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Correio da Manhã

Portugal

CRIME ATINGE FAMÍLIAS DE LISBOA

Metade das famílias da Área Metropolitana de Lisboa sentiu de perto os efeitos da criminalidade em 2001, através de situações envolvendo directamente um dos seus membros ou por danos ao respectivo património. Em muitos casos, as vítimas optaram mesmo por tomar medidas de prevenção “redutoras da liberdade de circulação e da qualidade de vida”.
28 de Dezembro de 2002 às 00:00
A conclusão resulta de um estudo levado a cabo pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) sobre a prevenção do crime e a vitimação urbana, que foi apresentado ontem, no Governo Civil de Lisboa.
Com base numa amostra de 1 190 dos mais de 700 mil agregados familiares da Grande Lisboa, entrevistados entre Maio e Julho deste ano, o estudo da APAV conclui que 49,5 por cento das famílias da Grande Lisboa sofreram actos de criminalidade no ano passado - praticados sobre os seus membros ou sobre o património - destacando-se os furtos de e em veículos, bem como danos nos mesmos.

Uma coisa é certa. São baixas as taxas de participação das ocorrências às autoridades competentes e frequente o desejo de os inquiridos verem a pena de prisão substituída por medidas punitivas alternativas para os prevaricadores. E muitos preferiam mesmo resolver os problemas por via extra-judicial.

A nível individual, o retrato do lisboeta não é dos mais animadores. Dois em cada dez já foram vítimas de crime e, por outro lado, dois em cada três têm “receio em passar ou passear na própria área de residência durante a noite”. Dos atingidos por actos criminosos, 40 por cento foram vítimas mais do que uma vez - sendo os crimes mais frequentes as injúrias ou insultos, os furtos de bens em locais públicos e os furtos por carteiristas.

Apesar de a maioria dos inquiridos ver no reforço do policiamento a solução para reduzir a criminalidade, são ainda mais os que se consideram “seguros” durante o dia na sua área de residência. Mesmo que a APAV destaque o crescimento de crimes mais violentos, como as ofensas corporais e sexuais. Isto a par de uma descida nos furtos de residência e dos roubos por esticão.

Os problemas, para a maioria dos lisboetas, chegam com a noite - que “continua a constituir-se como um tempo gerador de elevados sentimentos de medo e de insegurança”, diz o relatório. A análise das respostas recolhidas explica que esses sentimentos estão relacionados com a falta de policiamento, a má fama de alguns locais e a fraca iluminação.

Não é, por isso, de estranhar que a criminalidade seja uma das principais preocupações dos residentes da Área Metropolitana de Lisboa, a par da droga e da insegurança. Um outro dado aponta no sentido de a informação sobre criminalidade chegar ao lisboeta mais por conversa entre vizinhos do que por influência dos meios de Comunicação Social.

“Este estudo, mais do que mostrar a realidade, deve servir como ferramenta de trabalho para as entidades competentes, para todos os produtores de segurança, nos quais se incluem os tribunais”, referiu o presidente da APAV, Ferreira Antunes, sublinhando que está nos horizontes da associação a realização de um novo inquérito no próximo ano.

COMERCIANTES ESQUECEM AS INJÚRIAS

Mais de 80 por cento dos casos de injúrias a comerciantes da Grande Lisboa não são denunciados às autoridades. A pouca importância atribuída pelas vítimas e a sensação de que a Polícia pouco pode fazer são as razões que, de acordo com o estudo da APAV, levam os comerciantes a esquecer as ofensas. Mesmo que um quarto dos ofendidos admita conhecer os autores, de vista ou da vizinhança.

O mesmo não acontece nos casos de danos em estabelecimentos comerciais - a quase totalidade foi denunciada às autoridades e 44 por cento dos comerciantes afirmaram-se mesmo satisfeitos com o trabalho da Polícia.

Quase 40 por cento dos estabelecimentos da Área Metropolitana de Lisboa sofreram com o crime, a maior parte das vezes durante a tarde. Mais de 66 por cento admitiram ter ficado muito perturbado.

Metade dos comerciantes afirma que há mais criminalidade no seu bairro e 81 por cento garantem que o crime cresceu na Grande Lisboa. A principal forma de punição defendida pelos comerciantes para os prevaricadores é a realização de trabalho não remunerado a favor da comunidade.
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