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Correio da Manhã

Portugal
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CRIANÇA CAI DO 3ª ANDAR

Uma menina de quatro anos caiu anteontem da sacada do terceiro andar de um prédio em Vila Verde, encontrando-se internada em estado “muito grave” nos cuidados intensivos do Hospital de S. João, no Porto. A criança estava em casa com mais cinco irmãos, com idades entre os 2 e os 12 anos.
21 de Agosto de 2004 às 00:00
O acidente culminou um conjunto de incidentes que têm motivado denúncias na Segurança Social e a revolta de populares.
Telma da Silva Rodrigues sofreu politraumatismo craniano e escoriações abertas na testa e no rosto, depois de ter caído de uma altura de cerca de nove metros, na Rua Fausto Feio, no alcatrão. As crianças encontravam-se sozinhas em casa e a mãe só chegou ao local quando a vítima estava a ser já transportada pelos bombeiros, alertados pelos vizinhos, que insultaram a progenitora.
Segundo os populares, a mãe, de nome Cristina, não tem emprego e o pai das crianças trabalha na construção civil, em Espanha, apresentando-se em casa apenas ao fim-de-semana. “Ela só quer passeio e deixa os miúdos sozinhos em casa, muitas vezes cheios de fome”, desabafou ontem Amélia Silva, uma vizinha, ainda visivelmente a tremer, adiantando que provavelmente a menina terá ficado estatelada bastante tempo no chão, antes de ter sido dado o alerta.
“Uma senhora, que ia a sair de casa no carro, chegou ao meu estabelecimento e disse-me que viu uma coisa no chão que até lhe parecia um boneco. Fomos lá a correr e vimos então a menina deitada de bruços, já com sangue empastado”, descreveu Amélia Silva, acrescentando que, apesar do desespero, as pessoas seguiram as indicações dadas pelos bombeiros para não mexer na vítima.
Entre os populares multiplicavam-se as críticas aos pais e também à Segurança Social, lembrando as situações de abandono das crianças e acidentes ocorridos, que terão já motivado várias denúncias a diferentes autoridades, mas sem efeito.
“Façam alguma coisa por estas crianças. É um desespero total para uma mãe ver uma criança naquele estado”, pediu a vizinha Carla Amorim, que na mesma tarde da tragédia havia avisado os miúdos para terem cuidado, porque podiam cair da sacada, o que aconteceu pouco tempo depois.
Uma outra vizinha da mãe de Telma assegurou terem já sido testemunhadas várias situações de risco, incluindo perante a observação de técnicos da Segurança Social, através de uma casa com vista clara para o apartamento.
“É uma tristeza; há anos que tentamos fazer alguma coisa e não se consegue nada”, afirmou Carla Amorim, enquanto Amélia Silva vincou que até já ligou para os serviços distritais e Lisboa a explicar o assunto, em que fez saber da inactividade dos serviços em Vila Verde.
MOBILIZAÇÃO POPULAR AFUGENTA BOMBEIROS
Foram muitos os populares que acorreram ontem à patrulha e ao comandante do posto da GNR de Vila Verde a oferecerem-se para testemunhar no caso da queda da pequena Telma. “É pena que estes casos só se possam resolver quando acontece uma tragédia”, comentou uma vizinha, defendendo que “a Segurança Social já há muito tempo devia ter tirado as crianças a estes pais, porque motivos não faltam”. Em seu entender, “é pena que separem as crianças umas das outras, mas é o melhor que lhes pode acontecer”.
No entanto, a mobilização popular em torno do caso criou alguns problemas aos bombeiros. Perante a exaltação popular em torno da mãe de Telma, os voluntários que assistiram a vítima reconhecem que procuraram sair do local o mais rapidamente possível. “A confusão era de tal ordem, que nos pareceu muito prejudicial estender-nos ali nas acções preventivas, até porque o Centro de Saúde local é próximo. No entanto, depois recebemos a comunicação que estava a caminho a viatura de emergência médica do S. Marcos e fomos logo de encontro a eles”, adiantou fonte da corporação.
Segundo a mesma fonte, a criança encontrava-se inconsciente, com respiração e pulsação, lesões fechadas, hemorragias na cabeça e em estado de choque. Apesar do politraumatismo craniano, um exame preliminar revelou a inexistência de problemas graves ao nível da coluna cervical, face, tórax e dorso-lombar.
Após a imobilização da vítima, os bombeiros optaram por nem dar entrada no Centro de Saúde de Vila Verde e transportaram a criança directamente para o Hospital Central de S. Marcos, em Braga, tendo a meio do caminho contado com a acção da equipa da viatura de emergência médica da unidade bracarense, que procedeu ao controlo das hemorragias. Depois de assistida no S. Marcos, a pequena Telma foi transportada para o Hospital de S. João, no Porto, onde se mantém nos cuidados intensivos, em “estado muito grave”, segundo os médicos, que recusaram qualquer prognóstico.
VÁRIOS CASOS
INCÊNDIO
As situações de risco na casa da pequena Telma Rodrigues parecem ser inúmeras. Segundo os populares, os Bombeiros Voluntários já tiveram de apagar um fogo no apartamento, numa altura em que as crianças se encontravam sozinhas em casa. Mas, mais uma vez, nada foi feito para apurar responsabilidades.
PONTOS NA CABEÇA
“Já cheguei a levar uma das meninas ao Centro de Saúde, a sangrar da cabeça. Levou cinco pontos e a mãe nem vê-la”, revelou Amélia Silva, acrescentando que tanto o médico como a enfermeira que assistiram a irmã de Telma garantiram ter já conhecimento da situação de risco das crianças daquela família.
FOME
Segundo os populares, as crianças chegam a andar descalças pela rua, em pleno Inverno, e sem qualquer cuidado por parte dos pais. Amélia Silva revela que um dia, pelas 14h00, deparou com uma das meninas a pegar do chão um pacote de leite chocolatado e a tentar bebê-lo. “Ela disse-me que tinha fome, porque a mãe não estava em casa e ainda não tinha almoçado. Peguei nela e levei-a ao café”, contou.
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