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Cientistas descobrem hormona da confiança

A confiança é algo que se constrói, diz a sabedoria popular. Mas para um grupo de estudantes suíços bastaram algumas inalações de um ‘spray’ de oxitocina, uma hormona produzida naturalmente no cérebro, para que entregassem o seu dinheiro a desconhecidos, sem qualquer garantia de que lhes seria devolvido.

06 de junho de 2005 às 00:00

Uma confiança cega, resultado de uma experiência de investigadores da Universidade de Zurique, destinada a comprovar que os níveis de confiança no próximo podem ser reforçados de uma forma simples: basta a exposição a doses desta hormona, muito conhecida, mas apenas agora associada a aspectos do comportamento humano tão influenciáveis socialmente.

O estudo foi publicado na edição deste mês da ‘Nature’ e revisto pelo neurologista português António Damásio, que confirma que “pouco se sabe sobre a neurobiologia da confiança, apesar do fenómeno estar a começar a atrair atenções”. Mais confiantes estão os investigadores do estudo, que acreditam ter dado um passo importante na descoberta de tratamentos para fobias sociais ou até mesmo o autismo. “Tenho esperança que esta pesquisa possa levar à aplicação clínica em desordens psiquiátricas associadas à falta de confiança”, referiu Ernst Fehr, professor de Economia da Universidade de Zurique e um dos autores do trabalho.

DOSE DE CONFIANÇA

Para confirmar a suspeita de que a oxitocina pode influenciar os níveis de confiança, os cientistas seleccionaram 178 estudantes suíços do sexo masculino, desafiados a participar num jogo simples, mas com uma componente capaz de provocar desconfianças: a gestão monetária.

Os estudantes, a quem foi dado o nome de investidores, começaram o jogo com uma mesada de 12 unidades monetárias, valor que podiam optar por não entregar a um depositário, entregar na totalidade ou dividir em partes. Este, por sua vez, teria a seu cargo a tarefa de triplicar o dinheiro investido e depois decidir quanto é que devolveria à procedência.

Em experiências anteriores, verificou-se que quando estava em causa dinheiro, prudência e cautela eram palavras de ordem e que os investidores apenas agiam depois de terem garantias da honestidade dadas pelo depositário da verba.

Neste caso, no entanto, o ‘spray’ nasal à base de oxitocina foi suficiente para que os níveis de confiança subissem. Resultado: quem inalou a hormona revelou, em 45 por cento dos casos, “confiança total”, ao investir a todas as unidades recebidas, contra 21 por cento dos que faziam parte do grupo que recebeu apenas placebo – substância neutra.

O trabalho está ainda no início, mas levanta já algumas questões. É que confiança cega em estranhos pode dar origem a problemas. No entanto, os cientistas acreditam que em caso de quebra de confiança, não há oxitocina que valha.

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