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Correio da Manhã

Portugal
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COMBOIO FAZ TRÊS VÍTIMAS

Um professor e duas investigadoras da Universidade do Algarve (UAL) morreram ontem quando a viatura em que seguiam foi colhida, cerca das 13h00, por um comboio que seguia em direcção a Vila Real de Santo António, numa passagem-de-nível sem guarda da linha do Algarve, na zona de Bias do Sul, entre Olhão e Fuzeta.
19 de Junho de 2003 às 00:00
Nesta passagem-de-nível da linha do Algarve, em Bias do Sul, já ocorreram mais acidentes mortais
Nesta passagem-de-nível da linha do Algarve, em Bias do Sul, já ocorreram mais acidentes mortais FOTO: Mira
As duas investigadoras, ambas irlandesas - Aisling O'Loughlin e Paula O'Neill, de cerca de 50 anos, que integravam o programa de intercâmbio Erasmus - tiveram morte imediata. O docente, da Faculdade de Ciências dos Mar e do Ambiente, Martin Sprung, de 49 anos, de nacionalidade alemã, que conduzia a viatura, acabaria por falecer já no Hospital Distrital de Faro, para onde foi transportado em estado "muito crítico" pelos Bombeiros Municipais de Olhão (BMO).
Dois outros alunos - César Gavaia de 25 anos, da UAL e Telma Coelho, de 27 anos, bolseira - ficaram feridos, encontrando-se o primeiro em "estado grave". Quatro dos sinistrados foram transportados pela Cruz Vermelha para o HDF.
João Nogueira, 2.o comandante dos BMO, confirmou ao CM a ligação das vítimas à Universidade do Algarve, tendo adiantado que "o grupo vinha do mar para a terra, devia ter ido recolher amostras à Ria Formosa, até porque junto ao carro estavam um barco insuflável e dois baldes".
O mesmo responsável esclareceu que o acidente se deu numa zona de escassa visibilidade: "A passagem- -de- nível está situada junto ao apeadeiro de Bias, desactivado há alguns anos, e dá acesso a uma zona de salinas. O caminho é um acesso dos viveiristas à Ria Formosa e está cheio de canas, que impedem que se veja a linha. Aliás, esta só se vê bem quando já se está em cima dela. Eu, quando ali passo, peço sempre a quem me acompanha para sair do carro e ver se lá vem o comboio."
Com a força do impacto (o comboio circula naquela zona de recta a uma velocidade bastante elevada, de cerca de 120 km/hora), a viatura ficou partida em duas e foi atirada para fora da via férrea.
Quanto às vítimas, à excepção do condutor, foram todas projectadas do carro. De acordo com aquele mesmo responsável dos Bombeiros de Olhão, não chegou a ser necessário utilizar material de desencarceramento. "Acredito que o motorista nem tenha visto o carro, devido ao canavial", adiantou João Nogueira, recordando que no mesmo sítio "já ocorreram mais acidentes mortais".
MOMENTOS DE AFLIÇÃO VIVIDOS
“Ai, o meu professor. Veja lá se me ajuda a encontrar os meus óculos, que não vejo nada” – as palavras são de Telma Correia, a única vítima do acidente de ontem, ocorrido na Linha do Algarve, que escapou apenas com ferimentos ligeiros, embora se queixasse de um braço e da coluna.
Apesar do seu estado, a jovem conseguiu pedir ajuda, pelo telemóvel. Uma moradora da zona, Lucília Soares, de 67 anos – a primeira pessoa a chegar ao local do sinistro – relatou ao CM que “o carro estava partido ao meio, só com o condutor dentro, com a cabeça e um braço de fora. No chão estavam dois corpos sem vida e, ali perto, um homem muito agitado mas que depois acalmou, sem contudo ter chegado a abrir os olhos ou falar. Foi uma aflição.”
“Passada uma meia hora, começaram a chegar os socorros. Eu estava a sentir-me mal e fui para casa”, adiantou Lucília Soares.
“Isto é uma recta mas não se vê nada e aqui já morreram mais pessoas, como o Pisco, que era desta zona e também foi apanhado pelo comboio”, recordou ainda.
INSEGURANÇA
A Rede Ferroviária Nacional - Refer revelou esta semana que só no ano passado se registaram 113 acidentes em passagens-de-nível, responsáveis por 33 mortes, 25 feridos graves e 32 ligeiros. Segundo dados dos últimos cinco anos, 67% dos acidentes ocorreram em passagens-de-nível sem guarda, 23% em passagens automáticas, 7% em passagens com guarda e 3% em particulares.
A REFER tenciona este ano suprimir 220 passagens-de-nível e construir 20 desniveladas. Em Portugal há actualmente 1922 passagens-de-nível, na sua maioria em zonas rurais e sem guarda. Os últimos acidentes em passagens de nível ocorreram em Lisboa (2 de Outubro), Setúbal (7 de Setembro), Faro (25 de Dezembro), Barcelos (9 de Janeiro) e Lagos, na Meia Praia, já este ano.
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