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Correio da Manhã

Portugal
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CONSTRUÇÃO DE CENTRO COMERCIAL SEM FISCAIS

As gentes de Santarém, incluindo os comerciantes, acusam as entidades responsáveis de não terem fiscalizado as obras de construção do centro comercial W Shopping, beneficiando os construtores com o cumprimento dos prazos de construção. Ao contrário do que se passa com as obras públicas que, essas sim, contam com o acompanhamento de arqueólogos, o que faz atrasar em muitos meses a conclusão dos trabalhos.
4 de Setembro de 2004 às 00:00
A estranheza da presença dos arqueólogos apenas em obras municipais naquela cidade – para substituição da rede de saneamento básico (águas residuais e pluviais) –, sem participarem nas obras de privados, é manifestada ao CM por várias pessoas. Entre elas está Paulo Moreira, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Santarém.
“Toda a gente estranha bastante que só sejam encontrados achados arqueológicos quando se estão a fazer obras públicas, o que já não aconteceu na construção do W Shopping, a poucos metros de distância, onde não esteve um arqueólogo a acompanhar as obras.”
Luís Romão, da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém, sublinha: “Não vimos um arqueólogo durante os meses de construção do centro comercial”.
Negligência? Interesses económicos? Dúvidas que passam pela mente dos habitantes de Santarém. E a prova que a ausência de especialistas foi e é “estranha” são os muitos achados arqueológicos desenterrados das terras onde foram feitos os alicerces do espaço comercial (ver texto em baixo). Transportadas em vários camiões, as terras dali retiradas foram despejadas no jardim de um munícipe. “Não quero acusar ninguém, mas a verdade é que as terras com os achados foram tiradas de lá”, afirma João Castro.
NINGUÉM SE ACUSA
Confrontado com estas acusações, o presidente da Câmara, Rui Barreiro, afirma: “não comento um problema que diz respeito ao meu antecessor, com o qual são conhecidas as minhas divergências”. E diz que “supostamente todas as intervenções deviam ser acompanhadas”.
Da empresa construtora, Imocom, não foi possível obter um esclarecimento, porque os “engenheiros estão de férias e só podem ser contactados se for um caso urgente”, afirmou a recepcionista. Até à hora do fecho, o CM não obteve esclarecimento do Instituto Português de Arqueologia. Da empresa gestora do centro, a MDC, a resposta foi esta: “não temos conhecimento desse assunto e não temos nada a ver com isso”.
TESOURO PRIVADO RECUPERADO
Fivelas de cinto medievais, anéis, moedas, artefactos em cerâmica, ferro e bronze, peças raras, entre muitas outras preciosidades históricas, fazem parte do espólio arqueológico dos séculos XV e XVI e do período pré-histórico que se encontra na posse de João Castro, que aceitou as terras retiradas da área de construção do W Shopping para terraplenar o jardim. “A maioria destes achados são do século XV e XVI, mas aqueles que receberam terras mais profundas, por certo ficaram com peças anteriores a este período”.
Este “aprendiz de arqueologia”, como se define, leva a paixão muito a sério. Tanto que fala com entusiasmo, usando um vocabulário técnico e ilustrando os seus conhecimentos, entretanto adquiridos, com livros especializados, documentos, mapas e ilustrações.
Procurou e rodeou-se de arqueólogos conceituados que o ajudaram na descoberta deste novo mundo com mais de cinco séculos de história, que conta a passagem dos romanos e dos islâmicos por terras de Santarém. Mas não só, também dos fenícios, que nos finais da Idade do Ferro, século V a.C., por ali terão passado. A fivela de cinto em forma de T, em bronze ou em ferro, que teria sido usada por cavaleiros, “tem alguma raridade”.
Mas há muito mais: aplicações dos arreios, anel com pontilhado visigótico, moedas (mais de 70) de diversos reinados, desde o real de três libras e meia da época de D. João I, passando pela numisma de D. Duarte, D. Afonso V, D. João II até à moeda que circulava de mão em mão no reinado de D. Sebastião. Nessa altura era o ceitil.
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