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Correio da Manhã

Portugal
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Degolada pelo noivo

"Descobri tudo. Matei a Sónia e agora vou matar-me a mim.” Segundo os vizinhos, este terá sido o desabafo que Márcio José Silva, de 25 anos, fez à mãe quando lhe ligou minutos antes de se atirar para a linha de comboio de Susão, Valongo, e morrer trucidado.
17 de Maio de 2005 às 00:00
O crime ocorreu nesta casa. Márcio Silva desconfiava que a noiva, Sónia Neves,  o traía com outro
O crime ocorreu nesta casa. Márcio Silva desconfiava que a noiva, Sónia Neves, o traía com outro FOTO: Álvaro C. Pereira
O jovem decidiu pôr termo à vida, anteontem à noite, minutos depois de ter degolado a noiva, Sónia Alexandra Neves, de 24 anos, na casa onde ela morava com a mãe, na Rua de Calfaioma, Valongo. A razão: ciúmes.
O casal namorava há cinco anos e tinha casamento marcado para o mês de Agosto, mas Márcio Silva deu um ponto final à história de amor dos dois. Anteontem, pelas 19h15, foi até ao quarto da namorada e golpeou-a com uma faca várias vezes nas costas e no pescoço, provocando-lhe a morte.
No lugar da Ferreirinha, no Vale do Sousa, onde o homicida morava com os pais e dois irmãos mais novos, os vizinhos, que não quiseram identificar-se, adiantaram ao CM os alegados motivos do crime: “Dizem que ela o traía com outro e que ele foi perguntar-lhe se era verdade. Parece que ela confirmou tudo e ele matou-a.”
Segundo um vizinho que conheceu de perto o homicida, “Márcio era uma pessoa muito calma e reservada”. “Se tinha problemas, não desabafava. Guardou tudo para ele. Acabou por explodir da pior maneira e matou a namorada”, disse.
Contrariamente aos vizinhos de Márcio Silva, os moradores mais próximos da casa de Sónia Neves, em Susão, não encontram explicação para a tragédia.
“A Sónia era uma boa menina, vivia para o trabalho e para o namorado. Até já tinha comprado o vestido de noiva”, afirmou Maria José.
Visivelmente transtornada, Margarida, moradora na casa contígua à de Sónia Neves, afirma que o casal se “dava bem” e que “nunca se ouviram discussões entre eles”.
Sónia Neves, empregada de escritório, vivia com a mãe, Olinda, e era filha única – o pai está de momento emigrado na Suíça. Anteontem à noite, estava com a mãe em casa quando se desentendeu com o namorado. Olinda ouviu-a gritar no quarto e tentou socorrê-la, mas não conseguiu evitar a sua morte.
Depois de desferir os golpes fatais, Márcio Silva seguiu até à linha férrea de Susão. Ligou para a mãe dizendo que se ia suicidar e percorreu a linha até à colisão frontal com um comboio. Teve morte imediata.
MATOU FILHO DA EX-NAMORADA
A PJ do Porto esclareceu o caso do jovem assassinado com dois tiros na cabeça, em finais de Abril, em Matosinhos, apurando que se tratou de uma vingança, porque a mãe da vítima interrompera um relacionamento amoroso com o homicida confesso, Nuno Fernandes, de 37 anos, desempregado e a residir perto do Estádio do Mar, Matosinhos.
De acordo com o que o CM apurou ontem junto de alguns vizinhos, Nuno chegou a viver alguns meses com a mãe do jovem assassinado, mas desentenderam-se. A vítima, António Ferreira, de 19 anos, foi baleada na madrugada de 26 de Abril, num dos túneis de acesso à Quinta a Conceição, perto da Exponor. O cadáver do jovem desempregado da Senhora da Hora só foi identificado devido à roupa desportiva. A brigada de homicídios apurou que na origem do crime esteve o facto de o homicida não se conformar por a mãe do jovem o ter deixado, desconfiando que o rapaz tenha contribuído para a o fim da relação.
No dia do crime, quando a vítima praticava desporto, encontrou-se com o ex-namorado da mãe e houve uma violenta discussão. O jovem foi morto com dois tiros na cabeça. O homicida está em prisão preventiva. A mãe da vítima - ex-namorada do homicida - ficou em choque e só esta semana vai prestar declarações à PJ.
DESCONFIANÇA É RAZÃO
Especialistas falaram ao CM sobre os crimes passionais e o sobre o facto do homem ser quase sempre o autor dos disparos – o meio mais utilizado. “Infidelidade, ciúme ou desconfiança da paternidade” foram os motivos que o psicólogo Américo Baptista apontou para os crimes passionais.
Não é que o homem seja mais agressivo que a mulher, o que Américo Baptista defende é que “as mulheres são mais agressivas verbalmente e os homens fisicamente”. Para o sociólogo Jorge de Sá, os crimes passionais estão relacionados com a violência doméstica. “O homem segue um modelo de violência que já vem da casa dos pais, e pensa que é esse o modelo correcto.” Apesar da evolução e da conquista de igualdade, as “mulheres continuam a ser vistas como as principais responsáveis pela lida da casa e pela educação dos filhos”, acrescentou.
O advogado Calisto de Melo chama-lhe ‘machismo lusitano’. “Apesar de, depois do 25 de Abril, a Lei ditar que somos todos iguais, o ‘status quo’ de homem dominador mantém-se”, justificou.
CIÚMES DE MORTE
Têm-se sucedido os casos de crimes passionais, normalmente praticados com recurso a arma de fogo. A motivação é sempre a mesma: ciúmes.
QUEIMOU A NAMORADA
No dia 2, um professor de Felgueiras, 27 anos, regou a namorada com gasolina e puxou-lhe fogo quando esta se preparava para terminar a relação. A vítima sobreviveu por pouco.
MORTA À MACHADADA
Um homem de 54 anos entregou-se à GNR de Paredes, a 4 de Abril: tinha morto a mulher a golpes de machado, dentro de casa, em Caíde Rei, Lousada.
MATOU-A NA CAMA
A 27 de Fevereiro, um agricultor de 56 anos matou a mulher com um machado, em Idanha-a-Nova, quando esta dormia.
ABATIDA A TIRO
Um emigrante no Luxemburgo, de 25 anos, tinha regressado há pouco tempo a casa, em Valongo. A 25 de Fevereiro assassinou a mulher a tiro, entregando-se de seguida na PSP.
MASSACRE EM S.XISTO
A aldeia de São Xisto ficou quase deserta a 21 de Janeiro. Um homem de 60 anos suicidou-se depois de abater a tiros de pistola e caçadeira a mulher, um vizinho e a mulher deste. A aldeia tinha sete moradores e só sobreviveram três.
SEPARAÇÃO FATAL
Um homem de 67 anos matou a mulher, de quem estava separado, com três tiros de revólver, e suicidou-se com um disparo na cabeça. O crime ocorreu a 15 de Dezembro em Valença.
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