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Correio da Manhã

Portugal
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Comunistas participaram na recepção a Dalai Lama

Jaime Gama, presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado português, só atrás de Cavaco Silva, recebeu ontem à tarde o XVI Dalai Lama, Tenzyn Gyatso, que se deslocou à Assembleia da República.
14 de Setembro de 2007 às 00:00
Jaime Gama esteve mais de uma hora com o líder tibetano e trocaram presentes
Jaime Gama esteve mais de uma hora com o líder tibetano e trocaram presentes FOTO: Andre Kosters/Lusa
Numa audiência de mais de uma hora e em que, segundo fonte do gabinete de Jaime Gama, o também Nobel da Paz de 1989 foi recebido “na qualidade de Dalai Lama”, líder religioso, os dois trocaram presentes e não prestaram declarações no final do encontro. O Dalai Lama, líder espiritual, mas também símbolo da aspiração tibetana à autodeterminação e resistência à ocupação chinesa, ofereceu a Jaime Gama um lenço branco de seda, ‘katak’, tradição budista de saudação e respeito. Jaime Gama devolveu a cortesia com várias ofertas, incluindo um livro sobre portugueses no Tibete, com um relato do padre jesuíta António de Andrade, um dos primeiros ocidentais naquela região dos Himalaias.
Após o encontro com Jaime Gama, o Dalai Lama esteve com deputados da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros, num encontro que mais uma vez se prolongou por mais de uma hora.
Ao contrário da audiência com o presidente da Assembleia da República, o Dalai Lama admitiu à Comunicação Social ter abordado o tema do Tibete. “Falo sempre desse assunto”, afirmou, acrescentando: “Há temas de que falo sempre, como a compreensão, a harmonia e o Tibete.”
Reconhecendo ser um adepto da “autonomia”, o Dalai Lama sublinhou, porém, que pode ser bom para o Tibete e respectiva “modernização” manter uma ligação aprofundada com um país de maior dimensão e mais avançado, como é o caso da China.
Confrontado com a inédita presença de representantes do PCP, o Nobel da Paz afirmou, com a franqueza que o caracteriza, que isso “é bom” e acrescentou que “muitos tibetanos pró-liberdade são comunistas” e que ele também o é.
Por seu lado, Jorge Machado, deputado comunista, explicou que “o PCP aceitou receber o Dalai Lama na Comissão de Negócios Estrangeiros a pedido do próprio e na qualidade de líder religioso”. Confrontado com a ausência do PCP na audiência de 2001 e com as recentes declarações do seu secretário-geral, Jerónimo de Sousa, a defender a não recepção oficial ao Dalai Lama, dado os laços diplomáticos com a China, Jorge Machado recusou fazer qualquer comentário.
Hélder Amaral, do CDS, e Helena Pinto, do Bloco de Esquerda, criticaram o Governo por secundarizar os Direitos Humanos, considerando o primeiro que “o Parlamento deve estar sempre disponível para um Nobel da Paz” e a segunda que “o Governo deveria ter arranjado disponibilidade para o receber”.
NEGRÃO APONTA DEDO A CAVACO
Falando em nome da bancada parlamentar do PSD, Fernando Negrão lamentou que o Governo “tenha colocado a ‘realpolitik’ à frente dos Direitos Humanos”, defendendo que “todos os órgãos de soberania deveriam, como a Assembleia da República, ter recebido o Dalai Lama”. Questionado sobre se estaria a referir-se ao Presidente da República, o também vereador sem pelouro da Câmara de Lisboa escusou-se a confirmar, afirmando “não ter elementos sobre a agenda do Presidente da República”. Negrão falou pelos sociais-democratas em vez de José Luís Arnaut, que é o presidente da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros.
MAIS DE MIL OUVIRAM ENSINAMENTOS
Foi num palco improvisado e que recriava o ambiente de um templo budista, no Auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, que o Dalai Lama deu ontem início ao primeiro de três dias de ensinamentos em Portugal, perante uma plateia de mil a 1500 pessoas.
Sentado numa espécie de trono espiritual, as intervenções do Dalai Lama eram por vezes traduzidas em português (para os que não tinham acesso à tradução simultânea). Na assistência, eram muitos os que estavam sentados em almofadas, em posição de meditação, e frequentes as pessoas que andavam descalças, incluindo a recepcionista à entrada do edifício. Os cerca de milhar e meio de assistentes dividiam--se entre budistas praticantes e simples curiosos.
O XIV Dalai Lama lembrou a todos a dimensão espiritual do ser humano, para o qual “todos os seres vivos merecem compaixão” e explicou que a religiosidade passa pela “negação do egoísmo”, sem necessariamente renegar a existência de uma alma própria e independente.
Aos que admitem mudar de fé religiosa, o Nobel da Paz de 1989 aconselhou muito estudo e ponderação antes de o fazerem.
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