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Correio da Manhã

Portugal

Contradições de médicos no reinício de julgamento

A repetição do julgamento que tem no banco dos réus dois obstetras, que em 2002 trabalhavam no Hospital Amadora-Sintra, começou ontem nos Juízos Criminais de Lisboa, depois de em Maio de 2007 a juíza Conceição Oliveira ter pedido escusa.
1 de Maio de 2008 às 00:30
Francisco Madeira e Ana Cristina Costa respondem pela morte de um bebé em 2002
Francisco Madeira e Ana Cristina Costa respondem pela morte de um bebé em 2002 FOTO: Mariline Alves

Em causa está um parto ocorrido a 2 de Março de 2002, no qual o bebé nasceu morto. A Inspecção-Geral da Saúde concluiu que nasceu com o crânio esmagado devido à "má aplicação de fórceps e incompatibilidade feto-pélvica" e o Ministério Público acusou o médico Francisco Madeira de homicídio por negligência e Ana Cristina Costa de intervenção médica com violação da ‘legis artis’ (prática médica).

"Sinto-me desgastado, mas vou lutar até que seja feita Justiça", desabafou ao CM o pai do bebé, Lino Gonçalves.

Na primeira sessão, conduzida pelo juiz Nuno Filipe Coelho, a co-arguida Ana Cristina Costa contradisse os relatórios de enfermagem onde estão apontados todos os procedimentos clínicos. "Se a enfermeira escreveu, não fui eu que mandei" e "a enfermeira deve ter interpretado mal": estas foram as suas respostas quando confrontada com os autos do processo.

A parturiente Ana Gonçalves tinha 35 anos e era uma grávida de alto risco: havia perdido um bebé por malformação múltipla e tem uma filha com deficiências. Entrou no hospital pelas 03h00 da madrugada com ruptura da bolsa de águas e o seu bebé nasceu morto às 14h42.

FranciscoMadeira refutou ontem as acusações: "É impossível os fórceps tocarem na zona occipital [crânio] do bebé porque para entrarem no canal vaginal são encostadosàs bochechas", disse, salientando que o bebé estava em sofrimento há horas. "Vi a grávida às 14h30. Quando li o CTG [batimento cardíaco do feto] percebi que estávamos perante um CTG patológico".

A sessão foi pautada pelas contradições entre os arguidos. Ana Cristina Costa atribuiu o facto de o CTG revelar períodos longos de ausência de batimentos ou então ocorrência abaixo dos cem por minuto ou acima dos 160 ao "gel e à obesidade da mãe que faziam com que o eléctrodo se deslocasse", enquanto Francisco Madeira diz que um CTG patológico implicaria retirar imediatamente o bebé. Outra contradição prende-se com o facto de a médica ter administrado petidina (um opiáceo) à grávida e o médico dizer que aquele fármaco já não se usava ( recorre-se à epidural) por provocar depressão respiratória na mãe e no feto. O julgamento prossegue na segunda-feira.

OUTROS CASOS

LISBOA

Uma anestesista e uma enfermeira do Hospital Egas Moniz estão a ser julgadas por homicídio por negligência de um homem com 30 anos, que morreu asfixiado em Agosto de 2002, após ter sido operado a um quisto no pescoço.

LEIRIA

O Hospital de Santo André foi condenado a pagar uma indemnização de 37 500 euros a uma mulher que correu risco de vida por lhe terem deixado uma compressa no corpo após uma operação.

 

VISEU

Um cirurgião do Hospital de São Teotónio foi condenado a um ano de prisão, com pena suspensa por homicídio negligente.

 

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