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Correio da Manhã

Portugal
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CORAÇÃO BATE À DIREITA

Chama-se Maria dos Anjos, mas os médicos que a tratam chamam-lhe ‘Mulher do Coração Vadio’, por ter o coração do lado direito, um dado que, segundo as entidades de saúde, não é inédito, mas que é raro encontrar-se. Maria dos Anjos, porém, não se limita a ter o coração do lado inverso. Todos os órgãos do seu corpo estão ao contrário. Esta “anomalia” é denominada “Sitos Inversos”.
4 de Outubro de 2004 às 00:00
Segundo Adelino Correia, chefe de cardiologia do Hospital de S. Marcos, em Braga, e médico assistente de Maria dos Anjos, este tipo de “anormalidade” não é tão invulgar como se pode pensar.
“Tudo acontece durante a gestação e em pleno desenvolvimento do feto, existe uma altura em que os órgãos devem fazer uma rotação. Caso essa rotação não aconteça a pessoa fica com os órgãos ao contrário”, elucidou.
O CM foi encontrar Maria dos Anjos, 67 anos, em Vilar de Perdizes, concelho de Montalegre, onde se desloca com regularidade para comprar ervas e plantas medicinais. “Preciso destas ervas porque sofro do coração, não porque tenho o coração a bater do lado contrário”.
“ODISSEIA”
Segundo contou, tomou conhecimento de que tinha o coração do lado direito quando tinha 16 anos. Desde então, cada deslocação ao hospital vira odisseia: “Chegavam a juntar-se três médicos para me examinarem. Às vezes até sentia vergonha por ser assim. Um dia disseram-me que eu tinha de seguir para Lisboa, para ser vista por uns especialistas, mas quando cheguei a casa e comuniquei ao meu pai, ele disse-me logo: “Não minha filha, não vais. Diz aos doutores que os panos de amostras são só às terças-feiras, na feira”.
Maria dos Anjos casou-se, fez uma vida normal e foi mãe de três filhos “perfeitos e muito bonitos”, como faz questão de vincar. Tem residência em Paris, França, para onde emigrou há mais de 40 anos.
Em França, para poder legalizar-se, teve de sujeitar-se a uma junta médica.
“Os dois médicos que me examinaram realizaram os exames do lado esquerdo e, a certa altura, começaram a olhar um para o outro e disseram: “o que se passa com esta madame?”.
Maria dos Anjos traz agora consigo um documento do hospital de Paris sobre a localização dos seus órgãos. “Com esse documento, os clínicos sabem como devem fazer o seu trabalho”.
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