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Correio da Manhã

Portugal
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CORPO CAI DO CÉU NA CAPARICA

Fernando Sequeira, de 85 anos, levantou-se ontem e foi regar as flores que rodeiam a casa da sua pequena horta, em Areeiro, perto da Charneca de Caparica, Almada. Uma rotina de todos os dias que foi quebrada com uma macabra descoberta.
19 de Maio de 2004 às 00:00
Como não havia pressão da água, foi ao poço ver o que se passava. Descobriu que o cano fora partido pela queda do corpo de um indivíduo africano. Uma queda do nada. Uma queda do céu.
O facto é que um indivíduo do sexo masculino, entre os 20 e os 30 anos, africano, sem documentos, bem constituído, caiu de grande altura, numa zona plana, partindo o cano da água, em plástico, uma viga de cimento armado de 15 por dez centímetros (de uma latada) e ainda as ramadas de uma laranjeira. O golpe amputou junto à virilha a perna esquerda do homem e fracturou-lhe o crânio.
“Durante a noite, os cães ladram por tudo e por nada, desde os gatos até aos meus inquilinos quando chegam tarde, pelo que não sei dizer se ladraram com isto”, disse Fernando Sequeira ao CM.
A PJ, que tomou conta da ocorrência, admite todos os cenários: desde homicídio com encenação de um acidente; homicídio com o lançamento do indivíduo desde uma aeronave; até ao simples acidente.
No entanto, a última hipótese é mais credível. A teoria do homicídio com encenação torna-se pouco consistente: o corpo estava junto ao muro traseiro da quinta, que é fechada, e que dá para um descampado, num desnível de mais de dois metros. A hipótese do lançamento da aeronave tem a fragilidade de ter de ser um aparelho com capacidade de voo nocturno, o que é pouco comum em Portugal e seria facilmente detectável pelo radar.
Resta a hipótese de acidente, como aconteceu em Dezembro do ano passado no Aeroporto de Nova Iorque. Isto é, um passageiro clandestino que se tenha refugiado no compartimento do trem de aterragem e que poderá ter morrido por hipotermia ou ter-se desequilibrado quando o trem baixou.
Esta tese é reforçada por vários factores: a zona é sobrevoada pelos aviões comerciais que aterram no Aeroporto da Portela com vento de Norte, como ontem; é uma zona onde muitos aviões baixam os trens de aterragem e na madrugada de ontem houve pelo menos quatro voos comerciais oriundos de África.
APROXIMAÇÃO AO AEROPORTO
A estrada que liga o Monte de Caparica à Trafaria coincide com a rota determinada da aproximação à pista 03 do Aeroporto da Portela, em Lisboa, a pista utilizada quando o vento sopra do quadrante Norte. A informação foi confirmada ao CM por uma fonte na NAV Portugal, a empresa de navegação aérea. Quando a aproximação se faz pelo Sul, as aeronaves são obrigadas a contornar o rádio-farol (um emissor fixo que emite um sinal contínuo em várias direcções) e sobrevoam a zona da Caparica a uma altitude aproximada de 3000 pés (cerca de 1000 metros), já alinhadas com a pista 03 da Portela.
“Nessa fase, não é normal que o trem de aterragem já esteja aberto. Essa operação, por regra, executa-se ao sobrevoar a Ponte 25 de Abril. No entanto, também não será nada de extraordinário se isso suceder”, referiu a mesma fonte.
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