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Correio da Manhã

Portugal
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Cego e de muletas ainda trata da terra

Gabriel Ramalho, de 74 anos, é cego e tem uma prótese numa das pernas, mas percorre todos os dias seis quilómetros a pé, até à vila de Cerveira, para tratar dos seus assuntos, amparado apenas em duas muletas.
21 de Maio de 2008 às 00:30
Gabriel Ramalho no café onde todos os dias está com os amigos. O que nunca falha é a ida à vila de Cerveira
Gabriel Ramalho no café onde todos os dias está com os amigos. O que nunca falha é a ida à vila de Cerveira FOTO: Carla Alexandra Ferreira

Além disso, o septuagenário, morador na freguesia da Gávea, racha lenha, poda as vinhas, trata dos animais e conhece como ninguém as marcações dos terrenos.

"Ao que é meu vou lá direitinho – ninguém me engana –, e a propriedade dos outros também sei muito bem onde começa e onde acaba", diz, orgulhoso, Gabriel Ramalho.

Rodeado de amigos no café do costume, são muitas as vozes que o apelidam de ‘homem de extrema coragem’. Manuel Matias, um amigo de longa data, faz questão de salientar que já encontrou várias vezes o idoso a atravessar a linha do comboio, numa passagem sem guarda, para ir limpar um terreno que fica junto ao rio Minho.

"Onde é que já se viu uma coisa destas? Cego e com parte de uma perna amputada, a andar por aí sem a ajuda de ninguém! Isto é um homem de uma têmpera que já não há", assegura.

Mas Gabriel Ramalho tem uma teoria que explica a sua invulgar autonomia. "Eu tenho um mapa na cabeça; para mim tanto faz ser de noite como de dia. Vivo na escuridão, mas nunca me desoriento."

Só ficou completamente cego aos 50 anos, mas a verdade é que nunca viu muito bem e, por isso, diz que lhe custaram muito mais os problemas na perna do que na vista.

"O que realmente me custou foi perder parte da perna, porque me prejudica muito a marcha. De resto, eu já não via quase nada", afirma.

Figura muito conhecida em todo o concelho de Vila Nova de Cerveira, a sua força de vontade e determinação continuam a admirar as pessoas da terra. Só reclama com as obras nas estradas, porque "os buracos são muito traiçoeiros e temos de andar com cuidado redobrado".

PORMENORES

Gabriel Ramalho, de 74 anos, é cego e tem uma prótese numa das pernas, mas percorre todos os dias seis quilómetros a pé, até à vila de Cerveira, para tratar dos seus assuntos, amparado apenas em duas muletas.

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