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Correio da Manhã

Portugal
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Ciúme leva a matança

Um empresário de Paços de Brandão, Feira, matou ontem a tiro a mulher e o cunhado e suicidou-se. Na origem do crime estarão motivos passionais. Carlos Gomes da Silva não aceitou o pedido de divórcio e não perdoou ao cunhado por apoiar a irmã que, segundo ele, teria um caso amoroso com o cozinheiro do seu restaurante.
2 de Abril de 2008 às 00:30
António Rodrigues foi morto pelo cunhado Carlos, que primeiro matou a mulher Adelina
António Rodrigues foi morto pelo cunhado Carlos, que primeiro matou a mulher Adelina FOTO: Francisco Manuel

"Uma desgraça. Como é que ele teve coragem?", questionavam incrédulos os muitos populares que se concentraram em frente ao restaurante Grelha da Brevias na Zona Industrial de Paços de Brandão, propriedade de Carlos Silva, de 46 anos, e da mulher, Maria Adelina Belinha Rodrigues, de 40.

Os mesmos populares contam que Carlos já tinha ameaçado que "um dia iria haver mortes", mas ninguém o levou a sério. Ontem de manhã, o empresário muniu-se de uma caçadeira de canos serrados e cerca das 10h25 entrou no seu restaurante. Foi ter com o cozinheiro, apontou-lhe a arma e disparou.

O homem, em pânico, conseguiu baixar-se e evitar ser atingido. Carlos Silva não se apercebeu e, pensando que o tinha assassinado, foi ao encontro da mulher que estava na oficina de automóveis, nas traseiras do restaurante.

Aqui, apesar da presença de um tio de Maria Adelina e de um cliente, alvejou-a com um tiro na cabeça. "Chegou à porta e disparou logo um tiro que passou entre mim e o cliente, acertando na cabeça da minha sobrinha", contou, entre soluços, o tio Lourenço.

Assustado, Lourenço deu um pontapé na porta, fechando-a e impedindo que o homicida também os alvejasse. "Penso que a seguir ia disparar contra mim", disse. Carlos Silva ainda tentou forçar a porta, mas desistiu e saiu em direcção ao restaurante Rambóia, no centro da freguesia, propriedade do cunhado, António Belinha Rodrigues, de 38 anos. Entrou no estabelecimento e num tiro certeiro atingiu o irmão da mulher na cabeça. Sem perder a calma e sem se intimidar com os populares que passavam na rua, saiu, com a arma na mão.

Um popular, José Coimbra, que passava nesse momento e ouviu o tiro ao cruzar-se com Carlos Silva, perguntou-lhe: "Que se passou". Com um olhar gélido, o empresário fez-lhe um aviso muito claro: "Não é nada contigo. Cala a boca ó palhaço, senão ainda sobra para ti..." José Coimbra viu-o então entrar na carrinha, uma Peugeot, e arrancar.

O homicida conduziu durante 600 metros até á rua da Quinta de Baixo. Estacionou, abriu a porta da viatura, meteu o cano da caçadeira na boca e disparou, pondo fim à vida. Fátima Santos, que passava naquela altura, viu "um homem estendido no chão e, pensando que era alguém que se teria sentido mal", parou para o auxiliar.

Foi quando um outro condutor, que também parou, lhe aconselhou: "Não lhe toque, que ele deu um tiro na cabeça".

FILHOS COM APOIO PSICOLÓGICO

As relações entre Carlos Silva e o cunhado, António Belinha Rodrigues, tinham-se degradado há cerca de dois anos quando desfizeram a sociedade que tinham no restaurante Rambóia, levando o casal a abrir o restaurante Grelha das Brevias. No entanto, contam familiares e amigos do casal, "as coisas entre o Carlos e a ‘Lina’ já andavam mal. Ele batia-lhe e ela pediu o divórcio". Esse terá sido o tema da conversa entre Maria Adelina, o cozinheiro Paulo Jorge Soares, um empregado e os dois filhos do casal, um rapaz de 12 anos e uma rapariga de 17, que domingo à noite jantaram no Rambóia. Os dois filhos do casal e o filho de António Rodrigues, de 12 anos, foram levados para a GNR de Lamas para serem acompanhados por psicólogos.

"PENSOU QUE ME TINHA MATADO"

Paulo Jorge Soares – o cozinheiro – não vai esquecer "nunca" o dia em que escapou à caçadeira do patrão, para quem trabalhava há cerca de dois anos, tantos quantos tem o restaurante Grelhas da Brevia. As imagens do terror de quem escapou à morte quase o sufocam. "Foi tudo muito rápido. Estava a trabalhar na cozinha quando o vi apontar-me a arma e a disparar", recorda. "Como me baixei e fiquei no chão, ele pensou que me tinha matado e foi embora", acrescentou. Apavorado, o cozinheiro saiu pela porta da cozinha e foi bater aos portões das fábricas em frente ao restaurante para pedir socorro, mas já era tarde para Maria Adelina. A GNR chegou quase de imediato ao local, mas o homicida já ia a caminho do restaurante Rambóia, onde matou o cunhado. "Há três semanas tinha-me ameaçado, a mim e à mulher, de morte, em frente ao advogado que estava a tratar do divórcio", lembrou, acrescentando que, ao contrário do que dizem, Carlos Silva "não era nada pacífico. Era um bicho, porque só um bicho pode fazer uma coisa destas."

PORMENORES

TRÊS LOCAIS

As três mortes ocorreram em três locais distintos. A mulher no restaurante do homicida, o cunhado no restaurante deste e, a cerca de 600 metros, consumou-se o suicídio. Esta situação levou à mobilização de um grande aparato de socorro, em que participaram os Bombeiros de Lourosa, Feira e Esmoriz, para além das equipas de paramédicos do INEM.

COMENTÁRIOS

A tragédia foi amplamente comentada em Paços de Brandão e freguesias em redor, uma vez que os protagonistas, vítimas e homicida eram muito conhecidos na região.

REVOLTA

Os filhos de Carlos Silva e Maria Adelina, de 12 e 17 anos, não perdoam a atitude do pai, com quem estão revoltados. Ontem, muito perturbados, contaram com ajuda psicológica para lidar com o choque.

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