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Correio da Manhã

Portugal
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CONTRAMÃO MATA TRÊS

Três pessoas morreram ontem de madrugada num acidente provocado por um veículo que terá circulado mais de 30 quilómetros em contramão na Auto-estrada Valença/ /Porto (A3). Depois de ter entrado correctamente em Santiago da Cruz, Famalicão, na direcção sul, um homem de 73 anos decidiu fazer inversão de marcha para norte.
22 de Setembro de 2003 às 00:00
Apesar dos alertas de automobilistas, a Brigada de Trânsito não conseguiu evitar o choque frontal entre dois automóveis em Vilar das Almas, quatro quilómetros a sul do nó de acesso em Anais, Ponte de Lima. Morreu o condutor do veículo transgressor, Herculano Antunes Fernandes, residente no concelho de Braga, assim como o empresário José Rodrigues Queirós, de 52 anos, e a mulher, Ana Aleixo, de 50 anos, que tinham acabado de entrar na A3 e que seguiam de Marrancos (Vila Verde) em direcção a Lisboa.
Os familiares das vítimas lamentam a manifestação de negligência na falta de medidas para evitar uma tragédia (nomeadamente encerrando os acessos) e prometem apurar responsabilidades, mas a Brisa - que até ao final do ano pretende instalar 150 câmaras de vigilâncias nas auto--estradas – garante que "foram tomadas as acções previstas nestas circunstâncias, em que a prioridade é ir ao encontro do infractor".
"Quanto ao encerramento de nós de acesso, só a GNR tem autoridade para esse tipo de iniciativas", precisou ainda Franco Caruso, porta-voz da Brisa. Por seu turno, a BT de Ponte de Lima remeteu qualquer explicação sobre o caso para o Comando Geral, que só hoje se irá pronunciar.
Fonte policial adiantou, entretanto, que automobilistas terão feito "duas ou três chamadas" alertando para a circulação de um veículo em contramão nas zonas de Santiago da Cruz (Famalicão) e Celeirós (Braga). Assegurou que os agentes da BT de Ponte de Lima - cujo posto se situa a 14 kms do local de acidente - ficaram a escassos segundos de se antecipar ao choque fatal, que terá ocorrido quando um BMW 320i ia iniciar uma manobra de ultrapassagem e deparou de frente com uma carrinha Toyota.
“Tentou-se travar imediatamente o transgressor, mas na auto-estrada as coisas acontecem muito depressa e, de madrugada, aqueles eram os meios disponíveis”, disse a mesma fonte, acrescentando que Herculano Fernandes, um ex-bancário reformado e que se dedicaria à venda ocasional de brinquedos, terá tomado no nó da Cruz a direcção a sul, quando pretendia ir para Norte, provavelmente para as Festas Novas de Ponte de Lima.
Além dos três mortos, o embate provocou ferimentos num terceiro ocupante do BMW, João Aleixo, de 85 anos, que acompanhava o casal Queirós em direcção ao aeroporto de Lisboa, onde ontem chegou a mãe de Ana Aleixo, vinda do Canadá.
ENTRADAS MANTIDAS ABERTAS DEIXAM FAMILIARES REVOLTADOS
As mortes do casal José Queirós e Ana Aleixo provocaram um ambiente de grande pesar em Marrancos, Vila Verde, onde ambos - com três filhos de maior idade - são recordados como "boas pessoas, muito serenos, calmos e amigos de ajudar os outros". Muitos populares deslocaram-se à casa das vítimas, expressando também "incompreensão" sobre o acidente, questionando sobre "como é possível alguém andar ao contrário na auto-estrada".
No entanto, a família Queirós não se mostrava revoltada com o condutor que provocou o acidente, pois não considera que o condutor do Toyota se quisesse suicidar ou tivesse intenção de cometer um crime.
“Deve ter sido algum momento de senilidade e resolveu fazer inversão de marcha. O problema é, sabendo-se que havia alguém em contramão, porque não fecharam as entradas, nem actuaram imediatamente, permitindo que alguém fizesse tantos quilómetros naquela marcha", lamentou Manuel Queirós, presidente da Junta de Marrancos e também sócio do irmão José Queirós na empresa de construção civil 'SIQ'.
Frisando “a dor” provocada por duas mortes resultantes de um sinistro “completamente despropositado e estranhíssimo”, Manuel Queirós referiu que o irmão e a cunhada "tinham ido a um casamento em Esposende e teria sido melhor irem pelo IC1”, acrescentando: “Mas o meu irmão preferiu vir a casa, porque é aqui que está a família dele."
PENA MÁXIMA NA ESTRADA
Vinte e cinco anos de cadeia. O condutor que decidiu meter-se com o carro em contramão no IC1, em Março do ano passado, e com isso provocar quatro mortes, foi condenado à pena máxima pelo Tribunal de Vila do Conde. O facto de estar embriagado e de ter sofrido ferimentos graves não foi suficiente para sensibilizar os juízes.
No final da leitura do acórdão, a 29 de Abril deste ano, colegas de três vítimas, Ricardo Soares, Tânia Brazão e Raquel Pereira, estudantes universitários, aplaudiram de pé a decisão dos juízes. No exterior do tribunal, estenderam as capas e batinas, como uma passadeira, em sinal de respeito pelos familiares e pelos próprios magistrados.
Luís Filipe Soares, 25 anos, técnico de telecomunicações, residente em Gaia, foi punido por quatro homicídios, outro na forma tentada e por mais três crimes de dano qualificado. Ouviu a sentença sem expressar qualquer emoção e depois afirmou estar "extremamente arrependido".
O jovem, com uma taxa 2,89 gr/l, entrou na madrugada de 30 de Março de 2002 em contramão no nó de Mindelo, sentido Póvoa-Porto, ao volante de um Nissan Terrano. O jipe embateu a alta velocidade num VW Golf, onde seguiam os três estudantes. A quarta vítima mortal foi um motociclista que se despistou contra os 'rails'.
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