ficou sensibilizado com o caso quando visitou Pinheiro Grande.
VEGETAÇÃO VOLTA
A vegetação volta, a pouco e pouco, a cobrir de verde as encostas de Pinheiro Grande. Temem-se agora as primeiras chuvadas, que poderão arrastar resíduos pelas encostas. “Se vier uma escarduçada forte vem tudo por aqui abaixo e como as casas são muito baixinhas vai ser um problema”, disse Custódia Oliveira, moradora em Vale da Vinha.
GALINHEIRO NOVO
Toda a criação de Custódia Oliveira, de 66 anos, foi dizimada pelo fogo, que só lhe poupou a casa. Ontem a mulher pôs mãos à obra e fez um novo galinheiro, para lá pôr os patos e as galinhas que umas senhoras de Pinheiro Grande lhe deram para voltar a criar. “Toda a gente me tem socorrido”, disse a idosa, que tem uma reforma mensal de 252 euros.
FOGO MEDONHO
O fogo que atingiu a freguesia de Pinheiro Grande avançou a uma velocidade “medonha”. As chamas chegaram por volta das 15 horas e ao fim da tarde “estava tudo ardido”, disse Artur Jacinto, presidente da Junta de Freguesia. O dia 2 de Agosto não sairá da memória de todos, pois além dos bens materiais, há a lamentar a morte de duas mulheres, atingidas pelas chamas.
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