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Correio da Manhã

Portugal
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Cem euros por dois anos de trabalho

António Marto, 66 anos, esteve sequestrado durante dois anos, quatro meses e onze dias numa propriedade agrícola em Espanha – onde, sob as ordens de uma família cigana de Mirandela, trabalhou como escravo, de sol a sol, sem receber salário.
1 de Maio de 2005 às 00:00
António Marto carrega no corpo as marcas do trabalho escravo
António Marto carrega no corpo as marcas do trabalho escravo FOTO: Luís C. Ribeiro
A família cigana que escravizou este homem foi detida numa operação lançada pela Polícia Judiciária, no último dia 25 de Abril, em oito locais do Norte do País. A operação policial levou à detenção de 23 suspeitos de sequestro, associação criminosa e branqueamento de capitais. Todos os detidos acabaram por ser libertados pela juíza Isabel Ramos, do Tribunal de Instrução Criminal do Porto, mas ficaram obrigados a se apresentarem periodicamente em posto policial.
António Marto garante que era obrigado a trabalhar todos os dias, sem descanso nem salário.“Nunca me bateram e a comida nunca faltou, mas faltava o resto. Não podia comunicar com a família e, até, para fumar um cigarro era obrigado a pedir”, recorda .
O CM noticiou na edição de 25 de Março o desaparecimento deste homem, que a família procurava intensamente. Três dias após a notícia, inesperadamente, António Marto foi libertado: conduziram-no até à fronteira, na região de Bragança, e entregaram-lhe cem euros para ele fazer o resto da viagem de regresso à casa da família, em Valpaços.
A quinta onde António Marto foi escravo fica nos arredores de Logronhos. Com ele trabalhavam mais cinco portugueses. Não tinham qualquer hipótese de fuga, porque eram vigiados, dia e noite
“Um dia, estava eu a trabalhar, um homem que eu não conhecia disse-me que iria regressar a casa. Não me deixaram ir buscar as minhas roupas. Quando perguntei pelo patrão, para me pagar, disseram-me que ele iria a Portugal para acertar contas comigo. Até hoje.”, recorda.
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