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Correio da Manhã

Portugal
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CRISE NOS CEMITÉRIOS

A dois dias do fim-de-semana em que se assinala a festa de Todos os Santos e se lembram os Fiéis Defuntos (1 e 2 de Novembro, respectivamente), os vendedores de velas e flores queixam-se como nunca, afirmando que, "definitivamente, a a crise chegou aos cemitérios".
29 de Outubro de 2003 às 00:00
Todos os anos, na época dos Fiéis Defuntos, mais de três milhões de pessoas vão aos cemitérios enfeitar as campas dos familiares falecidos
Todos os anos, na época dos Fiéis Defuntos, mais de três milhões de pessoas vão aos cemitérios enfeitar as campas dos familiares falecidos FOTO: Secundino Cunha
"Antes do pão, corta-se na devoção, por muito profunda que ela seja", disse ao Correio da Manhã Albertina Henriques, uma florista de Braga, referindo que "no ano passado, também não foi fácil, por esta altura já tinha o dobro das encomendas deste ano". Apesar de os preços serem praticamente os mesmos, a verdade é que os vendedores são unânimes em afirmar que este ano as pessoas estão a comprar menos e a procurar os produtos mais baratos. No enfeite de uma campa, cujo preço oscila entre os 15 e os 200 euros, as pessoas colocam, regra geral, flores de várias espécies, velas e lamparinas.
Em termos de custos o que mais pesa são, sem dúvida ,as flores. E a diferença está em optar, por exemplo, pelos mais vulgares crisântemos, cujo molho custa seis a oito euros, ou por arranjos de orquídeas ou antúrios, as flores de luxo, que chegam a custar mais de oitenta euros. "No ano passado, por esta altura, tinha encomendados mais de uma centena de arranjos de luxo e este ano estas encomendas não chegam a duas dezenas. A maior parte das pessoas está a optar pelas flores mais baratas e até por vasos de verdes, que se compram a cinco euros cada e se mantêm frescos ao longo de mais de um mês", disse ao CM a florista bracarense Maria do Sameiro. Para além dos vendedores também os compradores se queixam, referindo que, apesar da crise, não há meio de os preços baixarem.
Segundo o responsável pelo Cemitério de Braga, Inácio Camarinha, o fluxo de pessoas a adornar as campas tem sido, aparentemente, inferior ao de anos anteriores. Mas o que mais se nota, diz este responsável, "é uma redução bastante substancial na quantidade e na qualidade das flores que as pessoas colocam nas campas". "Ao contrário do que é habitual, há uma grande quantidade de jazigos que, nesta altura, não têm uma única flor, o que não é, de todo, habitual", disse Inácio Camarinha, referindo que "a crise nota-se a olhos vistos".
Feitas as contas, cada família gasta, em média, cerca de 25 euros, em velas, flores e outros adornos, para o arranjo das campas por alturas dos Fiéis Defuntos. Ora, de acordo com os dados dos Censos 2001, há em Portugal mais de três milhões de famílias católicas, pelo que o negócio dos Santos deve ultrapassar, no nosso País, os 75 milhões de euros.
TESTEMUNHOS
MARIA SAMEIRO (FLORISTA): OS PREÇOS MANTÊM-SE
"Este ano nota-se muito que as pessoas têm pouco dinheiro, por isso temos de manter os preços. No entanto, apesar de não haver aumentos, as pessoas compram muito menos do que no ano passado. Às vezes perguntam o preço e, mesmo antes de responder-mos, já estão a virar costas".
MARIA JÚLIA (DOMÉSTICA): CADA UM PÕE O QUE PODE
"Ao longo do ano costumo enfeitar as campas com flores que cultivo no meu jardim. Só agora, pelos Santos, é que opto por comprar umas flores melhores, como orquídeas, antúrios ou botões de rosa. Embora não costume optar por grandes luxos, chego, nesta altura, a gastar 75 euros em flores".
INÁCIO CAMARINHA (F, PÚBLICO): VÊ-SE QUE A CRISE CHEGOU
"Embora um pouco menos, as pessoas continuam a vir arranjar as campas dos seus familiares, mas nota-se bem que as flores são menos e de menor qualidade. Para além disso, este ano verificamos que há muitos jazigos onde, ao contrário do habitual, não foi ainda colocada uma única flor. As pessoas têm, de facto, menos dinheiro".
MARIA DA GRAÇA (DOMÉSTICA): VENHO CÁ UMA VEZ POR DIA
"Há onze anos que venho cá uma vez por dia, por isso mantenho a campa do meu falecido sempre arranjadinha. No entanto, nesta altura, compro umas flores melhores, mas corro muitas vendedoras à procura do preço mais barato. E as diferenças são muitas".
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