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Correio da Manhã

Portugal
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COMANDANTE DE ALBUFEIRA VAI PEDIR AVERIGUAÇÃO

O comandante da Brigada de Trânsito de Albufeira, capitão Rodrigues Maia, vai solicitar ao Comando-Geral da GNR ma averiguação interna a factos que remontam a 1999, depois de, ontem, o seu nome ter sido envolvido num caso de alegada adulteração de resultados de análises de alcoolemia de um diplomata português.
30 de Dezembro de 2002 às 00:00
Em pouco menos de um mês, de Santarém a Évora, o valor da taxa de alcoolemia desceu 1,13 gramas. O embaixador João Salgueiro, actualmente na Holanda, afirma, por seu lado, ao Correio da Manhã que nada sabe do caso e que está a ser alvo de uma “campanha difamatória”.

No centro da polémica, com diferentes versões, está um teste de alcoolemia – para o qual existem dois resultados muito diferentes – realizado na sequência de um acidente ocorrido na noite de 13 de Fevereiro de 1999, em que esteve envolvido o embaixador. Sozinho no carro, João Salgueiro despistou-se de forma violenta a dez quilómetros de Évora, na estrada que liga a cidade a Reguengos.

De acordo com o jornal ‘24 Horas’ e a estação televisiva SIC, que citam documentos oficiais da GNR, o “excesso de velocidade” esteve na origem do acidente. Ainda segundo informações avançadas ontem, o actual comandante da Brigada de Trânsito de Albufeira, então à frente da BT de Évora, terá dado ordem a um militar da Guarda para que aguardasse no hospital até que lhe fossem entregues os resultados da análise ao sangue recolhido no hospital de Évora – num procedimento contrário à norma, que era esperar que os resultados chegassem pelo correio. Entretanto, o valor de 1,13 gramas por litro de sangue no documento do Hospital de Santarém, de 13 de Fevereiro, aparece no auto feito pela GNR a 9 de Março como 0,0 g/l. Ou seja, o condutor ficava livre de qualquer punição – multa ou outra.

COMANDANTE NEGA

Em declarações ao CM, o capitão João Rodrigues Maia, actual comandante da BT de Albufeira, onde no início do ano foram detidos vários militares por suspeita de corrupção, apenas confirma a existência do acidente. “Recordo-me, pois o senhor embaixador ficou bastante mal”.

Quanto à alegação de que terá dado ordem a um militar para que aguardasse em Santarém o resultado das análises, Rodrigues Maia refuta-a. “Nego que alguma vez tivesse dado ordem a algum soldado para esperar no Hospital de Santarém pelo resultado da análise ao sangue do sinistrado e muito menos de ter recebido no Destacamento o resultado da análise sanguínea à alcoolemia”.

“O sangue colhido seguia num ‘kit’ apropriado, que era entregue na unidade hospitalar de Santarém. O resultado vinha posteriormente pelo correio e nunca pela mão de agentes da BT”, afirmou o oficial da GNR.

O caso, porém, torna-se ainda mais complexo com a versão de João Salgueiro, actual embaixador de Portugal em Haia, que se queixa de estar a ser vítima de uma “campanha de difamação”. “Fui transportado para o Hospital de Évora, onde fiquei dez dias nos cuidados intensivos, com várias fracturas”, disse.

Apesar de, à data dos factos, a principal unidade hospitalar de Évora não dispor de meios para efectuar análises de alcoolemia ao sangue, fonte da BT contactada pelo CM sublinhou que as mesmas não eram obrigatórias. “O teste de alcoolemia através de análise a fluidos corporais, como o sangue ou a urina, não era obrigatório, ao contrário do que acontece desde Novembro de 2000 – data da actual legislação”, referiu.
Por outro lado, e por existir um prazo de dez dias após o acidente para os resultados das análises serem comunicados à GNR, “era e continua a ser procedimento normal fazer seguir as participações com o valor 0,0 gr/l”. “Se os resultados trouxerem outro valor, faz-se um aditamento ao processo”, esclareceu a mesma fonte.

Um dos principais envolvidos no caso, o diplomata João Salgueiro, diz não conhecer os documentos do Hospital e da GNR, onde aparecem o seu nome e a sua morada. “Nunca vi esses papéis na minha vida. Foi hoje [ontem] a primeira vez”, afirmou.

Questionado directamente sobre se tinha bebido no dia do acidente, João Salgueiro admitiu que sim. “Almocei e bebi o que, julgo, qualquer pessoa normal bebe ao almoço. As pessoas que seguiam atrás de mim na altura do acidente afirmaram que me tinha baixado para apanhar o telemóvel ou qualquer coisa. Não me lembro bem”. O embaixador nega também ter qualquer relação com o comandante da BT de Albufeira. “Não o conheço, nem sequer sei quem é”, sublinhou.
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