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Correio da Manhã

Portugal

Criança de três anos abandonada na rua

Encostada numa esquina e com apenas uma t-shirt e fralda. Foi assim que foi encontrada na madrugada de ontem – numa altura em que os termómetros marcavam 15 graus – uma menina de três anos, abandonada junto ao Refúgio Aboim Ascensão, em Faro.

23 de Maio de 2009 às 00:30
A menor foi encontrada sozinha por uma estudante universitária junto ao Refúgio Aboim Ascensão, em Faro
A menor foi encontrada sozinha por uma estudante universitária junto ao Refúgio Aboim Ascensão, em Faro FOTO: Carlos Almeida

As autoridades suspeitam que o abandono tenha sido premeditado, tendo em conta a proximidade com a instituição de acolhimento. Poucas horas depois conseguiram identificar os pais, que alegaram que a criança saiu de casa sem ninguém se aperceber.

A criança, ao que o CM apurou, foi encontrada em plena rua por uma estudante universitária de 29 anos, que passava na zona. O relógio marcava as 04h50. A PSP foi imediatamente avisada e transportou-a ao Serviço de Pediatria do Hospital de Faro, onde foi observada e sujeita a vários exames. Foi enviada para o Refúgio Aboim Ascensão, onde foi acolhida e alimentada por técnicas da Emergência Infantil.

A criança 'tinha um aspecto de um total desleixo, com várias picadas no corpo e cheia de piolhos', referiu ao CM o director da instituição de acolhimento, Luís Villas-Boas. As técnicas da instituição levaram cerca de uma hora para dar um banho rigoroso à criança. 'Tinha muito sono e fome', segundo o dirigente, que entende que se tratou de um caso de 'negligência muito grave', que pode ser equiparado a maus tratos.

'Foi muito mal tratada porque foi abandonada violentamente na rua', entende Luís Villas-Boas. Os pais da criança, ao que o CM apurou junto de fonte policial, são um 'casal jovem de nacionalidade portuguesa e vivem com graves dificuldades económicas e sociais'. Moram junto ao local onde a criança foi encontrada e podem vir a ser acusados do crime de exposição ou abandono.

O processo foi entregue à Segurança Social e deverá seguir para o Tribunal de Família e Menores para decidir o futuro da criança. A criança ficou entregue aos cuidados do Refúgio Aboim Ascensão.

PORMENORES

AVALIAÇÃO CLÍNICA

A criança foi submetida a várias análises ao sangue e à urina para avaliar o estado de saúde.

ROUPA SUJA

A pouca roupa que a menina, de três anos, vestia estava suja. A menor evidenciava vários sinais de falta de higiene.

"NEGLIGÊNCIA GRAVE IGUAL A MAUS TRATOS A CRIANÇA" (Luís Villas-Boas, Director do Refúgio Aboim Ascensão)

Correio da Manhã - Como classifica o acto de deixar abandonada uma criança de três anos na via pública, como aconteceu em Faro na madrugada de ontem?

Luís Villas-Boas – É, sem dúvida, uma negligência muito grave quase comparável à prática de maus tratos. Considero que esta criança foi maltratada porque foi abandonada indefesa numa rua, onde correu perigos, ainda por cima por ter sido encontrada junto a uma estrada bastante movimentada.

- Como devem ser punidos os pais perante esta atitude?

– Qualquer acto que coloque em perigo crianças deve ser punido severamente para que as crianças possam ser livres para viver como merecem. Mas a decisão está dependente da Justiça.

- Tem aumentado o número de casos de abandono de crianças, em época de crise?

– Actualmente não há indicadores suficientes que nos possam dizer se aumentaram ou diminuíram os casos de abandono. Admito que pode vir a subir o número de situações mas não quero fazer prognósticos antecipados.

- Há muitos anos que defende a criação de uma rede nacional para responder aos casos de crianças a necessitar de cuidados emergentes. Porquê?

– Porque é preciso existir, em todo o País, uma rede que responda a situações inesperadas como a que aconteceu em Faro, com técnicos formados para Emergência Infantil. É extremamente necessário existirem psicólogos e terapeutas disponíveis 24 horas por dia para situações como esta.

- E como funcionaria?

– Deveria juntar instituições particulares de solidariedade social e Misericórdias para garantir a protecção, acolhimento e adopções de crianças em risco. Como já disse o padre Vítor Feitor Pinto, não basta dar uma roupinha e uma festinha.

- E está a avançar a proposta?

– Há dez anos que ando a lutar e a bater na mesma tecla mas, até ao momento, continuo a aguardar a sua implementação.

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