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Correio da Manhã

Portugal
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Contra-fogo abre guerra no socorro

As restrições da lei ao uso de contra-fogos no combate a incêndios florestais poderão incendiar as relações no teatro de operações entre bombeiros e Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR.

1 de Junho de 2009 às 00:30
Contra-fogo abre guerra no socorro
Contra-fogo abre guerra no socorro

Os comandantes operacionais encaram o contra-fogo, ou fogo de supressão, como "arma poderosa" para travar a progressão das chamas. Só que as regras foram alteradas este ano. Para se utilizar esta técnica é necessária autorização superior e exigida presença, sempre que possível, de um técnico da Autoridade Florestal Nacional. Se os bombeiros agirem de imediato, com base no que aprenderam na Escola Nacional de Bombeiros, arriscam-se a responsabilidade criminal. Isto porque, embora estejam em campo para ajudar a combater as chamas, os militares do GIPS da GNR pertencem a uma força policial e têm o dever de fazer cumprir a lei.

"O contra-fogo é uma medida com muitas restrições e nós, enquanto órgão de polícia criminal, temos de as fazer cumprir. Ninguém está acima da lei", alerta o capitão Marco Cruz, da Unidade de Intervenção da GNR. Os bombeiros, por seu lado, falam em "interpretação excessiva da lei. "Se ninguém usa o contra-fogo sem avaliação prévia das condições no terreno, não faz sentido que esta prática não seja reconhecida aos bombeiros", diz ao CM José Campos, coordenador do Conselho Nacional Operacional da Liga de Bombeiros Portugueses.

Para mais, acrescenta, o GIPS foi constituído para ajudar a combater os fogos e não para fiscalizar combatentes: "Devem ser uma mais-valia para o combate e não uns espiões do trabalho dos bombeiros." No meio da polémica, o secretário de Estado da Protecção Civil, José Miguel Medeiros, fala em "tempestade num copo de água. As novas regras servem de "medidas cautelares para os comandantes". "Não podíamos deixar a utilização do contra-fogo ao livre arbítrio de cada um."

"FALTA MODELO PARA FINANCIAR CORPORAÇÕES"

"Os bombeiros vivem momentos muito complicados, dada a conjuntura de grandes dificuldades financeiras ao nível nacional", diz ao CM Duarte Caldeira, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP). E considera não fazer sentido que se continue "a adiar a definição de um modelo de financiamento destas instituições, nas quais se alicerça o socorro à população". Os bombeiros "precisam de financiamento estável e devidamente identificado".

Já o secretário de Estado da Protecção Civil, José Miguel Medeiros, diz ao CM que "nunca as contas com os bombeiros estiveram tão em dia como agora". O actual modelo é transitório e "tem dado bons resultados", mas só pode passar a definitivo depois de encontrado um sistema de contabilidade comum a todas as corporações, explica o governante.

"VAMOS TER UM VERÃO DIFÍCIL" EM INCÊNDIOS

As estatísticas dos fogos e o estado actual das matas portuguesas fazem adivinhar um Verão difícil para os bombeiros. A vegetação atingiu o ponto ideal para a propagação dos incêndios e arde mais em ano de eleições. Entre 1980 e 2007 realizaram-se sete eleições autárquicas. E o número de fogos aumentou nesses períodos 6,68 por cento face à média de anos sem escrutínios. Em ano de Legislativas, verificou-se mais 16,8 % de área devastada. Perante estes dados, até o secretário de Estado das Florestas, Ascenso Simões, já admitiu: "Vamos ter um Verão difícil" em matéria de incêndios florestais.

PORMENORES

CHAMAR EM SAFINS

As chamas lavraram ontem durante mais de oito horas numa zona de floresta em Safins, Sever do Vouga. No local estavam, à noite, mais de cem bombeiros e 27 veículos. Dois helicópteros pesados Kamov também combatiam o fogo.

INCÊNDIO EM ARMAZÉM

Um armazém com aparas de cortiça foi ontem consumido pelas chamas na Charneca da Caparica. O fogo alastrou para o mato e foi combatido por 21 bombeiros de cinco corporações.

MODO DE ACTUAÇÃO NO CONTRA-FOGO

Técnica para travar a progressão das chamas tem riscos mas, considerada eficaz, é utilizada desde sempre no combate aos incêndios florestais. A lei passou a impor restrições e a GNR promete fiscalização apertada ao trabalho dos bombeiros. 

1. O fogo é ateado, por norma, numa estrada ou travessia florestal para travar a porgressão das chamas

2. É definidaa orientação das chamas e ateado fogo no sentido oposto para que os dois focos se encontrem

3. Ao iniciarem o contra-fogo os bombeiros posicionam os meios de combate para ir fazendo o rescaldo no local onde atearam o incêndio

RISCOS

Os riscos desta técnica estão relacionados com eventuais alterações repentinas da orientação do vento

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