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Correio da Manhã

Portugal
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CEM MIL AVES VOAM NO TEJO

Manhã de São Martinho - fria e soalheira - no estuário do Tejo, no sítio chamado “das Hortas”, porque ali as havia, há muito tempo. Ontem estava a maré tão baixa que só com binóculos era possível dar forma às manchas vagarosas em tons rosa ao fundo - flamingos.
11 de Novembro de 2002 às 00:08
Ao pé deles ou espreitando na vegetação ribeirinha, garças brancas por inteiro ou de bico preto, maçaricos de bico-direito, pilritos... Mal começara a saída de campo, organizada pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, e já havia gente deslumbrada ante a variedade da avifauna do estuário, onde, nesta altura, acorrem mais de cem mil aves.

“Coisa pouca” para o septuagenário António José, que por ali apareceu, com o cão Fiel pela trela, disposto este a dar lambidelas aos forasteiros, de mochilas, binóculos e máquinas fotográficas, e aquele a partilhar um saber acumulado durante anos a olhar para o rio. “Está a ver ali? Vê a ponta do barco azul? Agora um pouco à direita... é uma águia-pesqueira.”

O vigilante da natureza João Silva, orientador da expedição, adiantou ser a águia-pesqueira uma ave migradora, não nidificante, ou seja, que não faz ali os ninhos. O flamingo também é migrador, mas parcial, de tal modo que lhe chamam “cruzeiro” do Mediterrâneo, de tanto andar de cá para lá e de lá para cá. Ali, no estuário do Tejo, encontram-se as aves juvenis, que preferem evitar o confronto com as adultas, nos locais onde estas nidificam.

DOIS MIL FLAMINGOS

O que nem o jovem João Silva, nem o idoso António José conseguiram explicar foi a razão de terem algumas gaivotas as cabeças pretas. Mesmo assim, a António José, que sacudia das calças a areia das patas do Fiel, satisfaz a versão do povo: “Diz-se que assim antecipam o lamento pela morte de Nosso Senhor, na Quaresma.”

Antes que o grupo partisse para a salina do Vau, em busca de flamingos, pernas-longas e tantos outros, ainda havia António José de lembrar os borrelhos, que “faziam os ninhos onde passavam as pessoas” e estas, para não lhes pisarem os ovos, “costumavam sinalizá-los com moitas”.

Mais próximos do que nas Hortas, os flamingos do Vau assemelhavam-se a damas antigas que levantassem com cuidado a saia, deixando ver o gentil tornozelo. Estranha-se que uma ave de aspecto tão frágil emita um ronco de tal maneira grave. Mas é mesmo assim. Os outros sons eram dos tiros dos caçadores, ali perto.

Habituados à presença humana, os flamingos deixaram-se estar. No Inverno chegam a reunir-se no estuário mais de dois mil. Esta é uma boa altura para visitá-lo porque, afirmou João Silva, ainda cá estão aves que aqui não passam o Inverno e já começaram a chegar as outras. Deixaram-se ver um pato perna-vermelha ali, dois peneireiros-de-dorso malhado antes, ‘patos mergulhadores’ - “não são patos mergulhadores, são mergulhões”, esclareceu o guia - lá à frente, uma águia-calçada ao lado, até que o bando de flamingos levantou voo, numa explosão cor-de-rosa, que tinham guardado nas asas recolhidas.

Zona das mais importantes da Europa

A Reserva Natural do Estuário do Tejo – que ‘apanha’ parte dos concelhos de Vila Franca de Xira, Alcochete e Benavente – é a zona húmida mais extensa do território nacional e uma das mais importantes da Europa. No estuário e área terrestre adjacente, incluídos na Zona de Protecção Especial (ZPE), ocorrem 18 tipos de “habitats” naturais protegidos pela Directiva Habitats.

Segundo informação do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), “é a avifauna aquática migradora que atribui ao estuário do Tejo o estatuto de mais importante zona húmida”.
Ali ocorrem com regularidade cem mil aves invernantes, número que excede 120 mil nos períodos de passagem migratória.
A avifauna que utiliza o estuário e a área terrestre adjacente engloba cerca de 194 espécies de ocorrência regular, 46 das quais são referidas na Directiva 79/409/CEE, designada “Directiva Aves”.

A nível internacional, a reserva contribui para a preservação de 14 espécies de aves, nomeadamente o alfaiate, seu símbolo.
O estuário também é importante para os peixes, pois constitui zona de “nursery” - espécie de berçário - para 19 espécies, apresentando, igualmente, condições para a desova e crescimento de outras três.
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