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Correio da Manhã

Portugal
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CEMITÉRIO PERDE OSSADAS

Em Junho deste ano Manuela Alegria foi ao cemitério municipal de Faro para efectuar a trasladação dos restos mortais do marido e verificou que tinham sido trocados. Três meses depois, ainda ninguém sabe dos ossos desaparecidos.
23 de Setembro de 2002 às 23:22
José Manuel Alegria faleceu em Junho de 1995 e cerca de um ano depois a sua mãe também perdeu a vida.

Maria Manuela Alegria, mulher do falecido, resolveu cumprir o desejo da sogra, que pretendia ser sepultada ao lado do filho, o que só seria possível depois da exumação dos restos mortais dos dois familiares.

Há cerca de dois anos as ossadas de José Alegria foram desenterradas, tendo a mulher pedido a dois responsáveis pelo cemitério para guardarem os restos mortais até que se realizasse a exumação da sogra.

Na altura o pedido foi aceite, tendo a viúva assistido ao levantamento e lavagem das ossadas, pelo que, durante os últimos dois anos, acreditou estarem "bem guardadas".

Pressentimento

Em Março deste ano, três meses antes da exumação dos restos mortais da sogra, Maria Manuela Alegria solicitou à Câmara Municipal de Faro a compra de dois ossários contíguos no cemitério local.

O pedido foi concedido e a compra efectuada. Três meses depois, na companhia da cunhada, dirigiu-se ao cemitério para presenciar a trasladação dos restos mortais para os dois ossários. Tudo teria decorrido normalmente não fosse a viúva ter pedido para abrir a urna do marido: "Tive um pressentimento de que algo não estava bem. Vi logo pela configuração dos dentes que os ossos não pertenciam ao meu marido", revela a queixosa.

Na altura, o encarregado do cemitério terá reconhecido o engano e duas semanas depois contactou a viúva para assistir novamente à trasladação do marido.

Mais uma vez Manuela desconfia e pede a abertura da urna: "Nem queria acreditar que pela segunda vez me tentavam enganar, mas desta de uma forma muito mais grave, pois colocaram o cadáver de uma terceira pessoa. Ainda por cima arrancaram os dentes para que eu não conseguisse ver que não se tratava do meu marido", garante.

Macabro

O episódio macabro não se ficou por aqui. Face ao "engano", o encarregado do cemitério conduziu Maria Manuela ao local onde "estão amontoadas" várias dezenas de ossadas sem identificação: "Tive que verificá-las uma por uma até chegar à conclusão de que nenhuma era a do meu marido", lamenta.

Revoltada com a situação, a viúva apresentou várias queixas e pedidos de esclarecimento junto dos responsáveis do cemitério, bateu à porta do vereador responsável pelos assuntos relacionados com o processo e expôs o caso por escrito ao presidente da Câmara de Faro.

Até agora , a única responsabilidade foi atribuída, pelos responsáveis do cemitério, ao coveiro, mas esta é uma "sentença" que Manuela Alegria não aceita, já que o indivíduo é alegadamente analfabeto e, por esse motivo, "não poderia responsabilizar-se pela catalogação das ossadas", afirma.

"Andam a brincar com os meus sentimentos. Quem eram as duas pessoas que puseram no lugar do meu marido? Ele deve estar no ossário de outra pessoa. Se me enganaram duas vezes quem me garante que já não o têm feito com outras pessoas? Os ossários devem estar todos trocados", acusa a viúva de José Manuel.

Dúvidas que não puderam ser esclarecidas já que nem o presidente da Câmara de Faro nem o responsável pelo cemitério municipal, que o CM procurou contactar, estavam disponíveis para falar do caso ao nosso jornal.

Conservar os mortos

A exumação de corpos ocorre três a cinco anos após a morte, de acordo com a disponibilidade física dos cemitérios. Quem quiser conservar os restos mortais de familiares após o desenterramento, deve, no caso de Faro, comunicar essa intenção ao cemitério. O processo é conduzido depois por uma agência funerária que procede aos trâmites necessários à trasladação, ou seja, à transferência dos restos mortais de uma sepultura para outra.

Cabe à Câmara Municipal, proprietária do cemitério, disponibilizar a pequena urna e o respectivo ossário onde será colocada (uma espécie de gaveta em forma quadrada). Os custos totais do processo variam de acordo com o regulamento municipal. No caso de Faro a trasladação para um ossário ronda os 400 euros.
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