Ao longo de séculos, era a compra de campas e jazigos nos cemitérios que fazia parte das opções daqueles que planeavam, deixando inclusive escrito em testamento, o destino a dar ao seu corpo após a morte. Hoje, pelo menos cinco por cento dos portugueses declara como última vontade “ser cremado”.
Trata-se, sem dúvida, de uma significativa mudança sociológica, que explica o facto de as cremações, em Portugal, terem duplicado em apenas três anos.
Ao que o CM apurou, em 2004 realizaram-se nos quatro fornos crematórios existentes no País 2564 incinerações de cadáveres, contra as 5393 realizadas no ano passado.
De resto, o crescimento do número de cremações tem sido superior a 20 por cento ao ano. Basta referir que em 2007 houve mais 875 queimas de corpos do que em 2006.
Para este crescimento invulgar de uma nova forma de fazer o homem “voltar ao pó”, muito contribuiu a mudança de atitude da Igreja Católica que há cerca de década e meia declarou oficialmente que a cremação merecia a mesma aceitação do que a inumação (enterro tradicional nos cemitérios).
No entanto, apesar da norma em vigor, muitos padres e bispos defendiam a inumação como a forma “mais cristã” de dar fim ao corpo. É que a última das Obras de Misericórdia corporais fala, textualmente, em “enterrar os mortos”. Acontece que essas obrigações católicas constam do Catecismo há mais de dois séculos e, como a própria Igreja sublinha, “hoje os tempos são outros”.
“Em termos teológicos não existe qualquer objecção à cremação. Trata-se de uma forma de pôr fim à nossa parte material tão digna como a inumação. Para a Igreja, ambas são plenamente aceites”, disse ao CM D. Manuel Clemente, bispo do Porto, cidade onde funciona um dos quatro fornos crematórios existentes em Portugal.
Neste, no Cemitério do Prado do Repouso, foram realizadas no ano passado 852 cremações, mais 215 do que no ano anterior. Aliás, apesar de estar ainda muito longe dos números registados nos dois crematórios de Lisboa (Alto de S. João e Olivais), foi no Porto que, em termos percentuais, o crescimento de 2006 para 2007 foi mais acentuado: 33 por cento, contra 20 por cento no total nacional.
Em Lisboa, as cremações passaram de 3570 em 2006 para 4210 em 2007, mais 640, o que significa um crescimento de 18 por cento. Já quanto a Ferreira do Alentejo, o único forno crematório nacional fora de Lisboa e Porto, realizaram-se no ano passado apenas mais 57 cremações do que em 2006: passou-se de 312 para 369.
Apesar de não haver quaisquer estudos nesta área, tudo aponta para que as cremações continuem a aumentar significativamente em Portugal, podendo chegar às dez mil até 2010.
MAIS SEIS SERÃO CONSTRUÍDOS
Os projectos existem, mas tardam em concretizar-se. No entanto, tudo indica que, a curto prazo, venham a ser construídos mais dois fornos crematório em Lisboa: um em Carnide e outro no Lumiar. Aguarda-se também a construção de um crematório no novo cemitério de Guimarães, projectado logo no início, em 2004, e de outro no Cemitério Municipal de Monte de Arcos, em Braga. Também no Porto está prevista a construção de mais uma estrutura crematória, só não se sabe se no Prado do Repouso ou em Agramonte. De resto, também a Câmara de Faro já demonstrou intenção de avançar com a construção de um crematório na capital do distrito. Ao todo há seis crematórios em projecto, mas apenas quatro a funcionar. O primeiro crematório de Portugal, no Alto de S. João, em Lisboa, foi construído em 1912, mas estreado apenas em 1925. A actividade foi suspensa em 1936, em parte por pressão da comunidade hindu, e a Câmara Municipal de Lisboa reactivou-o em meados de 1985.
BENEMÉRITO FOI O PRIMEIRO
Mariano Feio foi o benemérito que ofereceu o único crematório numa localidade fora das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Em Ferreira do Alentejo, já são feitas por ano cerca de três centenas de cremações. A estrutura existe desde 1998, mas o vazio legal existente sobre a matéria à data da sua construção fez com que o forno crematório só entrasse em funcionamento em Março de 2001, tendo sido o seu benemérito o primeiro a ser cremado. O investimento de Mariano Feio rondou os cem mil euros, 20 mil contos na moeda antiga que ainda circulava quando o crematório foi construído. Nos dois últimos anos houve um aumento significativo de cremações, passando das 312 efectuadas em 2006, entre cadáveres e ossadas, para 369, até ao fim do ano de 2007.
2 horas é o período de tempo que é normalmente necessário para que um corpo seja cremado. O forno atinge temperaturas elevadas, que podem variar entre os 760 e os 1150 graus.
1997 Até este ano, as regulamentações litúrgicas da Igreja Católica requeriam que a cremação só tivesse lugar depois de uma missa de corpo presente.
IDADE MÉDIA
Apesar de a Igreja Católica ter condenado a cremação durante muitos séculos, esta era tolerada quando havia excesso de corpos, devido à peste ou a batalhas.
CINZAS
Na realidade são fragmentos de osso que representam menos de quatro por cento da massa original dos restos mortais.
PRECAUÇÕES
Devem ser retiradas dos cadáveres placas de titânio e também pacemakers, visto que existe risco de explosão.
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