Coração trai Cónego Melo no Santuário de Fátima

A Igreja perdeu um grande obreiro e o País um grande patriota." Foi assim que D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo emérito de Braga, reagiu, em declarações ao CM, ao falecimento, ontem de madrugada, do monsenhor cónego Eduardo de Melo Peixoto.
20.04.08
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Coração trai Cónego Melo no Santuário de Fátima
Horas antes de falecer, o religioso participou numa cerimónia do Instituto Superior do Alto Ave Foto João Abreu Miranda / Lusa

Com 80 anos e 57 de sacerdócio, o Cónego Melo, como era conhecido, foi encontrado sem vida ontem de manhã, num quarto da Casa de Nossa Senhora do Carmo, em Fátima, caído entre a cama e a casa de banho, ainda vestido e com o pijama no braço, o que indicia que estaria a preparar-se para dormir.

O médico que declarou o óbito disse à família que a morte terá ocorrido, provavelmente por paragem cardíaca, entre as 03h30 e as 04h00, hora a que se costumava deitar.

"Jantou e esteve animado até às 00h30, quando recolheu aos aposentos", disse ao CM Abílio Vilaça, tesoureiro da Irmandade de S. Bento, a que o Cónego Melo presidia.

O CM apurou, no entanto, que na terça-feira ele se teria queixado de mal-estar, tendo marcado uma série "muito vasta" de exames médicos, que tencionava fazer amanhã.

O Cónego Narciso Carneiro Fernandes, seu amigo, confirmou a "ligeira indisposição de terça-feira", mas sublinhou que "ele estava com aparente boa saúde e nada fazia crer que algo grave pudesse ocorrer".

Na sexta-feira, discursou na cerimónia do sexto aniversário do Instituto Superior do Alto Ave, onde leccionava, seguindo para Fátima.

Eduardo de Melo Peixoto foi uma das figuras mais marcantes da Igreja portuguesa na segunda metade do século XX. Ordenado padre com 23 anos, em 1951, revelou-se em 1962, ao fundar os Cursos de Cristandade. Foi nomeado Cónego da Sé de Braga em 1972 pelo então arcebispo D. Francisco Maria da Silva e distinguido como monsenhor em 1996 por João Paulo II. Foi feito comendador por Mário Soares e serviu quatro arcebispos e seis papas.

Além das inúmeras instituições de que fez parte, da ligação ao Sporting de Braga, do restauro da Sé, das comendas que recebeu, das homenagens de que foi alvo, a sua vida foi marcada pela luta contra o comunismo no ‘Verão Quente’ de 1975 e pela acusação de autoria moral do atentado à bomba contra o padre Max e a estudante Maria de Lurdes. Foi absolvido em 1992.

O seu corpo está no Instituto de Medicina Legal de Tomar, devendo partir amanhã para a Sé de Braga. O funeral deve ser amanhã à tarde.

DISTINGUIDO PELO PAPA JOÃO PAULO II

Eduardo de Melo Peixoto nasceu a 30 de Outubro de 1927 na freguesia de S. Lázaro, em Braga. Foi ordenado padre em 1951 e fundou os Cursos de Cristandade em 1962. Foi capelão militar, em Braga e na Índia portuguesa, e nomeado Cónego da Sé de Braga em 1972. Doutorado em Direito Canónico pela Pontifícia Universidade de Salamanca, foi vinte anos juiz do Tribunal Eclesiástico de Braga, deão da Catedral durante década e meia e por mais de 12 anos vigário-geral da arquidiocese de Braga. Foi feito comendador da Ordem de Mérito por Mário Soares e recebeu a medalha de honra da cidade de Braga. Membro da Academia Portuguesa de História e fundador da Turel, cooperativa de turismo religioso, foi distinguido como prelado de honra (monsenhor) por João Paulo II. Há cinco anos, um grupo de amigos quis erigir--lhe uma estátua emBraga, mas a polémica levou a que fosse guardada nos armazéns de uma empresa da cidade.

REACÇÕES

"FOI GRANDE EM TODA A SUA VIDA" D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga

"É sempre difícil em poucas palavras sintetizar a vida de alguém que foi grande durante toda a sua vida. Sempre o vi como um homem apaixonado pelas suas causas, que se sacrificava ao ponto de deixar as exigências humanas mais naturais para corresponder aos apelos. Tinha um coração sensível e de igual modo se entregava a todos. Nunca fechou a porta a ninguém."  

"FOI ENXOVALHADO POR UM PROCESSO" D. Eurico Dias Nogueira, Arcebispo

"Foi para mim um grande choque a notícia da morte do monsenhor Melo. Era um homem de grande coração, trabalhador incansável e, como sabem, foi meu braço direito na arquidiocese. Foi enxovalhado por um processo sem pés nem cabeça e injustamente acusado das maiores enormidades. Devo dizer que a Igreja perdeu um grande obreiro e o País um grande patriota."

"NINGUÉM LHE ERA INDIFERENTE" Mesquita Machado, Pres. Câm. Braga

 "O meu sentimento é de enorme tristeza, já que fui amigo do Cónego Melo ao longo de quase 40 anos. Foi um grande homem da Igreja, uma figura marcante a quem ninguém era indiferente, mas foi também um homem notável no trabalho em prol da sociedade civil. Participou em inúmeras associações, incluindo o Sporting de Braga, pelo qual sempre lutou. Foi um grande bracarense e um grande patriota".

"NUNCA FECHOU A PORTA A NINGUÉM" Narciso C. Fernandes, Cónego da Sé

"O meu sentimento é de enorme tristeza, já que fui amigo do Cónego Melo ao longo de quase 40 anos. Foi um grande homem da Igreja, uma figura marcante a quem ninguém era indiferente, mas foi também um homem notável no trabalho em prol da sociedade civil. Participou em inúmeras associações, incluindo o Sporting de Braga, pelo qual sempre lutou. Foi um grande bracarense e um grande patriota".

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